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Dom Heiner Wilmer eleito presidente da Conferência Episcopal Alemã

 Nesta terça-feira, 24 de fevereiro de 2026, durante a sua assembleia plenária de primavera, os bispos da Alemanha elegeram Dom Heiner Wilmer como novo presidente da Conferência Episcopal Alemã (DBK), para suceder o bispo Georg Bätzing de Limburg, que ocupou o cargo por seis anos.
Foto: Bistum Essen

Foto: Bistum Essen

Redação (25/02/2026 09:26, Gaudium Press) Da lavoura de Emsland, na Alemanha rural, às ruas agitadas do Bronx, em Nova York, e aos corredores solenes do Vaticano: a vida de Dom Heiner Wilmer é uma verdadeira peregrinação marcada pela humildade, inteligência e liderança. Aos 64 anos, religioso dehoniano (da Congregação dos Sacerdotes do Sagrado Coração de Jesus), que lidera a Diocese de Hildesheim desde 2018, acaba de assumir um dos cargos mais desafiadores da Igreja Católica na Alemanha: presidente da Conferência Episcopal Alemã (DBK Deutsche Bischofskonferenz).

Ele sucede Dom Georg Bätzing, de Limburg, que ocupou o cargo por seis anos. Reconhecido por sua capacidade de mediar entre conservadores e reformistas, Wilmer representa um caminho de equilíbrio em um momento em que a Igreja católica alemã enfrenta divisões internas, queda no número de fiéis e desconfiança da sociedade.

“Os tempos em que o bispo era um governante já passaram”, disse Wilmer certa vez, destacando uma visão pastoral centrada na escuta, na corresponsabilidade e no diálogo.

Raízes profundas e horizonte global

Nascido em 9 de abril de 1961, em Emsland, uma região agrícola do norte da Alemanha, Wilmer cresceu com as mãos na terra e carrega até hoje a autenticidade simples da vida no campo. Ele ainda fala baixo-alemão (Plattdeutsch – dialeto falado na região norte da Alemanha) e, segundo ele mesmo, manobra um trator com a mesma naturalidade com que faz uma homilia. Aos 19 anos, ingressou na Congregação dos Dehonianos, iniciando uma jornada que o levaria muito além das fronteiras alemãs.

Estudou Teologia e Humanidades em Freiburg, Paris e Roma, concluindo doutorado na Universidade de Freiburg em 1991, com tese sobre misticismo na filosofia de Maurice Blondel.

Ensinou no Bronx, em Nova York, onde conviveu de perto com a pobreza urbana e a riqueza da fé multicultural. Depois, dirigiu o colégio de sua congregação em Handrup e foi superior provincial na Alemanha. Em 2015, Roma o chamou: como superior geral dos Dehonianos, coordenou uma rede mundial de sacerdotes e educadores, o que ampliou sua visão sobre os desafios globais da Igreja e o ritmo lento, mas profundo, das reformas necessárias.

Embora seu nome tenha sido cotado para cargos importantes no Vaticano (inclusive na Congregação para a Doutrina da Fé), o Papa Francisco optou por outro caminho. Wilmer aceitou com serenidade.

Em 6 de abril de 2018, foi nomeado bispo de Hildesheim pelo Papa Francisco e recebeu a ordenação episcopal em 1º de setembro daquele mesmo ano.

Desde setembro de 2021, Wilmer preside a Comissão para as Questões Sociais e da Sociedade dentro da Conferência Episcopal Alemã. Da mesma forma, foi presidente da Comissão Alemã Justiça e Paz entre 2019 e 2024.

Reforma e renovação em Hildesheim

Ao voltar à Alemanha em 2018 como bispo de Hildesheim, encontrou uma diocese extensa — das montanhas do Harz ao Mar do Norte —, com paróquias encolhendo e finanças apertadas. Deu continuidade às medidas de austeridade e venda de imóveis iniciadas pelo antecessor, prevendo que cerca de metade dos 1.400 edifícios da diocese possa ser fechada até 2030.

Mas, para Wilmer, reforma vai além de consolidação, é sinônimo de renovação. Peregrinações com jovens, novas formas de presença pastoral e coragem para enfrentar verdades incômodas sobre o passado da Igreja marcam sua gestão.

Seu compromisso em combater o abuso sexual é inabalável. Vários estudos acadêmicos analisaram casos na diocese, e Wilmer encomendou pesquisas que se estendem até 2024 — incluindo seu próprio mandato. “Precisamos iluminar essa escuridão”, afirmou, “até os dias de hoje”.

Diálogo entre Igreja e sociedade

Como ex-presidente da Comissão para Questões Sociais e Societais da DBK, Dom Wilmer aborda justiça social, mudanças demográficas e ética ambiental com clareza e convicção. Em discurso em Berlim, defendeu equilíbrio na reforma previdenciária: “Não pode ser que o ônus recaia só sobre a geração mais jovem”, disse, ao mesmo tempo em que alertou contra a pobreza dos idosos após a aposentadoria.

As mudanças climáticas também o preocupam profundamente. Dez anos após a encíclica Laudato si’, ele lamentou que o mundo se torna “mais cínico”, e que as políticas correm o risco de transformar acordos ecológicos em “uma farsa”.

No campo ecumênico, sua atuação é prática: em parceria com líderes protestantes, ajudou a criar o primeiro currículo conjunto de ensino religioso cristão da Alemanha, previsto para ser implementado na Baixa Saxônia em 2026.

Fé, liderança e humanidade

Mesmo com as novas responsabilidades, Wilmer preserva suas raízes contemplativas. Em 2024, publicou Herzschlag (Batimento Cardíaco), um diálogo criativo e espiritual com Etty Hillesum, judia assassinada em Auschwitz — um livro que reflete sua busca por profundidade interior.

Ele anda de bicicleta para relaxar, torce pelo time de futebol de sua cidade natal, o FC Schapen 27, e continua sendo um leitor ávido. Mesmo assim, suas novas responsabilidades testarão os limites de sua agenda e resistência.

Em sua eleição em Würzburg, Wilmer traçou um rumo claro para sua liderança: “Colocar Deus no centro” e caminhar “com o Evangelho nas mãos e as pessoas em mente”. Ele reconheceu as diferentes visões dentro da Igreja alemã, mas acolheu o debate. “O Espírito Santo vive não apenas no consenso, mas também na dissidência”, disse ele, reafirmando sua crença no diálogo como a força vital da fé.

Sobre o papel das mulheres, ele mantém tom esperançoso: “Estou convencido de que o Espírito Santo continua agindo na Igreja hoje”, afirmou, apoiando a discussão global sobre ministérios e liderança feminina.

Uma Igreja de escuta e luz

Para muitos alemães desiludidos com escândalos ou disputas doutrinais, Wilmer representa um estilo de autoridade mais ameno — que busca reconciliação, transparência e profundidade espiritual, em vez de imposição.

Ao falar das vítimas de abusos, sua mensagem é direta: “A voz delas tem peso”. Só escutando, diz ele, a Igreja pode proteger a dignidade e reconstruir a confiança.

Com a DBK iniciando um novo capítulo, a liderança de Wilmer será avaliada menos por decretos e mais por pontes construídas — entre jovens e idosos, conservadores e reformistas, Roma e as bases alemãs. Para ele, a fé é um caminho percorrido juntos: com humildade e esperança

Com informações Katholisch.de

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