Hoje completam-se 106 anos do falecimento de São Francisco Marto, vidente de Fátima
Menino plácido, meditativo e religioso, Francisco foi o primeiro a falecer, em 4 de abril de 1919, vítima da famosa gripe pneumônica que atingiu proporções de pandemia no fim da Primeira Guerra Mundial.
Redação (03/04/2025 17:55, Gaudium Press) Nossa Senhora apareceu em Fátima para Lúcia, Francisco e Jacinta. No entanto, um grave vaticínio pairava sobre Francisco e Jacinta: Nossa Senhora avisara que viveriam pouco e logo iriam para o Céu. Quem seria levado antes e em que condições? Eles próprios o ignoravam.
Entrementes não perdiam a menor oportunidade de oferecer sacrifícios para reparar as ofensas cometidas contra a linda Senhora e seu Filho Jesus.
Francisco foi o primeiro a falecer, em 4 de abril de 1919, vitimado pela famosa gripe pneumônica que tomou proporções de pandemia no fim da Primeira Guerra Mundial. Contava quase onze anos, sendo um ano e meio mais velho que Jacinta. Eram os filhos mais novos de Manuel Pedro Marto e Olímpia de Jesus dos Santos. Nas brincadeiras e no apascentar as ovelhas e o gado, estavam unidíssimos à prima Lúcia, cuja casa ficava próxima à sua.
Conta a Ir. Lúcia em suas Memórias que “Francisco não parecia irmão da Jacinta senão nas feições do rosto e na prática da virtude”, devido ao contraste entre a sua placidez e a vivacidade dela. Embora tomasse parte comprazido nos jogos, cedia facilmente às preferências alheias, sem fazer questão de ganhar. Quando as outras crianças negavam os seus direitos de vencedor, respondia: “Pensas que ganhaste tu? Pois sim! A mim isso não me importa”.
Em contrapartida, gostava muito de cantar e tocar pífaro, ausentando-se contente das rodas infantis para se entreter com sua música. Nas longas horas de pastoreio subia ao alto dos rochedos e ali tocava e entoava sozinho melodias populares da época, que exaltavam os encantos da região serrana portuguesa.
Junto com as duas meninas, ele esperava cair a noite para acompanhar Nossa Senhora e os Anjos acenderem suas velas, como chamavam as estrelas. Iam contando-as, uma a uma, até quando já não podiam enumerá-las. O que mais apreciava mesmo era contemplar o nascer e o pôr do sol, a seu ver superior em beleza à lua ou às estrelas: “Nenhuma candeia é tão bonita como a de Nosso Senhor”, comentava com Jacinta, referindo-se ao sol, sabendo que a irmãzinha preferia a lua, tida como de Nossa Senhora, porque não feria a vista.
O mais religioso
Quem observasse Francisco com superficialidade, talvez tivesse a impressão de ser ele um menino como os outros, e um tanto distraído. Os acontecimentos que se desenrolaram na Cova da Iria, contudo, revelaram a verdadeira estatura daquele que, dentre os videntes, era “o mais religioso de todos”.
O amor transbordante do menino por Jesus e a resolução de confortá-Lo têm sua origem na Comunhão trazida pelo Anjo e, em especial, nas aparições de junho, julho e outubro, em que Nossa Senhora os fez ver a luz inacessível da Trindade. Esta dádiva atraiu-o de maneira definitiva, ocasionando um maravilhamento nunca superado: “Nós estávamos a arder, naquela luz que é Deus, e não nos queimávamos. Como é Deus!!! Não se pode dizer! Isto sim, que a gente nunca pode dizer! Mas que pena Ele estar tão triste! Se eu O pudesse consolar!…”
Este anseio, nascido em sua alma virginal, não era apenas fruto de um arroubo de efêmera duração. O Beato Francisco Marto estava decidido a consolar Jesus com todos os meios ao seu alcance, em particular pela própria conversão.
Ao conhecer a Rainha dos Céus, Francisco passa a viver em outro patamar: seus afetos são todos para Ela e seu Divino Filho, seu pensamento voa a cada instante para o sacrário onde está Jesus escondido, como ele se referia ao Santíssimo Sacramento, e suas ações nascem do contínuo e entranhado relacionamento interior com o Imaculado Coração de Maria.
Mudança de vida
Como ser o mesmo e voltar aos antigos divertimentos depois de sentir sobre si o dulcíssimo olhar da Senhora do Rosário? Por isso, ao entoar as primeiras estrofes de uma das canções que antes o empolgavam, ele decide: “Não cantemos mais. Desde que vimos o Anjo e Nossa Senhora, já não me apetece cantar”.
As esporádicas inobservâncias domésticas ou as preguiças de Francisco deixam de existir; elas cedem lugar a um espírito penitente e contemplativo, ávido por consolar Jesus e colaborar com o oferecimento de sua vida para a magnífica vitória da Santa Igreja nos acontecimentos que lhe foram revelados.
Em fins de outubro de 1918, Francisco e Jacinta adoeceram gravemente para não mais se recuperarem. Uma forte febre os consumia. No princípio dava esperança de cura, não tardando em mostrar-se irreversível.
A celestial Senhora visitou a casa da família Marto para confortá-los, como contou Jacinta à prima Lúcia: “Nossa Senhora veio-nos ver e diz que vem buscar o Francisco muito breve para o Céu”. Desde então, os dois irmãos aguardavam com ardente amor o dia jubiloso de partirem para a eternidade.
No dia 3 de abril de 1919, um sacerdote veio trazendo de Fátima o Viático para Francisco, que há meses O pedia com fervor. Aquela foi a sua segunda Comunhão, precedida pela que recebera das mãos angélicas. O anseio veemente de comungar consistiu, durante o período da doença, o único estímulo que o animava a viver e, quando pôde por fim receber a Eucaristia, confessou à Jacinta: “Hoje sou mais feliz que tu, porque tenho dentro do meu peito a Jesus escondido. Eu vou para o Céu; mas lá vou pedir muito a Nosso Senhor e a Nossa Senhora que vos levem também para lá depressa”.
Na manhã do dia seguinte, sem agonia nem estertores, com a serenidade de quem entra no suave descanso dos justos, Francisco Marto expirou santamente em Aljustrel. Acompanharam o cortejo fúnebre do pastorinho apenas alguns conhecidos, recitando o Terço em singela homenagem até o cemitério da freguesia de Fátima.
Texto extraído, com adaptações, da Revista Arautos do Evangelho n. 184, abril 2017. Por Ir. Carmela Werner Ferreira, EP.
Deixe seu comentário