Gaudium news > A heresia mais sutil que o diabo engendrou

A heresia mais sutil que o diabo engendrou

       De todas as heresias surgidas na História, não houve nenhuma cujos propugnadores mostrassem tanta malícia, astúcia e obstinação como o jansenismo, que eclodiu no século XVII.

Cornélio Jansênio Foto: Wikipedia

Cornélio Jansênio Foto: Wikipedia

Redação (22/02/2026 11:04, Gaudium Press) Originário de família católica e muito pobre, Cornélio Jansênio nasceu na Holanda, em 1585, foi ordenado sacerdote e tornou-se bispo de Ypres, Bélgica. Era alto, magro, de testa larga, nariz comprido, queixo saliente, barbicha pontiaguda.[1] Escreveu a obra “Agostinus”, na qual renovou a heresia de Calvino e defendeu outros erros contra a doutrina da Igreja.

Em Paris, conheceu o Padre Duverger de Hauranne, que era de família endinheirada e estudou na Sorbonne; tornou-se Abade de Saint-Cyran – Centro da França. Possuía “corpo miúdo, precocemente calvo, rosto sulcado por mil rugas, olhar de tormento e febre”.[2] Ficou conhecido como “Saint-Cyran”.

Outro corifeu dessa heresia foi o padre francês Antoine Arnauld.

O Papa Urbano VIII, em 1642, lançou uma bula condenando cinco proposições da obra de Jansênio, numa das quais ele afirma que Jesus Cristo não morreu por todos os homens, mas só pelos predestinados.[3]

Esse documento papal teve enorme repercussão. Diversos bispos apoiaram Jansênio. Na Sorbonne e no Parlamento da França, houve debates acirrados entre opositores e defensores do chefe herético.

Abadia de Port-Royal

O principal foco dessa heresia foi a Abadia de Port-Royal des Champs, situada nas proximidades de Paris, dirigida por Madre Angélica Arnauld. Saint-Cyran ali fez pregações, inoculando sua heterodoxa doutrina nas religiosas.

Por ordem de Richelieu, Saint-Cyran foi preso no Castelo de Vincennes, onde ficou hospedado no donjon do mesmo e escreveu inúmeras cartas espalhando seus erros doutrinários. Após cinco anos, o Cardeal Mazarino – Ministro da Regente Ana d’Áustria – o libertou. Ele se dirigiu a Port-Royal onde foi acolhido com arrebatamento, e algumas semanas depois morreu.

 As monjas dessa abadia desobedeceram à ordem do Papa Alexandre VII de assinarem um formulário no qual se condenava cinco proposições da obra de Jansênio. O Arcebispo de Paris não conseguiu convencê-las e enviou o Padre Bossuet – que depois se tornou bispo e celebérrimo pregador – com esse objetivo, mas elas permaneceram obstinadas. Então, foram proibidas de receber os Sacramentos.

Divididas em grupos, o arcebispo as enviou para outros conventos. Em 1710, o Conselho de Estado do Rei Luís XIV ordenou a demolição de Port-Royal.

Pessoas de destaque no campo literário tornaram-se jansenistas, entre as quais: Racine, Pascal e Madame de Sévigné.

Orgulho, mola propulsora do processo revolucionário

Antoine Arnauld, irmão mais novo de Madre Angélica, mantivera longas conversas com Saint-Cyran que lhe declarou: “‘Deus fez-me saber que há cinco ou seis séculos deixou de haver Igreja’, dando a entender que ele a refaria”.[4]

Esse dito se espalhou nos meios religiosos e culturais. São Vicente de Paulo censurou seu autor, dizendo que ele pretendia salvar sozinho a Igreja, e o jansenista respondeu que o Santo era ignorante.

Vemos aqui uma clara manifestação de orgulho, que também se observa nos partidários dessa heresia. O Apóstolo São Tiago adverte: “Deus resiste aos soberbos, mas dá sua graça aos humildes” (4, 6).

O orgulhoso “não consegue ser manso, pois abriga em seu coração um dinamismo que o leva a retrucar, a optar pela violência, pela revolta e pela vingança”.[5]

Juntamente com a sensualidade, o orgulho é mola propulsora do processo revolucionário que há cinco séculos visa destruir a Igreja, a Civilização Cristã e convulsionar “a psique toda do homem, isto é, ‘trabalha-o’ nas várias potências de sua alma, e em todas as fibras de sua mentalidade”.[6]

Contra a Eucaristia, Nossa Senhora e o Papado

Sintetizamos a seguir alguns ensinamentos de Dr. Plinio Corrêa de Oliveira sobre o jansenismo.

