Até que a morte nos separe!
“Prometo ser fiel, amar-te e respeitar-te, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza, todos os dias da nossa vida, até que a morte nos separe.”
Foto: Sandy Millar/ Unsplash
Redação (31/08/2025 10:10, Gaudium Press) Quando um homem e uma mulher se colocam diante do altar para fazer os votos do Sacramento do Matrimônio, não fazem um discurso imenso, com palavras difíceis e construções elaboradas. O juramento é simples, trata-se de uma promessa de fidelidade por tempo determinado: na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza, enquanto durar a vida, ou seja, até que a morte os separe.
Alguns noivos, mais supersticiosos, preferem encerrar a promessa em “todos os dias da nossa vida”, excluindo a palavra morte, para “não dar azar”… Porém, pronunciada ou não, o compromisso tem validade até a sua chegada.
Parece fácil e, quando se está apaixonado, além de fácil, parece maravilhoso, uma fidelidade plena, para todos os momentos, estar junto da pessoa amada para o que der e vier, até o fim.
Na prática, porém, não é tão simples, tão fácil e nem tão romântico. Os momentos tristes, a perda da saúde, os desentendimentos, as dificuldades financeiras levam muitos casais a questionar a validade do juramento feito.
O divórcio, uma solução enganosa
Da incompatibilidade de gênios ao jeito de apertar o tubo de pasta de dentes, muitos são os motivos que levam ao divórcio: eu era imaturo(a), não estava preparado(a), fui obrigado(a), meu cônjuge me escondeu características importantes, com as quais é impossível conviver, ele(a) tem uma personalidade terrível…
Porém, surge um problema: foi feito um juramento diante de Deus e esse juramento baseou-se nas palavras de Cristo: “O homem deixará seu pai e sua mãe e se unirá à sua mulher; e os dois formarão uma só carne. Assim, já não são dois, mas uma só carne. Portanto, não separe o homem o que Deus uniu” (Mt 19, 5-6). Logo, não se trata de algo transitório: não está bom, volta-se atrás. Não, é para toda a vida.
Surgindo os desentendimentos, a separação parece a solução mais prática, sem que sejam considerados os estragos que ela faz na família, nos filhos, nas almas dos cônjuges e até no patrimônio, seja ele grande ou pequeno.
Mas o divórcio não é aprovado pela Igreja, para a qual o casamento é indissolúvel. Ele desfaz o contrato de casamento, mas não a união espiritual. Diante disso, muitos casais passaram a optar por casar apenas no civil, já com a ideia de que “fica mais fácil se separar, não incorrendo em pecado”, esquecidos de que estarem unidos maritalmente sem a bênção da Igreja também constitui pecado grave.
Nulidade Matrimonial, opção ou hipocrisia?
Ao contrário do que muitos pensam, a Igreja não tem o poder de anular matrimônios, nem mesmo o Papa pode fazer isso. De acordo com Código de Direito Canônico: “o matrimônio ratificado e consumado não pode ser dissolvido por nenhum poder humano nem por nenhuma causa, exceto a morte” (Cânon 1141).
O Código afirma ainda que: “o matrimônio é produzido pelo consentimento legitimamente manifestado entre pessoas juridicamente hábeis, e esse consentimento não pode ser suprido por nenhum poder humano. O consentimento matrimonial é o ato de vontade pelo qual o homem e a mulher, por aliança irrevogável, entregam-se e recebem-se mutuamente para constituir matrimônio” (Cânon 1057 – § 1º e 2º).
No entanto, este mesmo Código prevê a nulidade matrimonial em algumas situações – lembrando que nulidade é diferente de anulação.
A nulidade matrimonial costumava ser um processo complexo, minucioso e demorado, porém, a partir de 2015, foi facilitado pelo Papa Francisco, pelo Motu Próprio “Mitis Iudex Dominus Iesus”, que introduziu mudanças significativas no processo de declaração de nulidade de casamento na Igreja Católica. O objetivo principal foi tornar o processo mais rápido, mais acessível e mais barato, sem alterar os critérios para a declaração de nulidade em si.
Diferente do divórcio, que não permite uma segunda união religiosa, a nulidade permite que os ex-cônjuges se casem novamente na Igreja.
Após a mudança, houve um grande aumento no número de pedidos de nulidade e, embora confiemos na lisura e seriedade dos membros dos Tribunais Eclesiásticos, responsáveis pela análise e julgamento desses pedidos, fica entre Deus e a consciência de cada cônjuge envolvido se tem ou não havido abuso nessa área, como uma tentativa legal de burlar a Palavra de Deus, e conseguir se casar na Igreja novamente.
