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As tendas de Pedro

Como outros “Pedros”, muitas vezes preferimos construir nossas próprias tendas neste mundo a nos tornarmos templos onde Deus possa habitar.

"A Transfiguração", de Pedro Serra - Retábulo do Espírito Santo, Basílica Colegiada de Santa Maria de la Aurora, Manresa (Espanha) Foto: Francisco Lecaros

“A Transfiguração”, de Pedro Serra – Retábulo do Espírito Santo, Basílica Colegiada de Santa Maria de la Aurora, Manresa (Espanha) Foto: Francisco Lecaros

Redação (01/03/2026 10:36, Gaudium Press) Três Apóstolos e dois profetas ante Deus feito Homem que, no alto do Monte Tabor, mostra-Se em todo o seu esplendor. Eis a cena grandiosa e sublime da Transfiguração! Espetáculo inabarcável, que teve como testemunhas terrenas Pedro, Tiago e João, e como representantes dos bem-aventurados os grandes Moisés e Elias: “E foi transfigurado diante deles; o seu rosto brilhou como o sol e as suas roupas ficaram brancas como a luz” (Mt 17, 2).

Em meio à sublime visão e atraído irresistivelmente por ela, o impetuoso Pedro exclama: “Senhor, é bom ficarmos aqui. Se queres, vou fazer aqui três tendas: uma para Ti, outra para Moisés, e outra para Elias” (Mt 17, 4). Mas logo se fez ouvir a voz do Pai, mudando a coragem do Príncipe dos Apóstolos em dúvida e temor por verem desfeitos seus planos tão humanos quanto distantes da vontade divina.

Caindo, pois, com o rosto em terra, e assim prostrado junto aos “filhos do trovão” (Mc 3, 17), Pedro deve ter recordado, no mais íntimo do coração, a reprimenda do Mestre: “Afasta-te de Mim, Satanás, porque teus sentimentos não são os de Deus, mas os dos homens” (Mc 8, 33). O temor invadiu então a sua alma, como a dos filhos de Zebedeu, até o momento em que Nosso Senhor lhes disse: “Levantai-vos e não tenhais medo” (Mt 17, 7).

De fato, não era a primeira vez que o temor pervadia o interior dos Apóstolos. Lembremos, entre outras, a passagem do Lago de Genesaré, quando eles tremeram ao ver o Divino Mestre andando sobre as águas enquanto tentava os acalmar, dizendo: “Tranquilizai-vos, sou Eu; não vos assusteis!” (Mc 6, 50).

Por que tremer diante d’Aquele que tanto os amava e que viera para os salvar, prometendo-lhes seu próprio Reino? Porque, assim como Pedro, os outros Apóstolos ainda procuravam o Senhor e seu Reino pelo mundo afora, nas glórias mundanas e nas preocupações materiais, quando deveriam fazê-lo em suas próprias almas: “O Reino de Deus está dentro de vós” (Lc 17, 21).

Com efeito, sempre que alguém se deixa abater pelo infortúnio, permitindo que o medo e a falta de confiança em Deus invadam sua alma, é porque, qual outro Simão Pedro, ele tirou Nosso Senhor do centro para erguer as “tendas” do egoísmo, do capricho e da ambição.

Jesus Cristo não necessitava das três tendas de Pedro, pois os templos que Ele procurava já estavam ali: eram os próprios Apóstolos! O que desejava então o Salvador? Apenas habitar em suas almas, a fim de que eles se tornassem seus instrumentos para a instauração de sua aliança eterna, assim como outrora Deus estabelecera, por meio de Moisés, a Arca da Aliança na Tenda da Reunião.

Cabe a nós nos perguntarmos: prefiro eu construir minha tenda neste mundo ou ser um templo onde Deus possa habitar?

Artigo extraído da Revista Arautos do Evangelho, março de 2026. Por Diác. Francisco Javier de Oyarzábal Gutiérrez-Barquín, EP.

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