Gaudium news > Ex-diretor de seminário anglicano de Oxford ingressa na Igreja Católica

Ex-diretor de seminário anglicano de Oxford ingressa na Igreja Católica

       Ele formou gerações de clérigos anglicanos em Oxford e, durante quatro décadas, buscou respostas dentro de sua Igreja. No fim, Robin Ward encontrou seu destino em Roma.

Foto: X @CanonRobinWard

Foto: X @CanonRobinWard

Redação (22/02/2026 11:04, Gaudium Press) Robin Ward, cônego anglicano e estudioso de patrística, que dirigiu por quase duas décadas a St. Stephen’s House, principal faculdade de Teologia da Igreja da Inglaterra (anglicana) em Oxford, foi recebido na Igreja Católica. Sua conversão reforça uma tendência crescente de retorno à plena comunhão com a Igreja Católica entre figuras proeminentes do anglicanismo, especialmente em um momento de transformações significativas na Igreja da Inglaterra.

Aos 60 anos, Ward anunciou em 14 de fevereiro passado, por meio de suas redes sociais, que havia sido recebido na Igreja Católica na Abadia Beneditina de São Miguel, em Farnborough, pelas mãos do abade beneditino Dom Cuthbert Brogan. A informação foi confirmada em entrevista exclusiva ao jornalista Edward Pentin, do National Catholic Register.

Um caminho de quatro décadas

Signo te signo crucis, et confirmo te chrismate salutis — com essas nove palavras, recebi o selo do Espírito Santo no Sacramento da Confirmação, selando uma jornada que iniciei há cerca de 40 anos na cidade de Oxford, onde passei a maior parte da minha vida adulta”, declarou Ward ao Register em 18 de fevereiro.

Ele destacou o apoio de inúmeras pessoas que rezavam por ele há anos e expressou alegria “sem arrependimento nem hesitação” por esse momento. Escolheu como nome de confirmação John Henry, em homenagem a São John Henry Newman, figura central em sua trajetória intelectual e espiritual.

Ward estudou literatura inglesa medieval no Magdalen College, em Oxford, antes de se formar como vigário no próprio St. Stephen’s House entre 1988 e 1991. Posteriormente, obteve doutorado no King’s College London com uma tese sobre o cisma de Antioquia no século IV. Ordenado na Igreja da Inglaterra em 1992, atuou em diversas paróquias e capelanias. Em 2004, foi nomeado cônego honorário da Catedral de Rochester e representou a diocese no Sínodo Geral. Em 2006, assumiu a direção do St. Stephen’s House, cargo que ocupou por 19 anos até renunciar no ano passado.

O peso simbólico do St. Stephen’s House

Conhecido carinhosamente como “Staggers”, o St. Stephen’s House ocupa lugar singular na história do anglicanismo. Fundado em 1876, é considerado — nas palavras de Gavin Ashenden, ex-anglicano recebido na Igreja Católica em 2019 — “a última faculdade teológica que representa as aspirações do Movimento de Oxford do século XIX”. Esse movimento, também chamado Tractariano, buscou resgatar a continuidade entre o anglicanismo e a Igreja Católica, gerando algumas das conversões mais emblemáticas da história, incluindo a de Newman.

Ward foi criado na tradição do anglicanismo de “baixa igreja” — uma vertente que, segundo ele, “quase não existe mais”. Foi durante os anos em Oxford, no mesmo colégio onde lecionou C.S. Lewis, que descobriu o anglocatolicismo e se encantou com “a fusão do século XIX entre teologia e ritualismo romântico”.

No entanto, ao ensinar no St. Stephen’s House e transmitir a teologia que o inspirara, percebeu que “uma série de desenvolvimentos parecia obscurecer o que mais valorizava”. Dirigir um seminário, explicou, envolve propor aos alunos três perguntas essenciais: “Quem é Jesus Cristo? O que é um sacerdote? O que é a Igreja?”. A resposta à última questão, segundo ele, tornava-se “cada vez menos satisfatória” — percepção compartilhada não só por ele, mas também por alunos antigos e atuais.

A influência de Newman e a vitalidade católica em Oxford

Outro elemento decisivo foi a “proximidade com a energia e a caridade da vida católica em Oxford”: os dominicanos de Blackfriars, os jesuítas de Campion Hall e os oratorianos de São Aloysius. Ward destacou também a “presença constante” de Newman em sua vida intelectual. Nos anos 1980, quando Newman começou a ser redescoberto, era ainda, segundo Ward, “alguém a quem não se havia feito justiça”. Hoje, é amplamente reconhecido — como previu o teólogo jesuíta Erich Przywara — como “um mestre para nossa época, assim como Agostinho o foi para a Antiguidade e Tomás de Aquino para a Idade Média”.

“À medida que aprendemos a compreendê-lo melhor, aprendi a ver, através de seu carisma singular — tão próximo do Oxford que conheci e amei por tanto tempo —, o caminho para o Único Rebanho do Redentor”, afirmou Ward.

Olhando para o futuro, citou um verso do hino Lead, Kindly Light, de Newman para expressar sua disposição diante da nova etapa: “Agora preciso aprender a viver dentro de casa e confiar na providência de Deus para a obra e a vocação que Ele tem planejado para mim: um passo é suficiente para mim”.

Uma tendência em ascensão

A recepção de Ward soma-se a uma onda de conversões de alto perfil na Igreja da Inglaterra nos últimos cinco anos, incluindo ex-bispos anglicanos como Michael Nazir-Ali, Jonathan Goodall, John Goddard, Peter Forster, Richard Pain e John Ford. Desde 1992, cerca de 700 clérigos e religiosos anglicanos no Reino Unido foram recebidos na Igreja Católica.

O fenômeno não se restringe ao clero. Na semana passada, o Oratório de Oxford, na paróquia de São Aloysius — um dos centros mencionados por Ward como influentes em sua jornada —, informou ter recebido mais pessoas nos dois primeiros meses de 2026 do que em todo o ano anterior, conforme o Catholic Herald. A comunidade apresenta intensa vida sacramental: os sacerdotes ouvem cerca de 1.200 confissões por mês e celebram missa diariamente nas formas ordinária e extraordinária do rito romano.

Gavin Ashenden avaliou o caso de Ward como de “simbolismo profundo”, pois ele representa “a última geração de anglocatólicos que sobrevivia dentro da transformação progressista do anglicanismo”. Sua conversão, acrescentou, “será certamente vista por muitos como um sinal de que este é o único caminho para expressar uma espiritualidade católica e um compromisso eclesial autêntico, agora que a revolução modernista e feminista no anglicanismo demonstrou não estar disposta a qualquer compromisso significativo com quem busca preservar elementos de identidade e lealdade católicas”.

Com informações Infocatólica

Deixe seu comentário

Notícias Relacionadas