Ditadura de Ortega silenciou as procissões católicas na Nicarágua
Fé atrás das paredes: o regime de Ortega proíbe mais de 27 mil procissões e confina a Semana Santa dentro das igrejas na Nicarágua.”
Redação (24/03/2026 09:29, Gaudium Press) Em uma tranquila sexta-feira de Quaresma dentro da Catedral Metropolitana de Manágua, quatro fiéis caminhavam solenemente pela nave central, carregando a imagem do Nazareno. Entre eles, Martha Asunción segurava o terço em silêncio, revivendo memórias de um tempo diferente — quando a mesma imagem de Cristo percorria seu bairro, recebida com hinos, incenso e portas abertas.
“Eu me preparava com minha família para receber o Nazareno”, recordou ela baixinho. “Oferecíamos água e orações, agradecendo a Deus pelas bênçãos da vida. Todo o bairro sentia a bênção passar.”
Hoje, as ruas que antes vibravam de fé estão silenciosas. O que era uma expressão viva da tradição católica — procissões pelos bairros, orações comunitárias e fé — transformou-se em um ritual confinado às paredes das igrejas. Desde 2019, o governo nicaraguense, liderado pelo presidente Daniel Ortega e pela vice-presidente Rosario Murillo, proibiu mais de 27 mil procissões religiosas públicas, segundo dados compilados pela pesquisadora e advogada exilada Martha Patricia Molina.
Uma era de restrições
As proibições vieram na esteira da repressão do governo às manifestações públicas após o levante social de 2018. O que começou como uma medida política contra protestos antigovernamentais evoluiu para um controle abrangente sobre todas as assembleias públicas — inclusive as religiosas.
Em 2023, as restrições atingiram em cheio a Igreja Católica. Sacerdotes de todo o país receberam notificações formais: todas as atividades de culto deveriam ficar dentro das igrejas. Eventos tradicionais como a Via-Sacra durante a Quaresma, as procissões da Semana Santa, a celebração de Corpus Christi e a Festa de Cristo Rei foram proibidos de ocorrer ao ar livre.
Os números de Molina revelam a dimensão da intervenção do Estado. “Só para a Quaresma de 2026, foram proibidas 5.726 procissões em 409 paróquias das nove jurisdições eclesiásticas do país”, destacou a pesquisadora. Todas as dioceses, de Manágua a Matagalpa, agora celebram a fé apenas em espaços fechados.
“O que a arquidiocese orienta aos sacerdotes é transferir os fiéis das ruas para dentro das igrejas. As missas e confissões continuam, mas a Via-Sacra como procissão de rua simplesmente não existe mais”, explicou Molina em uma entrevista.
Tradições que desaparecem
Por gerações, as procissões na Quaresma foram um pilar da identidade católica nicaraguense. Grandes peregrinações penitenciais lotavam as ruas de Carazo e Manágua, unindo milhares de fiéis de diferentes paróquias. “Comunidades inteiras se mobilizavam”, lembra um ex-organizador. “Saíam sete ou oito ônibus lotados de fiéis todo sábado. Era o maior evento do ano.”
Hoje, esses encontros são apenas lembranças. As peregrinações sumiram. “Agora não vai ninguém. Nem duas ou três pessoas”, lamenta um paroquiano.
Fé sob vigilância
Além das proibições, fiéis e clérigos vivem sob constante vigilância. Molina e outros documentam a presença onipresente da polícia durante os eventos litúrgicos. “Eles vêm tirar fotos, gravar vídeos, anotar tudo — isso gera medo entre sacerdotes e fiéis”, conta ela. Alguns relatos descrevem agentes à paisana dentro das missas, pressionando os sacerdotes para encurtar as missas.
Uma paroquiana do oeste de Manágua descreve a realidade sem rodeios: “A polícia está sempre por perto. Ligam para o padre se a missa atrasa e exigem que termine imediatamente. Aprendemos a conviver com eles ali, vigiando. Mantemos a fé porque não temos escolha.”
O desafio do trabalho pastoral
Sacerdotes de diferentes dioceses descrevem seu trabalho como um ato de resistência. Em Matagalpa — diocese que já foi liderada pelo bispo Rolando Álvarez, exilado pelo regime em 2024 —, as tarefas pastorais continuam sob forte escrutínio. “Relatamos tudo o que fazemos”, confessa um sacerdote anonimamente. “Eles dizem que é pela nossa segurança, mas sabemos que é por controle.”
Essas pressões obrigaram os padres a limitar o trabalho de evangelização e o engajamento comunitário. Mesmo assim, em meio à incerteza, muitos encontram força na fé. “Fazemos o que podemos. Rezamos e nos adaptamos”, diz o sacerdote de Matagalpa. “A graça virá da perseverança.”
Semana Santa atrás das portas fechadas
Com a Semana Santa de 2026 se aproximando, a Igreja se prepara mais uma vez para celebrar sua temporada mais sagrada dentro de paredes fechadas. Em vez de procissões vibrantes percorrendo as cidades, as vozes de oração ecoam baixinho nos santuários pouco iluminados.
Para fiéis como Martha Asunción, o silêncio lá fora carrega ao mesmo tempo tristeza e determinação. “A fé não termina na porta da igreja”, disse ela, enquanto via o Nazareno passar à sua frente dentro da catedral. “Nós a carregamos no coração — mesmo que as ruas não possam mais vê-la.”
O que acontece na Nicarágua não é apenas a proibição de procissões: é a tentativa de confinar uma fé que, historicamente, sempre transbordou para as ruas. Dentro das igrejas, porém, muitos fiéis continuam a repetir em silêncio a mesma certeza: a verdadeira procissão da fé não depende de ruas liberadas, mas de corações que se recusam a se calar.
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