Essa heresia foi a mais sutil que o diabo engendrou. Para evitar o sucedido com o protestantismo, profligado pela Igreja, os chefes dessa heresia tudo fizeram para impedir ou protelar uma condenação de seus erros pérfidos. O jansenismo era uma espécie de calvinismo mitigado.

Essa heresia tinha em mira precisamente enfraquecer a Igreja, minando a devoção ao Santíssimo Sacramento sob as aparências de um falso respeito. Exigia tais disposições para se aproximar da Sagrada Mesa, que as pessoas, infelizmente muito numerosas, por ela influenciadas, deixavam quase completamente de comungar.

De outro lado, o jansenismo movia uma campanha insistente contra a devoção a Nossa Senhora, que acusava de desviar de Jesus Cristo em lugar de conduzir a Ele. E, por fim, essa heresia movia luta incessante contra o Papado e especialmente contra a infalibilidade do Sumo Pontífice.[7]

São Vicente de Paulo e São Luís Grignion combateram a perniciosa heresia

Na França, São Vicente de Paulo e São Luís Maria Grignion de Montfort se conduziram nesse emaranhado cipoal de insídias como verdadeiros campeões da Fé e da sã Doutrina, não temendo nem a perseguição dos maus nem a incompreensão dos bons no desempenho da missão que lhes reservara a Providência, de combate a tão terrível e perniciosa heresia.

São Vicente tudo fez para que a decisão pontifícia fosse aceita por toda a França, tão convencido estava do perigo que passava a filha primogênita da Igreja diante das maquinações da cabala, que tinha João Duvergier de Hauranne e Jansênio por chefes e cuja finalidade era trabalhar pela completa ruína da Religião Católica.

Jansênio apresentava essas teses de modo disfarçado. Não negava o culto a Nossa Senhora, mas o subestimava.

São Luís Grignion escreveu o “Tratado da verdadeira devoção à Santíssima Virgem”, o qual é a contraposição de Jansênio. Como este não se declarava inimigo da Igreja a não ser nas entrelinhas, o Santo deu a resposta nas entrelinhas também, algo inteiramente explicável do ponto de vista tático.[8]

Roguemos a Nossa Senhora que extirpe de nossas almas o orgulho e nos conceda a virtude da humildade, a qual, conforme ensina Santa Teresa de Jesus, “consiste em andar na verdade, pois é de grande importância não ver coisa boa em nós, mas sim a miséria e o nada”.[9]

Por Paulo Francisco Martos

Noções de História da Igreja


[1] Cf. DANIEL-ROPS, Henri. A Igreja dos tempos clássicos (I). São Paulo: Quadrante. 2000, v. VI, p. 340.

[2] Id. Ib. p.341.

[3] Cf. MIGNE, Jacques-Paul . Abbé. Encyclopédie Theologique. Paris: Ateliers Catholiques du Petit-Montrouge. 1850. v. 35-I, p. 13.

[4] DANIEL ROPS, Henri. Op. cit., p. 349.

[5] CLÁ DIAS, João Scognamiglio. EP. O inédito sobre os Evangelhos. Vaticano: Libreria Editrice Vaticana; São Paulo: Instituto Lumen Sapientiae, 2013, v.  II, p. 200-201.

[6] CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Revolução e Contra-Revolução. 10. ed. em português.  São Paulo: Associação Brasileira Arautos do Evangelho. 2024, p. 255.

[7] Cf. CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. O dogma da Imaculada Conceição: marco inicial do reinado de Maria. In Dr. Plinio. São Paulo. Ano XXVI, n. 309 (dezembro 2023), p. 11

[8] Cf. Id. As portas do Inferno não prevalecerão contra a Igreja. Dr. Plinio. Ano XXIV, n. 275 (fevereiro 2021), p. 17-18. Jansenismo e consagração a Nossa Senhora. Ano VI, n. 58 (janeiro 2003), p. 8-10.

[9] Moradas del castillo interior. Moradas sextas, c.10, n.8.

Deixe seu comentário

Notícias Relacionadas