França: Católico e pró-vida Quentin foi assassinado
Quentin Deranque era um católico convertido, que conseguiu convencer seu pai a ser crismado. A família Deranque tornou-se um pilar da paróquia.

Foto: @Le Figaro, cedida pela família
Redação (19/02/2026 08:37, Gaudium Press) Alguns veículos de imprensa rapidamente optaram por títulos que caricaturizavam Quentin Deranque, o jovem católico convertido e defensor da vida, assassinado em Lyon: “Polícia da França prende 11 suspeitos de envolvimento em morte de ativista de extrema direita”, dizia um; “11 suspeitos são presos no caso da morte de militante de ultradireita espancado em Lyon”, afirmava outro. Expressões que, para muitos, pareciam suavizar ou até justificar o crime brutal.
Tudo aconteceu no último dia 12 de fevereiro de 2026. Quentin, de 23 anos, foi participar de uma manifestação contrária a uma conferência pró-palestina, organizada por um partido de esquerda, em Lyon. Ele estava ao lado de militantes do coletivo Némésis — fundado em 2019 com o propósito de defender os direitos das mulheres ocidentais contra certas vertentes do feminismo contemporâneo. Segundo as investigações policiais, ele foi atacado violentamente por membros da chamada Jeune Garde, grupo ligado à organização política que promovia o evento. Dois dias depois, no dia 14, Quentin morreu em decorrência dos graves golpes recebidos, que causaram um traumatismo craniano irreversível.
Mas quem era, de fato, esse jovem rotulado como “fanático ultradireitista”? Um perfil detalhado, baseado em reportagem do jornal Le Figaro, mostra um retrato bem diferente.
Quentin não tinha qualquer antecedente criminal. Era um estudante dedicado e trabalhador incansável. Em foto divulgada pela família, aparecia como um rapaz de cabelos escuros (herança da mãe de origem hispano-americana), magro e esportista: havia jogado tênis na adolescência e, mais recentemente, começado boxe. Um colega de apartamento no 5º distrito de Lyon, Rémy, brincava carinhosamente com sua magreza: “Era um magrelo!”, dizia, incentivando-o a treinar musculação para aguentar melhor no ringue.
O mais organizado do grupo de amigos, acordava às 7h, mantinha o quarto impecável e se vestia com esmero. Não perdia tempo no celular: estava sempre ocupado. Cursava ciência de dados na Universidade Lyon 2, após já ter concluído uma graduação em matemática, e conciliava os estudos em finanças e informática com um emprego na SNCF, a companhia ferroviária francesa. Frequentemente estudava até altas horas, sob olhares reprovadores dos colegas mais sociáveis. Morava longe dos pais, em Vienne, para onde voltava quase todo fim de semana para ver a família e a irmã caçula, com quem era muito unido. Mantinha laços fortes com parentes peruanos, que havia visitado no verão anterior.
Sua paixão maior eram os livros. Tinha uma biblioteca impressionante, o que o tornava conhecido pela vasta cultura entre os conhecidos: “Ele lembrava de tudo, sabia de tudo”, diziam. Discutia filosofia e história com entusiasmo. Lia Anacharsis Cloots sobre a Revolução Francesa, debatia sobre Rousseau, refutando o Contrato Social, rejeitava a predestinação calvinista e mergulhava na Suma Teológica de São Tomás de Aquino e nas encíclicas papais. Aristóteles, São Tomás e Santo Agostinho formavam o tríptico intelectual sobre o qual esse jovem incansável em busca de respostas procurou fundamentar seu pensamento.
Essa busca intelectual o levou, na idade adulta, a uma profunda sede espiritual. Batizado na infância em uma família pouco praticante, suas leituras o reconduziram às igrejas. Ele afirmava que a beleza das formas e ornamentos na celebração do antigo rito também constituía uma poderosa alavanca para a evangelização, por isso, frequentava capelas tradicionalistas em Lyon, como a paróquia Saint-Georges, no centro histórico, e a Igreja do colégio Saint-Just, na colina de Fourvière, atendida por sacerdotes da Fraternidade Sacerdotal São Pedro. Cantava no coro, participava de saídas noturnas para ajudar moradores de rua, e também assistia ocasionalmente à missa nova na paróquia Sainte-Croix.
Como Paul Sugy relatou no Le Figaro, a fé de Quentin não era uma prática só pessoal: era missionária. Incentivava amigos a irem à missa com ele, ensinava a usar o missal. Tinha zelo especial pela transmissão da fé aos mais jovens, frequentava conferências do Círculo São Alexandre, nas quais sacerdotes e professores de filosofia ofereciam formação teológica aos fiéis de Lyon. Quentin havia lido e meditado sobre os escritos de São João Paulo II sobre fé e razão e julgava que as duas eram inseparáveis. Participava da peregrinação de Chartres e, no ano passado, ano passado, ele participou da sua réplica provençal, “Nosto Fe”, na qual encontrou, como contou a um amigo, uma profunda alegria em reencontrar as suas próprias raízes paternas.
Há dois anos, após a crisma, foi padrinho de crisma do próprio pai, que decidiu seguir o filho no caminho da fé. A família Deranque se tornou ativa nas paróquias Notre-Dame-de-l’Isle de Vienne e Saint-Théodore de Jardin. “Quentin era um católico identitário: patriotismo e amor a Deus andavam juntos nele”, resume uma amiga, Domitille, que o via como alguém completo, que ia até o fundo das coisas. Embora não fosse membro formal da Academia Christiana, participava regularmente de suas atividades e conferências, defendendo um catolicismo integral.
No campo político, posicionava-se na direita nacionalista e iliberal. Amava seu povo e sua civilização, mas “ao mesmo tempo abraçava a modernidade”, segundo seus amigos. Manifestou-se contra a lei de eutanásia em frente ao Tribunal de Lyon, na primavera passada, ajudou em colagens de cartazes com amigos ligados à Action Française (sem militância ativa), esteve ligado ao coletivo Audace, que surgiu de membros do Bastion Social, um grupo nacionalista dissolvido em 2019. E, no ano passado, passou a ser membro ativo na fundação de um novo grupo nacionalista em Bourgoin-Jallieu, Les Allobroges, participando da manifestação do Comitê 9 de Maio de 2025.
No entanto, segundo ativistas de Lyon, Quentin nunca havia se envolvido em confrontos físicos com antifascistas até aquela noite fatal, quando seus agressores o espancaram até a morte. Sua mãe havia expressado preocupação com suas atividades em diversas ocasiões; segundo alguns amigos, Quentin acatou parcialmente seu conselho, concentrando-se mais em suas atividades paroquiais. Indignava-se com injustiças, como no caso de uma candidata de esquerda à Prefeitura de Vienne que zombou de uma jovem assassinada por um criminoso reincidente com ordem de deportação. Quentin planejava imprimir e distribuir folhetos sobre o caso antes das eleições municipais.
Naquela quinta-feira, amigos tentaram dissuadi-lo de ir ao evento do Némésis: o ambiente era desorganizado e muito perigoso. A resposta foi firme: “Nem pensar, não se deixa meninas jovens sozinhas”. Mais tarde, ao ver que as ativistas do grupo haviam sido espancadas, Rémy enviou a ele uma mensagem em tom de brincadeira: “Dizem que rolou uma boa surra”. Quentin não lhe pode responder.





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