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EUA: preocupação do movimento pró-vida com as posições abortistas do governo

Peter Laffin, atual editor sênior do Washington Examiner, classificou a administração Trump-Vance como “a mais anti-vida de toda a história republicana”.

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Redação (16/01/2026 08:59, Gaudium Press) Desde que assumiu a presidência, Donald Trump nunca escondeu seu apoio declarado à causa pró-vida. No entanto, sua atuação concreta nessa área mostrou-se bem menos incisiva durante o segundo mandato — fato que começa a gerar inquietação crescente até mesmo dentro de sua própria base eleitoral.

É o que aponta um artigo de Peter Laffin no Washington Examiner, publicado em 10 de janeiro de 2026, segundo o qual “a administração Trump-Vance é, de longe, a mais anti-vida de toda a história republicana”. Como o próprio autor destaca: “se você não acompanhou as notícias do movimento pró-vida ao longo do primeiro ano do segundo mandato de Trump, o título deste artigo provavelmente vai surpreendê-lo”.

Os juízes de Trump derrubaram Roe v. Wade… e depois?

De fato, os magistrados indicados por Trump foram decisivos para eliminar as proteções federais ao aborto estabelecidas pela histórica sentença Roe v. Wade — razão pela qual, no início, Trump foi amplamente celebrado como o presidente mais pró-vida que os Estados Unidos já tiveram.

Somaram-se a isso gestos de forte simbolismo positivo: a participação (por videoconferência) do presidente na Marcha pela Vida, em Washington, e o indulto concedido aos 23 ativistas pró-vida condenados por ações contra o aborto. Não surpreende, portanto, que durante os primeiros seis meses da administração Trump-Vance os veículos e organizações pró-vida tenham enchido as redes sociais, celebrando vitórias e compartilhando fotos de JD Vance ajoelhado e rezando no Vaticano.

O afastamento progressivo

Mas o cenário mudou. Aos poucos, Trump passou a se distanciar cada vez mais do movimento pró-vida, a ponto de sua atual administração ser classificada por Laffin como “o governo republicano que é, de longe, o mais anti-vida da história, sob qualquer perspectiva”.

Neste sentido, o primeiro grande sinal foi a defesa entusiasmada da fertilização in vitro (FIV), técnica que, na prática, gera a destruição sistemática de grande número de embriões considerados “excedentes”. Inicialmente muitos tentaram justificar Trump, argumentando que, não sendo católico, talvez ele não tivesse plena consciência deste aspecto abortivo que envolve a FIV (que, mesmo sem considerar os embriões descartados, é imoral sob a ótica católica).

Mais tarde, percebendo que a luta contra o aborto já não era eleitoralmente vantajoso, Trump tomou uma das decisões mais graves de seu segundo mandato: retirou completamente a linguagem pró-vida da plataforma oficial do Comitê Nacional Republicano, encerrando assim qualquer compromisso institucional do partido com a causa antiaborto — algo que nenhum outro presidente republicano jamais ousou fazer.

Promoção do aborto por correio

Mais recentemente, a administração Trump parece ter passado a favorecer ativamente as pílulas abortivas por via postal. O Departamento de Justiça tem defendido as regras criadas na era Biden que permitem a prescrição de mifepristona (pílula abortiva) por telemedicina e o envio pelo correio. Em maio, o DOJ pediu a um tribunal federal do Texas que rejeitasse uma ação movida por três estados de maioria republicana que tentavam derrubar essa norma. Em outubro, a FDA aprovou ainda uma nova versão genérica do medicamento.

O “aborto por correspondência” anula a vitória de Roe

O “aborto por correio” neutraliza, na prática, o grande feito do primeiro mandato de Trump — a revogação de Roe v. Wade. Esse sistema garante acesso praticamente irrestrito ao aborto independentemente do estado de residência, explicando, em grande medida, o aumento nacional do número de abortos após a queda de Roe. Atualmente, os abortos por pílula representam cerca de dois terços de todos os procedimentos realizados no país.

O golpe final no Hyde Amendment

Na semana passada, Trump foi ainda mais longe: pediu publicamente que os legisladores republicanos fossem “flexíveis” em relação à Emenda Hyde — a histórica disposição que proíbe o uso de recursos federais para financiar abortos. Até a chegada de Trump ao segundo mandato, nenhum presidente republicano havia sequer cogitado flexibilizar essa barreira, considerada por muitos “o mínimo indispensável” para que qualquer político republicano que deseje os votos pró-vida.

Conclusão de Laffin

Para Peter Laffin, o saldo é claro e doloroso: “Trump e Vance vêm, de forma sistemática, desmontando o movimento pró-vida e reduzindo os padrões ao mínimo possível”. Ainda assim, grande parte das organizações e voluntários pró-vida continua hesitante em responsabilizar Trump ou rejeitar publicamente sua postura cada vez mais favorável ao aborto.

Como chegamos a esse ponto?

A resposta, segundo o autor, é simples: “Você não pode coroar um rei e depois esperar que ele preste contas”. Seduzidos pelos primeiros grandes êxitos, líderes e a mídia pró-vida convenceram a base de que Trump era irrepreensível na questão do aborto — exatamente enquanto ele, passo a passo, abandonava as prioridades históricas do movimento. É possível que, após tanta exaltação, os líderes do movimento já não detenham força suficiente para mobilizar a base fiel contra a própria administração Trump-Vance.

Um despertar tardio

Nos últimos meses, o movimento pró-vida começou, ainda que lentamente e com atraso, a despertar. Tudo indica que a Casa Branca pretende se distanciar ainda mais da causa pró-vida com vistas às próximas eleições — a menos que haja uma mobilização rápida e decidida.

Como observa o filósofo católico Edward Feser: “Os democratas são uma causa perdida. O Partido Republicano era a única ferramenta institucional importante que restava aos conservadores em questões sociais. A única coisa que eles podem fazer é deixar claro que não votarão no Partido Republicano se este os trair. Tolerar a traição sem reclamar é suicídio.”

A Marcha pela Vida de Washington está marcada para o final de janeiro. Resta saber se os oradores terão coragem de dizer a verdade incômoda — que a atual Casa Branca é fortemente favorável ao aborto — ou se continuarão se contentando com migalhas, nomeações e gestos simbólicos enquanto o número de abortos segue crescendo.

Afinal, como lembra Laffin, “a defesa da vida dos nascituros nunca foi uma causa conveniente politicamente. É um movimento para corajosos, não para indecisos. E, com certeza, não para bajuladores”.

Com informações Washington Examiner e Infocatólica

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