Cristãos: a comunidade religiosa mais perseguida do mundo, alerta arcebispo na ONU
Em Genebra, o Arcebispo Ettore Balestrero, Observador Permanente da Santa Sé junto às Nações Unidas, alertou: “Em 2025, quase 5 mil fiéis foram assassinados por causa da sua fé; na prática, isso significa treze mortes por dia”.
Foto: Vatican News
Redação (05/03/2026 09:40, Gaudium Press) O Arcebispo Ettore Balestrero, Observador Permanente da Santa Sé junto às Nações Unidas em Genebra desde 2023, fez uma denúncia contundente durante sua intervenção na conferência intitulada “Ao lado dos cristãos perseguidos: defender a fé e os valores cristãos”. Ele afirmou que os cristãos constituem a comunidade religiosa mais perseguida globalmente, com números alarmantes que revelam a gravidade da situação em 2025.
De acordo com o prelado italiano — que também representa a Santa Sé na Organização Mundial do Comércio (OMC) e na Organização Internacional para as Migrações (OIM) —, quase 5 mil fiéis foram assassinados por causa da fé no ano passado, o equivalente a cerca de 13 mortes por dia. “Quase 400 milhões de cristãos, ou seja, um em cada sete no mundo, são vítimas de perseguições ou violência”, declarou Mons. Balestrero, segundo dados da Fundação Pontifícia Ajuda à Igreja que Sofre (Aid to the Church in Need) e reportagens do Vatican News.
Essas vítimas, enfatizou o arcebispo, são mártires no sentido etimológico da palavra: testemunhas vivas de sua crença, que encarnam valores contrários à lógica do poder, do domínio e da intolerância. “Eles desafiam sistemas que rejeitam a dignidade humana e a liberdade religiosa”, explicou.
Do ponto de vista do direito internacional, o representante vaticano destacou que os cristãos sofrem “escandalosas violações dos direitos humanos”. Ele insistiu que o testemunho desses fiéis não deve desviar a atenção da responsabilidade primordial dos Estados: “proteger a liberdade religiosa ou de crença e abster-se de interferir na capacidade de indivíduos ou grupos professarem sua fé, privada ou publicamente, por meio do culto, da prática e do ensino”. “O dever do Estado é impedir que terceiros violem esse direito fundamental. Essa proteção deve ser garantida antes, durante e após os ataques”, afirmou.
O arcebispo expressou sua profunda preocupação com os milhões de fiéis que são vítimas de violência física, subjugação, detenção ilegal, expropriação de bens, escravidão, exílio forçado e até mesmo assassinato por causa de suas crenças religiosas.
Um dos problemas mais graves apontados por Mons. Balestrero é a impunidade dos perpetradores. “A falta de justiça para os assassinos de cristãos é um dos aspectos mais preocupantes no panorama global da perseguição religiosa”, alertou, destacando que essa omissão incentiva a continuidade da violência.
A perseguição não se limita a regiões distantes; o flagelo atinge todos os continentes, inclusive a Europa. O arcebispo citou o relatório recente da OSCE (Organização para a Segurança e a Cooperação na Europa) sobre crimes de ódio, que registrou mais de 760 crimes de ódio contra cristãos apenas em 2024, no continente europeu. Relatórios complementares, como os da OIDAC Europe, indicam um aumento significativo de ataques, incluindo incêndios criminosos em igrejas (quase o dobro em relação ao ano anterior em alguns países).
Além da violência explícita, o prelado denunciou formas mais sutis e insidiosas de perseguição: uma “perseguição educada”, que se manifesta por meio de discriminação progressiva e exclusão da vida política, social e profissional — mesmo em nações de tradição cristã. “Há também restrições discretas, por meio de normas jurídicas e práticas administrativas que limitam ou anulam na prática direitos legalmente reconhecidos à população predominantemente cristã, inclusive em partes da Europa”, acrescentou.
Mons. Balestrero reforçou a urgência de uma ação coordenada: os Estados devem cumprir suas obrigações internacionais, combater a impunidade e promover a liberdade religiosa como pilar da convivência pacífica. A Santa Sé, por meio de sua presença em fóruns multilaterais, continua a defender os perseguidos, lembrando que a proteção dos cristãos — e de todas as minorias religiosas — é essencial para a defesa da dignidade humana universal.
Balestrero concluiu sua intervenção com uma reflexão, ao mesmo tempo simbólica e profundamente concreta: a Cruz. “Ela é formada por duas linhas que se cruzam: a vertical representa a abertura do homem à transcendência, enquanto a horizontal simboliza a conexão do homem com os outros. Os ataques à dimensão vertical procuram romper a relação entre a consciência e Deus, confinando a fé ao silêncio. Os ataques à dimensão horizontal ocorrem quando os cristãos são perseguidos, o que priva a pessoa humana de sua capacidade inata de responder livremente ao chamado da verdade”.





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