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As consolações de Deus ou o Deus das consolações?

Nos momentos de dificuldade, insensibilidade e aridez, a alma deve lembrar-se das consolações nas quais sentiu o amor de Deus e perseverar.

Foto: Wikipedia

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Redação (28/02/2026 16:29, Gaudium Press) Apesar de que hoje em dia quase todas as embarcações são propulsionadas por motores, ainda se pode ver esta cena: pescadores continuamente à espreita de ventos propícios que favorecerão a sua faina. Quando estes não chegam, só resta uma saída: remar.

De uma observação corriqueira como esta, podemos tirar uma lição para esta liturgia dominical.

Muitas vezes, o barco da nossa alma encontra ventos de alegria que o faz avançar velozmente, quase voando sobre as águas da vida espiritual; momentos em que sentimos o Amor Divino soprar através de graças sensíveis. Outras vezes, a nau do nosso espírito se depara diante de quietações desoladoras, nada se movimenta, e o calor do sol se faz sentir. Se tais paradeiras no mar não frustram os objetivos de pescadores, muito menos podem desanimar aqueles que almejam o porto eterno dos Céus.

“É bom ficarmos aqui”

O Evangelho do Segundo Domingo da Quaresma nos apresenta a Transfiguração do Senhor no Monte Tabor. Revelando a sua glória a três apóstolos, o Divino Salvador lhes conferia forças para atravessarem a Paixão e fortalecerem os demais. Diante de espetáculo tão grandioso, São Pedro tomou a palavra e disse: “Senhor, é bom ficarmos aqui. Se queres, vou fazer aqui três tendas: uma para ti, outra para Moisés, e outra para Elias” (Mt 17, 4).

“É bom ficarmos aqui”… Quem não concordaria com São Pedro se estivesse em seu lugar? Que movimento de alma excelente não impulsionou o apóstolo a pronunciar este clamor? Sem embargo, muitas vezes as melhores disposições para a prática do bem vêm acompanhadas, ou até mesmo misturadas, com laivos de erros e defeitos. Neste caso, pode-se supor que, junto com o encanto e o são desejo de estar ao lado do Mestre, poderia assomar-se um desejo desequilibrado, nascido de um egoísmo sutil de fruir aquele bem-estar indefinidamente.

E aqui entra um ponto que se repete em nossos dias. Não é verdade que muitas pessoas optam somente pelo agradável e desejam “ficar” somente aí. Existem muitas súplicas e preces para receber e ganhar, poucas para dar e sofrer. O católico terá se esquecido de que a glória que nos prometeu o Salvador vem da Cruz? A glória do Monte Tabor é inseparável da dor do Monte Calvário, uma foi preparação para a outra, e é este o caminho para chegar às alegrias da Ressurreição.

Como Simão, quantas vezes procuramos as consolações de Deus e esquecemos do Deus das consolações! De modo semelhante aos ventos fortes dos mares, a Providência quer que as graças de consolação ocupem um lugar importante na nossa vida espiritual, não obstante, que mérito teríamos para entrar no porto da salvação se nunca remássemos?

Deus sabe que o homem precisa desta sensibilidade espiritual, entretanto, o amor não reside no sentimento, mas sim na vontade. Nas grandes calmarias dos oceanos das nossas existências, cada um deve remar, fortalecido pela lembrança dos ventos sensíveis. Assim sendo, nos momentos de consolação, lembremo-nos dos momentos de aridez, e, nos momentos de aridez, não nos olvidemos dos momentos de consolação.

A Mãe da Consolação

No alto do Calvário, vendo “um verme e não um homem” (Sl 21,7), a lembrança da Transfiguração dar-lhes-ia fé na vitória do Messias. Contudo, aos pés da Cruz somente se encontrava João. Por quê?

É possível cogitar que o Discípulo Amado sabia que, além de ver na consolação do Tabor um estímulo para perseverar diante da Cruz, deveria recorrer a Nossa Senhora, a Mãe da Consolação. Peçamos a Ela que nos socorra nas nossas tentações, conservando no coração as graças derramadas sobre nós.

Por Marcus Yip

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