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Cardeal Sarah: A misericórdia reergue o pecador, não renomeia o pecado

O cardeal africano responde às críticas ao seu livro 2050.

Foto: Robert Card. Sarah/ Facebook

Foto: Robert Card. Sarah/ Facebook

Redação (11/03/2026 15:02, Gaudium Press) O Cardeal Robert Sarah respondeu às críticas feitas pelo jornal francês La Croix ao seu livro mais recente, 2050 – ano em que a Igreja celebrará o próximo jubileu –, em uma entrevista concedida ao Journal du Dimanche (JDD). Como não foi diretamente questionado pela mídia que o criticou, o cardeal guineense optou por esse semanário para expor com clareza suas ideias sobre os temas centrais da obra: a primazia de Deus no discurso da Igreja, a permanência da moral cristã e as diferenças de sensibilidade religiosa entre a África e o Ocidente.

Pergunta: O senhor afirma que “as grandes linhas da teologia, os fundamentos da fé, não devem desaparecer diante de modas passageiras ou opiniões do momento”; e são essas grandes linhas que o senhor aborda em seu livro. Que lugar dar, então, ao “clima, às migrações e às exclusões”, como questiona o jornal La Croix. “Não como temas políticos, mas como questões teológicas”?

Essas realidades são graves. Elas afetam vidas humanas, por isso tocam o coração da Igreja. Mas tornam-se problemáticas quando eclipsam a centralidade de Deus, e o discurso eclesial parece não ter outro horizonte além da agenda temporal. Sim, é possível falar em “lugares teológicos”, mas com uma condição essencial: que esses temas sejam iluminados pela fé e não usados como substitutos da fé. O pobre não é apenas um caso social: é o rosto de Cristo. O estrangeiro não é, antes de tudo, um assunto político; é um dom que Deus confia à nossa caridade. A criação não é um ídolo ecológico; é um dom confiado ao homem para ser guardado com gratidão. Mas, se falamos do clima sem mencionar o Criador, das migrações sem falar da dignidade sobrenatural do homem, ou das exclusões sem falar do pecado e da redenção, então transformamos a Igreja numa agência moral. A Igreja é mais útil ao mundo quando é inteiramente dedicada a Deus.

Pergunta: No livro, o senhor recorda que “a verdade do Evangelho não é relativa nem adaptável aos costumes da época”. Como explicar, então, que alguns gostariam de ver a Igreja evoluir especialmente em relação à moral cristã?

O homem moderno muitas vezes teme a verdade quando ela o confronta. Ele prefere uma moral “fluida”, sem fronteiras, na qual a consciência se torna a última instância. Mas a consciência não é um deus; ela deve ser formada pela verdade. A moral cristã não é um rol de proibições; ela é a tradução concreta de um mistério: Deus criou o homem, o redimiu e o chama à santidade. A complementaridade entre homem e mulher não é uma construção cultural, está inscrita na criação e elevada pelo Sacramento do Matrimônio. O respeito à vida, desde a concepção até a morte natural, não é uma opinião; é o reconhecimento de que a vida é um dom. O celibato sacerdotal, na Igreja latina, não é uma estratégia administrativa; é um sinal escatológico, uma disponibilidade total e um amor indiviso. Aqueles que querem adaptar o Evangelho aos costumes da época confundem misericórdia com renúncia. A misericórdia reergue o pecador; ela não renomeia o pecado.

Pergunta: O senhor escreve que essa tentação de “moldar a Igreja segundo as contingências históricas” é mais significativa no Ocidente, ao contrário do continente africano, que se reconhece mais humildemente como herdeiro do depósito da fé a ser transmitido. Como compreender essas diferentes posturas?

O Ocidente foi ferido por um orgulho particular: o de se considerar tão “adulto” que já não precisa de Deus. Substituiu a herança pelo ceticismo, a tradição pela desconfiança e a autoridade pela contestação permanente. Quer reinventar o que recebeu. Na África, apesar das fragilidades e dificuldades, permanece com frequência uma consciência mais simples: somos herdeiros. Recebemos a fé como um tesouro precioso. Um tesouro não se “moderniza”; guarda-se, transmite-se e faz-se frutificar. A verdadeira humildade consiste em aceitar que a verdade nos precede. Isso não significa que a África esteja imune a tentações. Mas a postura fundamental é diferente: no Ocidente, quer-se negociar com a fé; na África, recebe-se a fé.

Pergunta: Uma passagem de sua obra parece fazer consenso, aquela sobre a vida contemplativa. O senhor descreve a vida dos monges e religiosas como uma “união com Deus” e uma “doação radical”. O que revela essa unanimidade?

Ela revela uma sede que não morreu: a sede de Deus. Mesmo aqueles que contestam sentem confusamente que o monge e a religiosa lembram o essencial: Deus basta. A contemplação é um escândalo para o mundo moderno, porque parece “inútil”. E, precisamente, ela é profética: afirma que o homem não foi feito primordialmente para produzir, consumir, agitar-se, comunicar. Ele foi feito para adorar. A unanimidade em torno da vida contemplativa revela que, no fundo, a Igreja ainda sabe onde está sua fonte. Os mosteiros são como poços no deserto. Eles não salvam a Igreja com estratégias, mas com a fidelidade do silêncio, a doação do tempo, a oração noturna, a liturgia celebrada como um antegozo do Céu. E é por isso que repito com insistência: Deus fala no silêncio. A liturgia deve voltar a ser aquele lugar onde Deus é o primeiro, onde o homem deixa de se colocar em cena e onde a Igreja é um dom.

Tradução Gaudium Press

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