Como estar em paz conosco mesmos?
O que ainda nos falta para vivermos em paz com os outros, conosco mesmos e, sobretudo, com o Príncipe da Paz, que é também o Senhor dos Exércitos?

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Redação (11/04/2026 19:13, Gaudium Press) Vivemos num mundo imediatista. Se necessitamos de mais iluminação para ler algum texto, basta apertar um interruptor para acender uma luz; se precisamos ir a algum lugar longínquo, embarcamos em um avião para atravessar milhares de quilômetros no mesmo dia; se precisamos falar urgentemente com alguém que não se encontra próximo de nós, pegamos o celular. Sem perceber, habituamo-nos a viver numa agitação constante. E é essa agitação que nos impede de possuirmos um bem importantíssimo: a paz. A paz que é prometida no Evangelho de hoje.
O Evangelho deste segundo Domingo da Páscoa abre-se com um episódio ocorrido no próprio dia da Ressurreição. Desde a aurora, sucediam-se as notícias sobre as aparições do Senhor. Embora os Apóstolos não lhes tivessem dado crédito, São Pedro e São João haviam constatado estar vazio o sepulcro (cf. Jo 20,3-8). Ao cair da tarde, encontramos os discípulos reunidos no Cenáculo. Temerosos de que os judeus viessem à sua procura e os levassem para a prisão, eles fecharam bem todas as portas do local. Enquanto conversavam — talvez em voz baixa, receosos das ameaças que sobre eles pairavam —, de repente, Jesus entrou e pôs-se no meio deles.
Formas de paz
Após ter adentrado onde se encontravam os discípulos, a primeira coisa que Nosso Senhor lhes deseja é a paz: “A paz esteja convosco!” (Jo 20,19) E ainda uma segunda vez repete: “A paz esteja convosco!” (Jo 20,21)
Ora, segundo São Tomás, existem três formas de paz: a paz do homem consigo mesmo, a do homem para com Deus, e a do homem para com o próximo. E era exatamente isso que faltava aos discípulos naquele momento. Por terem negado a Nosso Senhor ou fugido no momento de Sua paixão, eles não estavam em paz com Deus. Internamente, eles sentiam dúvidas a respeito da fé; externamente estavam sendo perseguidos pelos judeus.[1]
Não é sem razão, portanto, que o primeiro gesto do Senhor Ressuscitado aos apóstolos, antes mesmo de iniciar uma conversa, seja oferecer-lhes a paz. Também nós devemos estar continuamente atentos a este ponto, pois se quisermos estabelecer um colóquio com Nosso Redentor ao longo do dia, temos que manter-nos serenos e tranquilos, sem permitir que os fatos externos, a correria, os imprevistos nos tomem por inteiro.
“Paz é a tranquilidade da ordem”, afirma Santo Agostinho.[2] E São Tomás demonstra ser a paz o efeito próprio e específico da caridade, pois todo aquele que está em união com o Altíssimo vive na perfeita ordem.[3] Essa união faz brotar na alma um profundo repouso interior, de tal modo que nem mesmo os inimigos externos conseguem perturbá-la, porque nada mais lhe interessa senão o próprio Deus. A alma em paz pode repetir com confiança as palavras de São Paulo na Epístola aos Romanos: “Se Deus está conosco, quem será contra nós?” (Rm 8,31).
O sacramento que nos dá a paz
Mas como alcançar essa ordem interior que traz a paz? Continuemos a leitura do Evangelho:
“Tendo dito estas palavras, soprou sobre eles e disse-lhes: Recebei o Espírito Santo’. Àqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados, àqueles a quem os retiverdes ser-lhes-ão retidos” (Jo 20,22-23).
A Igreja reconhece nesta passagem da Sagrada Escritura a instituição do Sacramento da Penitência. Tudo aquilo que Nosso Senhor faz possui um significado profundíssimo. Neste caso, Ele quer nos demonstrar que a Confissão é o instrumento que nos foi dado para alcançarmos essa paz, pois é por meio desse sacramento que entramos em paz com Deus e com nossa própria consciência.
Portanto, aproveitemos esse segundo domingo da Páscoa — o domingo da Misericórdia — para, com o auxílio maternal e infalível de Nossa Senhora, examinar o que nos falta para entrarmos em paz não só com os outros, mas conosco mesmos e com o Príncipe da Paz que é também o Senhor dos Exércitos.
Façamos um exame de consciência e uma boa Confissão para limpar nossas almas de toda e qualquer mácula. Só assim seremos fiéis à dupla ordem que hoje recebemos do Ressuscitado: “A paz esteja convosco!” (Jo 20,19)
O Tempo Pascal é período de alegria. Esta, porém, só será verdadeira — não vazia e malfazeja —, se estivermos em paz com o Altíssimo e, consequentemente, em guerra com o demônio, o mundo e a carne.
Por Kaio Calixto
[1] Cf. SÃO TOMÁS DE AQUINO. Commentaire de l’Évangile de Saint Jean. Paris: Cerf, 2006, p.1399.
[2] SANTO AGOSTINHO. De civitate Dei. XIX,13.
[3] Cf. SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica. II-II, q.29.





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