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Em meio à guerra, franciscanos refazem os passos de Cristo pelas ruas vazias de Jerusalém

Na manhã desta sexta-feira, 3 de abril, em Jerusalém, alguns frades franciscanos realizaram a Via Sacra pelas ruas da Cidade Velha de Jerusalém.

Foto: ‎Latin Patriarchate of Jerusalem/ Facebook

Foto: ‎Latin Patriarchate of Jerusalem/ Facebook

Redação (03/04/2026 10:32, Gaudium Press) No silêncio da manhã desta Sexta-feira Santa, dez frades franciscanos reviveram uma antiga tradição que atravessa os séculos. Guiados pelo Custódio da Terra Santa, Fr. Francesco Ielpo, eles refizeram os passos de Jesus pela histórica Via Dolorosa, no coração da Cidade Velha de Jerusalém — a Via Sacra.

Para Fr. Ibrahim Faltas, diretor das Escolas da Custódia da Terra Santa, aquele momento representou uma continuidade solene em meio a uma normalidade quebrada. Era um ato de devoção que desafiava a dura realidade de uma região marcada pela guerra.

Desde o final de fevereiro, a Cidade Santa tem sido coberta pela sombra da violência que se espalhou pelo Oriente Médio. O conflito atingiu até mesmo os lugares sagrados, limitando a capacidade dos fiéis de se reunirem para as celebrações da Quaresma e do Tríduo Pascal. Para os franciscanos, a presença reduzida de peregrinos e o vazio das ruas antigas refletiam a própria tristeza que está no coração da Paixão que eles celebram.

“Os dias e as horas do Tríduo Pascal alternam entre dor, traição e a escuridão do abandono — até que finalmente vislumbremos a Luz”, refletiu Fr. Faltas.

A procissão modesta deste ano trouxe à memória um momento vivido seis anos antes. Na Sexta-Feira Santa de 2020, em plena pandemia global, apenas três franciscanos percorreram o mesmo caminho: Fr. Francesco Patton, então Custódio da Terra Santa, Fr. Marcelo Cicchinelli, guardião de São Salvador, e o próprio Fr. Faltas. Sob o olhar de soldados e sem a presença de peregrinos, eles realizaram a Via Sacra. Naquela ocasião, como agora, a ausência se transformou em uma forma de presença — um ato de fé em meio à adversidade.

As origens dessa devoção se perdem na antiguidade, envoltas em tradição e mistério. Não há registro exato de quando os fiéis começaram a meditar sobre os sofrimentos de Cristo nas ruas de Jerusalém. Fr. Faltas imagina que a própria Maria, Mãe de Deus, pode ter percorrido aquele caminho após a morte do Filho — sentindo cada passo, recordando cada queda e renovando sua dor pelas chagas que Ele carregou.

Séculos depois, a peregrina Egeria descreveu como os cristãos locais faziam o mesmo: reviviam a Paixão de Jesus exatamente onde ela aconteceu, santificando as pedras com lágrimas e oração.

No entanto, foi São Francisco de Assis quem deu novo impulso a essa lembrança, segundo Fr. Faltas. Sua peregrinação de paz à Terra Santa no século XIII despertou o desejo de que seus seguidores cuidassem desses lugares sagrados. Movido pelo Menino de Belém e pela compaixão de Cristo sofredor, São Francisco lançou as bases do que se tornaria a Custódia Franciscana da Terra Santa.

“Gosto de imaginar que foi na própria Via Sacra que São Francisco sonhou, pela primeira vez, que seus frades se tornariam guardiões dos Lugares Santos”, disse Fr. Faltas.

Esse sonho se concretizou em 1333, quando os franciscanos começaram formalmente a preservar os Lugares Santos que marcam os momentos centrais da vida, morte e ressurreição de Jesus. Menos de uma década depois, o papa Clemente VI confiou-lhes permanentemente essa missão. “Habitar nos Lugares Santos e celebrar neles Missas cantadas e o Ofício Divino” tornou-se não apenas um dever, mas um privilégio sagrado.

Ao longo dos séculos, os frades enfrentaram invasões, pragas e, agora, a guerra moderna. Ainda assim, cada geração renova o mesmo voto: permanecer, rezar e manter viva a memória da salvação numa terra frequentemente ferida pelo conflito.

Nesta Sexta-Feira Santa, esse compromisso se destacou contra o pano de fundo de pátios vazios e capelas fechadas. Mesmo assim, havia motivos para a esperança. O Papa Leão XIV convidou pessoalmente Fr. Francesco Patton — o antigo Custódio da Terra Santa — para preparar as meditações da tradicional Via Sacra no Coliseu de Roma, presidida pelo próprio Pontífice. Para a Custódia, foi “um momento de graça em meio a muitas tribulações”, um lembrete de que, mesmo no sofrimento, a história cristã se inclina para a ressurreição.

Para os frades, a Via Sacra é muito mais do que um trajeto por vielas de pedra antiga. É uma peregrinação viva que une passado e presente, dor e promessa. Em cada eco dos seus passos sobre as pedras gastas de Jerusalém, os fiéis ouvem novamente a verdade que os sustenta: a fé resiste mesmo no silêncio, e a luz sempre retorna após a noite mais longa.

Com informações Vatican News

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