Cardeal Robert Sarah: “Deus deve estar no centro da Igreja”
O cardeal africano concedeu uma entrevista à CNews, tendo também em vista a próxima viagem do Papa à África.

Foto: Screenshot/ YouTube/ CNews
Redação (01/04/2026 11:17, Gaudium Press) Em uma entrevista concedida à cadeia francesa CNews, o cardeal guineano Robert Sarah, de 79 anos e ex-prefeito da Congregação para o Culto Divino, fez uma série de reflexões profundas sobre os desafios atuais da Igreja Católica. O purpurado abordou temas como a próxima visita do Papa Leão XIV à África, a crise litúrgica, o perigo do sincretismo religioso e a tentação de reinventar a Igreja à margem da tradição.
Para o Cardeal Sarah, a mensagem central é simples: “Deus deve estar verdadeiramente no centro de nossa existência, no centro de nossa vida, no centro de nossas preocupações”. Se a Igreja se afastar dessa missão essencial, alerta ele, “ela é inútil”. A Igreja não pode se reduzir a um organismo político, humanitário ou sociológico. Seu propósito fundamental é salvar almas e nutri-las por meio dos Sacramentos.
Os africanos querem que o Papa lhes fale de Deus
O Cardeal Sarah demonstrou especial entusiasmo com a próxima viagem apostólica do Papa Leão XIV ao continente africano, prevista para abril de 2026. Ele inclusive revelou que terá a honra de acompanhar o Santo Padre.
Segundo Sarah, os católicos africanos não esperam do Papa discursos sobre pobreza ou problemas sociais. “Eles querem que ele lhes fale de Deus, porque Deus é a solução para todos os nossos problemas”, afirmou.
A visita começará pela Argélia, terra natal de São Agostinho de Hipona. O cardeal expressou o desejo de que essa peregrinação ajude os africanos a seguir os passos do grande Doutor da Igreja: viver uma conversão radical que transforme a vida após o encontro pessoal com Cristo.
“Somos Igrejas jovens e, portanto, vulneráveis. Esperamos que o Papa nos fortaleça e consolide nossa fé. Estou convencido de que ele o fará”, acrescentou.
Sarah também enfatizou a importância de apoiar os sacerdotes africanos, sem os quais “não há Igreja, não há Sacramentos”. Embora o continente não enfrente crise de vocações, é preciso ajudar os padres a descobrir o que é o sacerdócio tal como vivido por Jesus e pelos Apóstolos.
A liturgia não pode ser um campo de batalha
Uma das partes mais sensíveis da entrevista foi dedicada à liturgia. O cardeal lamentou que ela tenha se tornado fonte de divisão dentro da Igreja.
“Compreendo que o Papa esteja preocupado com essa unidade litúrgica. A liturgia não é um lugar para a batalha. Nós a transformamos em um campo de combate. É assim que destruímos a liturgia”, declarou, citando as palavras de Bento XVI: “A crise da Igreja hoje procede da crise da liturgia”.
Sarah alertou ainda contra as tentativas de fragmentar a universalidade da Igreja por meio de adaptações culturais excessivas: “Querem uma liturgia amazônica, uma liturgia africana… mas então, para onde vamos para preservar a universalidade da Igreja?”
O sincretismo, uma negação da Encarnação
Um dos pontos mais longos e profundos da conversa foi a denúncia do sincretismo religioso, perigo já alertado por Bento XVI.
O cardeal respeita as religiões não cristãs, vendo nelas “uma manifestação da aspiração do homem que quer alcançar o Mistério” — uma tentativa humana, ainda que desajeitada, de dizer algo sobre Deus. E é uma aspiração muito nobre e digna de reconhecimento. No entanto, ele faz uma distinção essencial: “O cristianismo não é um esforço humano para alcançar o mistério: é o anúncio de que Deus veio ao encontro do homem. O homem deve responder a essa revelação de Deus. O sincretismo constitui um obstáculo à proclamação dessa realidade histórica”.
Para Sarah, o sincretismo representa uma contradição da Encarnação. Deus não quer que permaneçamos apenas como homens; Ele deseja que sejamos, como éramos no princípio, semelhantes a Ele. “Não se trata de nossas ambições humanas: é Deus quem nos criou à sua imagem e semelhança.” O pecado original consiste em querer se tornar deus por conta própria, enquanto a verdadeira transformação acontece quando permito que Deus me transforme, quando me assemelho a Cristo.
“Somos herdeiros, não inventamos nada”
O Cardeal Sarah voltou ao tema da tradição: “Devemos transmitir o que recebemos. Não devemos inventar nada. Somos herdeiros”, ecoando o ensinamento de São Paulo sobre a transmissão da fé.
Ele criticou a mentalidade contemporânea, que afeta também muitos católicos, marcada pela hostilidade à tradição e pela necessidade de reinventar tudo: “Se queremos inventar uma nova Igreja, um novo sacerdócio, então já não estamos na Igreja de Cristo”.
Sobre a interpretação do Concílio Vaticano II, Sarah afirmou que ele “nunca pretendeu uma ruptura com o passado”, embora tenha sido interpretado por alguns como uma ruptura total, sem apontar responsáveis específicos.
França, a “filha primogênita da Igreja”?
Dirigindo-se especialmente ao público francês, o Cardeal Sarah sublinhou que a França ainda pode continuar a desempenhar seu papel de “filha primogênita da Igreja”. Apesar da crise que o país atravessa, “não parte do zero”. Existem comunidades vivas, mosteiros cheios de vitalidade e paróquias onde a fé floresce.
“Que hoje haja pessoas pedindo o Batismo não surge do nada. Elas sabem aonde devem voltar. Encontram algo na Igreja, nos mosteiros, nas paróquias”, garantiu. “A Igreja não morreu de jeito nenhum; há muita vida nela.”
Com informações InfoCatólica





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