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Bélgica: Bispo de Antuérpia desafia Roma ao anunciar que pretende ordenar sacerdotes homens casados

Se Dom Bonny ordenar homens casados sem a autorização da Santa Sé, cometeria um ato gravemente ilícito, sinalizando uma crise mais profunda contra a unidade da Igreja e a fidelidade ao seu Magistério.

Foto: Facebook

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Redação (20/03/2026 09:39, Gaudium Press) O Bispo de Antuérpia, Dom Johan Bonny, anunciou em uma carta pastoral publicada em 19 de março de 2026 sua intenção firme de ordenar homens casados como sacerdotes em sua diocese nos próximos anos, com meta de realizar as primeiras ordenações até 2028. A declaração, contida no documento intitulado “Implementação do Processo Sinodal na Diocese de Antuérpia”, representa um dos desafios mais diretos à disciplina do celibato sacerdotal na Igreja Católica Latina nos últimos tempos.

Um anúncio sem aval de Roma

Na carta, o bispo afirma: “Farei tudo o que estiver ao meu alcance para ordenar, até 2028, alguns homens casados como sacerdotes para nossa diocese”. Ele planeja selecionar pessoalmente candidatos que tenham “a formação teológica necessária e experiência pastoral comparável à de outros candidatos ao sacerdócio”. Dom Bonny argumenta que a questão já não é “se” a Igreja pode ordenar homens casados, mas “quando e como” isso acontecerá, destacando um “consenso quase total” entre os fiéis em diálogos sinodais.

O prelado reconhece que o celibato é uma tradição profundamente enraizada na Igreja Latina, descrito no Catecismo como um compromisso “por causa do Reino dos Céus”, simbolizando a consagração total do sacerdote a Deus e à Igreja. De fato, o celibato sacerdotal se impôs ao longo dos séculos como uma expressão da configuração do sacerdote a Cristo, que age in persona Christi capitis e se entrega inteiramente a Deus e à sua Igreja. O Concílio Vaticano II ensina que ele está “em profunda harmonia com o sacerdócio”, enquanto São Paulo VI recorda que ele significa uma consagração total.

No entanto, o bispo questiona por que essa disciplina não poderia evoluir, apontando para os sacerdotes casados nas Igrejas Católicas Orientais e para convertidos de outras denominações cristãs que já são ordenados no rito latino, inclusive na Bélgica. “Ninguém consegue explicar por que isso é possível para seminaristas orientais ou convertidos, mas não para vocações católicas nativas”, escreveu.

Contexto de crise vocacional e sinodalidade

A iniciativa surge em meio a uma grave escassez de vocações sacerdotais na Bélgica, onde a taxa de reposição de sacerdotes é “praticamente zero”, segundo o próprio bispo. Para apoiadores, ordenar homens casados (os chamados viri probati) seria uma solução pragmática para manter a presença pastoral em paróquias e comunidades.

Dom Bonny enquadra sua proposta no espírito de sinodalidade promovido pelo Papa Francisco, afirmando que “A responsabilidade agora está nas mãos dos bispos locais e suas Igrejas”. Ele insiste que o processo sinodal não pode ser visto como um exercício vazio, e que os fiéis esperam respostas concretas às necessidades pastorais.

Críticas e riscos canônicos

Especialistas em direito canônico alertam que nenhum bispo diocesano pode alterar unilateralmente uma disciplina universal reservada à Santa Sé. O Sínodo sobre a Sinodalidade (concluído em 2024) e a exortação pós-sinodal Querida Amazônia (2020), de Francisco, não autorizaram a ampliação da ordenação de casados no rito latino. Proceder sem permissão de Roma poderia ser interpretado como grave desobediência papal, com consequências canônicas sérias — inclusive excomunhão em caso de persistência.

Críticos apontam que a comparação com ritos orientais é inadequada: nesses casos, o celibato é exigido para bispos, e sacerdotes não podem se casar após a ordenação. Transpor esse modelo para a Igreja Latina poderia gerar incoerências teológicas e eclesiais.

Histórico de posições progressistas

Dom Johan Bonny, bispo de Antuérpia desde 2009, é conhecido por posições progressistas. Nos últimos anos, defendeu o reconhecimento de relacionamentos homoafetivos, apoiou rituais de bênção para casais do mesmo sexo (em desacordo com diretrizes vaticanas), questionou ensinamentos sobre aborto e eutanásia, e defendeu maior corresponsabilidade das mulheres na Igreja — inclusive debatendo o acesso delas ao diaconato. Em sua carta mais recente, ele reitera a necessidade de “corresponsabilidade das mulheres em todas as tarefas pastorais e administrativas” e menciona o “difícil tema do acesso das mulheres ao Sacramento da Ordem Sagrada”.

Contra a unidade da Igreja

O anúncio ocorre sob o pontificado de Leão XIV, em um momento de declínio contínuo da prática religiosa na Bélgica e a uma grave escassez de vocações sacerdotais. Para alguns, Dom Bonny representa um “laboratório” do espírito sinodal, testando os limites da autonomia local. Para outros, isso sinaliza uma crise mais profunda contra a unidade da Igreja e a fidelidade ao seu Magistério.

Se o bispo de Antuérpia avançar sem autorização vaticana, corre-se o risco de colocar a sua diocese numa situação de ruptura definitiva com a Igreja universal.

O Vaticano ainda não se pronunciou oficialmente, mas a carta de Dom Bonny já gerou repercussão internacional, reacendendo discussões sobre o futuro do sacerdócio na Igreja Católica.

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