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Bispos alemães pedem que leigos façam homilia e testam a paciência do Papa

Quando conferências episcopais insistem em práticas que tensionam a disciplina universal, a questão de fundo não é apenas litúrgica ou disciplinar, mas eclesiológica.

Foto: Bistum Limburg/ Facebook

Foto: Bistum Limburg/ Facebook

Redação (28/02/2026 10:19, Gaudium Press) Um artigo publicado pelo site de notícias católicas The Pillar, nesta semana, relata que a Conferência Episcopal da Alemanha planeja formalmente solicitar à Santa Sé uma autorização para que leigos possam fazer homilias durante a missa dominical e em solenidades, um papel litúrgico que, segundo a disciplina atual da Igreja, é reservado ao sacerdote ou ao diácono na celebração da Eucaristia, salvo circunstâncias muito específicas previstas pelo Direito Canônico.

A proposta parte de uma recomendação do controverso “caminho sinodal” alemão de 2023, e foi aprovada pelos bispos na recente assembleia plenária em Würzburg, sob a liderança do seu novo presidente, o bispo Heiner Wilmer. O fundamento apresentado é que a prática já ocorre há décadas, em algumas dioceses alemãs, e poderia ser regulamentada de forma universal se Roma a reconhecer oficialmente.

Sob o aspecto jurídico, a proposta é problemática. O Direito Canônico estabelece que a homilia, enquanto parte integrante da Liturgia da Palavra na Missa, está intrinsecamente vinculada ao ministério ordenado. Não se trata de uma simples reflexão espiritual, mas de um ato que brota da função de ensinar, própria de quem preside ou serve sacramentalmente o altar. Ao longo dos últimos anos, dicastérios romanos já indicaram que a abertura irrestrita da homilia a leigos poderia comprometer a compreensão do ministério sacerdotal e enfraquecer a identidade própria do presbítero.

O pedido dos bispos alemães não é meramente administrativo ou funcional; toca um ponto sensível da eclesiologia católica: a relação entre o sacerdócio comum dos fiéis e o sacerdócio ministerial. Ao propor que leigos assumam a homilia de modo regular, ainda que sob autorização episcopal, questiona-se implicitamente o nexo sacramental entre proclamação autorizada da Palavra e ordenação. A crise de vocações, frequentemente evocada como justificativa, não elimina a necessidade de preservar distinções teológicas fundamentais.

É aqui que o gesto alemão se torna um teste à autoridade papal. Ainda que os bispos declarem desejar agir em comunhão com Roma, a insistência reiterada após negativas anteriores cria uma atmosfera de pressão institucional. Trata-se de uma dinâmica em que a prática pastoral local precede a autorização universal e, depois, busca-se o reconhecimento formal daquilo que já se tornou costume. Essa lógica inverte, ainda que sutilmente, a ordem tradicional de autoridade na Igreja, segundo a qual a disciplina comum precede e molda a prática local.

Curiosamente, esse cenário encontra eco, em chave oposta, na situação atual da Fraternidade Sacerdotal São Pio X. Se os bispos alemães representam um polo progressista que deseja ampliar espaços litúrgicos para leigos, a FSSPX encarna um polo tradicionalista que insiste em preservar formas anteriores à reforma conciliar. Contudo, ambos os casos convergem num ponto delicado: a tensão com a autoridade do Romano Pontífice.

A FSSPX, ao considerar a possibilidade de consagrar novos bispos sem mandato pontifício, coloca-se numa posição ainda mais dramática. A consagração episcopal sem autorização papal é, pela própria natureza da Igreja, um ato que atinge diretamente a comunhão hierárquica. Se realizada, não seria apenas uma divergência disciplinar, mas um gesto que fere a unidade visível do episcopado sob Pedro. A história recente demonstra como tais atos produzem feridas difíceis de sanar.

O contraste é evidente. Os bispos alemães pedem permissão para alterar uma disciplina litúrgica. A FSSPX, em momentos críticos de sua história, agiu ou ameaçou agir sem esperar permissão. Entretanto, há uma semelhança estrutural que não pode ser ignorada: em ambos os casos, a convicção de uma urgência pastoral ou doutrinal parece justificar uma pressão sobre a autoridade central. Em vez de uma submissão tranquila ao discernimento final da Sé Apostólica, há uma tentativa de persuadir, condicionar ou mesmo contornar essa autoridade.

A Igreja Católica sempre sustentou que sua unidade visível repousa na comunhão com o sucessor de Pedro. A autoridade do Papa não é mero elemento administrativo, mas princípio de coesão sacramental e doutrinal. Quando conferências episcopais insistem em práticas que tensionam a disciplina universal, ou quando comunidades tradicionais julgam necessário agir independentemente do mandato pontifício, a questão de fundo não é apenas litúrgica ou disciplinar, mas eclesiológica.

O episódio alemão revela o delicado equilíbrio entre colegialidade e primado. O Papa é chamado a exercer paciência pastoral e discernimento prudente, mas também a preservar a integridade da tradição recebida. Conceder a permissão poderia abrir precedentes amplos; negá-la pode intensificar tensões já latentes. De qualquer modo, o caso evidencia que a Igreja contemporânea vive um momento de prova quanto à compreensão prática da obediência.

No fim, tanto o progressismo alemão quanto o tradicionalismo da FSSPX colocam diante do Papa a mesma pergunta, ainda que formulada de modos distintos: até onde pode ir a iniciativa local sem romper a comunhão universal? A resposta não será apenas jurídica; ela tocará o coração da identidade católica, que se constrói na conciliação entre carisma e instituição, entre tradição e inovação. 

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