Mas, isso é algo que não nos compete julgar…
Para não pecar, melhor nem casar…
Outros, mais práticos ainda, decidem nem se casar, apenas se juntam, se der certo deu, se não der, vai cada um para um lado, sem os desgastes e os custos de um processo de divórcio.
Mas, e os filhos, como ficam nessa situação? “Filhos? Ah, melhor nem tê-los! Para que trazer crianças ao mundo para expô-las a situações desgastantes como essa?” E, se eles vêm, explica-se o caso para eles, afinal, as crianças estão cada vez mais espertas e inteligentes… Entretanto, crianças são crianças, são frágeis, não são adultos em miniatura, obrigadas a compreender o que nem nós compreendemos.
Enfim, o casamento tem sido uma das instituições mais banalizadas e ultrajadas dos últimos anos. Homens e mulheres trocam de parceiros como trocam de roupas. À primeira dificuldade, já decidem que não servem um para o outro, que aquela não era a pessoa certa. E, de pessoa errada em pessoa errada, geralmente não se permitem notar as próprias falhas, e seguem pela vida, já entrados em idade, mas não em maturidade, procurando príncipes e princesas encantados que jamais encontrarão.
Sobre o resultado disso, nem há muito o que se dizer, o mundo está aí, degenerado, a família esquartejada, sangrando, se desintegrando; os valores mais elementares desrespeitados. Contudo ainda existe coisa pior…
Até que a morte nos separe!
Nos últimos tempos, muitos homens – mesmo não casados na Igreja – parecem levar muito a sério o preceito “até que a morte nos separe”, antecipando a morte de suas esposas ou companheiras.
Quase 12 mil crimes de feminicídio foram registrados no Brasil, na última década. As estatísticas apontam um aumento de 1600% de 2016 a 2024.
Só no ano de 2024 foram 1459 assassinatos. De acordo com o Mapa da Segurança Pública de 2025, quatro mulheres são assassinadas por dia no Brasil. Praticamente 100% delas é morta pelo cônjuge ou ex-cônjuge.
E os crimes têm-se tornado cada vez mais cruéis. Dezenas de golpes de faca ou espancamento até a morte. Recentemente, o caso de um jovem que deu 61 socos no rosto da namorada dentro de um elevador chocou o país.
E esse não é um caso isolado; além dos óbitos, há uma quantidade enorme de espancamentos, contando apenas os que são registrados pela polícia, pois muitas mulheres, vivendo sob constante violência e ameaças, temem denunciar seus agressores e acabar mortas. Infelizmente, muitas acabam mortas de qualquer jeito, denunciando ou não.
Há casos lamentáveis em que os assassinos matam as mulheres diante dos filhos pequenos e, não poucas vezes, matam a esposa e os próprios filhos.
O que nos compete fazer?
Nossas avós costumavam dizer que “em briga de marido e mulher não se mete a colher”, no entanto, isso se referia a uma época em que uma briga entre os cônjuges se limitava a um bate-boca sem maiores consequências.
No entanto, diante dessa situação catastrófica em que nos encontramos, não podemos nos contentar com a indiferença de não dar opinião na discussão alheia; alguma coisa precisa ser feita!
A nós, cristãos, o que nos compete fazer, o que está ao nosso alcance é rezar, pedindo a misericórdia de Deus diante dessa situação de violência crescente.
Aos sacerdotes, à Igreja como um todo, cabe tentar trazer de volta as pessoas à prática dos Sacramentos, aconselhando namoros santos, nos quais os jovens possam ter tempo para se conhecer, descobrir o temperamento um do outro, avaliar se existe compatibilidade e projetos em comum, e praticar uma vida de fé, juntos.
Tudo isso, embora possa parecer ultrapassado, auxilia nas escolhas adequadas, nos casamentos sem precipitação, na construção de famílias sólidas e num caminhar a três: o marido, a esposa e Deus. Os primeiros, até que a morte os separe, e Deus, na vida de ambos, antes e depois da morte, por toda a eternidade.
Que os casais possam voltar a se unir diante de Deus, assumindo um compromisso sério e jurando fidelidade até que a morte os separe, mas que o façam de forma idônea e verdadeira, a fim de se protegerem da diabólica tentação de antecipar a morte um do outro.
Por Afonso Pessoa
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