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Inglaterra: Sarah Mullally, a primeira mulher arcebispa de Canterbury

A cerimônia de posse de Dame Sarah Mullally como a 106ª Arcebispa de Canterbury marca um novo capítulo na história do Anglicanismo.

Foto:  Archbishop of Canterbury/ Facebook

Foto: Archbishop of Canterbury/ Facebook

Redação (26/03/2026 16:37, Gaudium Press) Em uma cerimônia repleta de tradição eclesial e simbolismo histórico, Dame Sarah Mullally foi instalada como a 106ª Arcebispa de Canterbury — e, de forma inédita, a primeira mulher a liderar os cerca de 85 milhões de anglicanos em todo o mundo.

O evento, realizado na Catedral de Canterbury, em 25 de março de 2026, reuniu aproximadamente 2 mil convidados, incluindo o Príncipe e a Princesa de Gales, o primeiro-ministro britânico Sir Keir Starmer e a líder da oposição, Kemi Badenoch. A importância do momento era palpável: a Igreja da Inglaterra, nascida de séculos de tradição, testemunhava um marco que ecoava muito além de suas antigas paredes de pedra.

Uma cerimônia histórica no Dia da Anunciação

A instalação ocorreu no Dia da Anunciação, uma data carregada de significado religioso. A leitura do Evangelho, extraída do primeiro capítulo de São Lucas, foi feita em espanhol pela bispa anglicana do México, Alba Sally Sue. Já o coral africano de Norfolk entoou aclamações em suaíli, destacando o caráter global da Comunhão Anglicana.

Seguindo o tradicional ritual da “batida na porta” de Canterbury, Sarah Mullally esperou do lado de fora do portal oeste da catedral até que o deão David Monteith lesse uma carta autorizando sua recepção. Uma vez admitida, o arquidiácono de Canterbury, Dr. William Adam, a instalou formalmente na cátedra episcopal. Em seguida, ela ocupou a antiga Cadeira de Santo Agostinho, símbolo poderoso de seu papel como primus inter pares (“primeira entre iguais”) entre os bispos anglicanos.

A música ocupou lugar central na liturgia, com a peça “All Shall Be Well”, composta por Joanna Marsh com texto das Revelações do Amor Divino, de Juliana de Norwich — uma homenagem a outra mulher pioneira da fé inglesa.

 “Se quisermos ir mais longe, devemos ir juntos”

Os presentes foram convidados a dizer o próprio “sim” a Deus, assim como Maria o fez na Anunciação. O folheto do culto fez uma referência sutil às divisões internas da Comunhão Anglicana, citando uma frase da própria Mullally: “Se quisermos ir rápido, vamos sozinhos; mas se quisermos ir mais longe, devemos ir juntos”.

Entre os convidados ecumênicos e inter-religiosos estavam, o Cardeal Vincent Gerard Nichols – presidente da Conferência Episcopal Católica da Inglaterra –, o Cardeal Timothy Radcliffe, o Cardeal Kurt Koch –­ Prefeito do Dicastério para a Promoção da Unidade dos Cristãos –, o Arcebispo John Wilson de Southwark, o imã Qari Asim e Phil Rosenberg, presidente do Conselho dos Deputados dos Judeus Britânicos. No altar, Mullally prestou juramento de fidelidade às leis da Igreja da Inglaterra e ao rei Charles III, além de assinar um compromisso ecumênico pela unidade entre as igrejas cristãs do Reino Unido.

Em seu sermão, Sarah Mullally refletiu sobre a festa da Anunciação e o exemplo de Maria:

 “A jornada de Maria não foi fácil. Ela enfrentou desafios inimagináveis. A espada de dor e tristeza transpassou sua alma, mas mesmo isso foi transformado na alegria e na esperança da Ressurreição.”

Olhando para sua própria trajetória, ela destacou a decisão tomada na adolescência:

 “Ao olhar para trás, para a adolescente Sarah que depositou sua fé em Deus e se comprometeu a seguir Jesus, eu jamais poderia ter imaginado o futuro que me aguardava — e certamente não o ministério ao qual agora sou chamada.”

Formada como enfermeira e ex-chefe de enfermagem no Departamento de Saúde britânico, Mullally entrou para o ministério ordenado no início do século XXI. Foi ordenada diaconisa em 2001, presbítera em 2006 e bispa em 2015. Antes de ser nomeada para Canterbury, atuou como Bispa de Londres. Como gesto simbólico de fé e compromisso, caminhou 140 quilômetros de Londres até sua nova sé.

Desafios em uma comunhão dividida

Mullally assume o cargo em um período turbulento para o anglicanismo. Grupos conservadores, como a Global South Fellowship of Anglicans, têm questionado abertamente as estruturas tradicionais de liderança. Recentemente, o grupo elegeu o arcebispo Laurent Mbanda, de Ruanda — opositor da ordenação de mulheres bispos — como seu novo presidente, alegando representar a maioria dos anglicanos praticantes no mundo.

Embora o Arcebispo de Canterbury não tenha autoridade direta sobre as igrejas autônomas da Comunhão, o cargo continua sendo um símbolo vital de unidade e liderança moral. A instalação de Mullally reflete tanto a promessa quanto a tensão da identidade anglicana moderna: uma comunhão global que busca coesão em meio à diversidade teológica e cultural.

A dimensão real e o legado histórico

A presença do Príncipe William, representando a família real, reforçou os laços históricos entre a Coroa e a Igreja da Inglaterra. Nos últimos anos, tem crescido o interesse público pela fé de William, que, segundo assessores, “acredita nela, quer apoiá-la, e a vê como parte importante de seu papel atual e futuro”.

Fundada durante a Reforma, com o rompimento de Henrique VIII com Roma, a Igreja da Inglaterra é ao mesmo tempo uma instituição espiritual e nacional. Hoje, conta com entre 77 e 85 milhões de membros em todo o mundo. Com a posse de Sarah Mullally, a igreja cruza mais um limiar histórico: pela primeira vez em seus mais de 1.400 anos, é liderada por uma mulher.

Com informações Catholic Herald e KNA

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