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À espera de um milagre

Eu demorei, mas aprendi que milagre não é Deus dar tudo o que a gente pede ou consertar os nossos erros por decreto. Ele nos perdoa, é verdade, mas não nos tira a responsabilidade pelo que plantamos. A colheita é nossa, e às vezes ela é amarga.

Foto: Wikipedia

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Redação (28/02/2026 09:36, Gaudium Press) Conheci um homem que vivia à espera de um milagre. O seu nome era Pedro. Pedro acreditava em Deus, mas não cuidava da sua própria alma. Trabalhava em uma metalúrgica — um serviço duro, bruto, que ele chamava de “labuta do demo”. Sempre que lhe perguntavam como ia a vida, a resposta vinha pronta, como um escudo: “Para melhorar, só com um milagre!”.

A teologia do comodismo

Ele passou anos nessa fábrica, reclamando que o lugar não era para gente, mas nunca buscou outro chão até o dia em que a soberba e o álcool falaram mais alto. Chegou ao turno da noite embriagado, não aceitou a autoridade do chefe e perdeu o emprego. Foi aí que a palavra “milagre” ganhou corpo e virou o seu álibi definitivo: “Na minha idade, sem estudo, só mesmo por um milagre para arrumar outra ocupação!”

Quando a esposa lembrava das contas de luz vencendo e da geladeira que começava a ecoar o vazio, ele se limitava ao comando: “Reza, mulher, que só um milagre para tirar a gente dessa miséria”. Ele tinha o acerto de contas da fábrica no banco, mas escolheu viver uma vida de dificuldades, confiando no milagre, enquanto o dinheiro dormia sob a guarda do gerente.

O altar de álcool e fumaça

Aconselhado por um compadre, Pedro resolveu abrir um bar. De pensamento em pensamento, achou que, como gostava de uma cachaça e tinha amigos com o mesmo gosto, o negócio seria um sucesso. Abriu um boteco simples e colocou a esposa para trabalhar com ele. Milagre não foi, mas o boteco prosperou.

O casal trabalhava incansavelmente, de domingo a domingo. Praticamente não viram o filho crescer, deixando o menino aos cuidados da avó. A vida deles se resumia a quatro paredes: limpar chão, cozinhar quitutes e suportar o número cada vez maior de bêbados. Quando a sogra, mulher de muita piedade, mandava recado dizendo que eles precisavam ir à missa, Pedro bufava: “Conseguir sair daqui de fim de semana só mesmo por um milagre!”.

A decisão de colocar a esposa para servir em um bar revelou-se um erro crasso. Não demorou para ela sofrer o desrespeito dos frequentadores, e a resposta de Pedro era o auge da sua cegueira: “Você fica rindo à toa, dando confiança… só por um milagre que eles não vão mexer com você!” Quando a mulher, por defesa, fechou a cara e virou “bicho do mato”, ele a acusava de afastar a freguesia com sua antipatia.

Pedro foi ajudando os fregueses a acabar com o estoque de bebida. Agora era a mulher, triste e incomodada, que rezava por um milagre que desse um rumo àquela vida. Mas as coisas só pioraram. Pedro adoeceu e se recusava a ir ao médico, alegando: “Eu sou filho de Deus, meu Pai não vai me desamparar. Ele vai me dar o milagre da cura”.

O juramento levado pela chuva

Um dia, o cansaço venceu a mulher. Ela foi embora, e o juramento do altar deslizou pelo chão do bar, sendo levado pelas águas da chuva de um dia cinzento. Pedro ficou sozinho. Mas, fiel ao seu hábito, continuava a fazer o sinal da cruz diante de uma imagem antiga, pedindo: “Meu Deus, eu confio no Senhor. Quando é que o Senhor vai me dar um milagre?”.

Ele saía de casa cedo, mas estava tão enfurnado em suas contas e garrafas que nunca levantava os olhos para ver o milagre do sol nascendo. No fim da tarde, mesmo com a porta do bar voltada para o poente, nunca parou para observar o segundo milagre de mais um dia que se findava.

Eu me mudei de cidade e perdi o rastro do Pedro. Anos depois, participando de uma romaria à Basílica de Aparecida, encontrei a esposa dele no pátio. Estava envelhecida, com marcas que o tempo e o bar haviam deixado. Perguntei por Pedro e a resposta foi um soco: a cirrose, a pressão alta e uma trombose severa haviam destruído o que restava do homem. Ele tivera que amputar as duas pernas.

O milagre da amputação

– Ele está aqui, o senhor não quer ver ele? O senhor sabe como ele é, né? Quando estava bom, nunca me trouxe aqui, e agora que precisa andar carregado, me fez trazer ele. Deve estar lá, incomodando Nossa Senhora com essa história de pedir milagre.

Fomos ao encontro dele, perto da imagem milagrosa. Choquei-me ao vê-lo na cadeira de rodas. Pedro estava magro, encovado, mas havia um brilho assustadoramente lúcido em sua expressão.

– Seu Afonso! Que milagre encontrar o senhor aqui! Exclamou, com um terço entre os dedos.

Tentei dizer algo de consolo, mas ele me cortou com a força de quem finalmente enxergou o “avesso”:

– Eu não vim aqui pedir milagre, seu Afonso. Eu vim agradecer pelo imenso milagre que Ele me deu. Todo mundo olha para mim e vê um pobre coitado sem as pernas, mas eu olho para esses toquinhos e agradeço. Deus teve misericórdia de mim. Eu estava num precipício, destruindo minha família e acabando com a minha alma. Então Ele me deu um milagre duplo: levou minhas pernas para eu não ter nem esperança de levantar e voltar para o vício, mas salvou a minha alma!

Pedro me contou que, na porta do centro cirúrgico, ouviu a voz de Deus no coração. Teve que escolher entre morrer nos próprios erros ou viver para aprender com as consequências deles. Ele escolheu a vida, pediu para chamarem um padre, confessou-se e recebeu a absolvição.

O tempo de cada propósito

Mais uma vez, lembrei-me das palavras do Eclesiastes: “Para tudo há um tempo; para cada coisa há um momento debaixo do céu” (Ec 3,1). Pedro teve o tempo de se perder na própria teimosia e, agora, vivia o tempo de ser encontrado pela dor que cura.

– Eu demorei, seu Afonso, mas aprendi que milagre não é Deus dar tudo o que a gente pede. Ele nos perdoa, mas o aprendizado vem da nossa responsabilidade. Ele levou as pernas que me levariam ao inferno e me deu a esperança do Céu.

Aquele foi o dia em que mais me faltaram palavras. Prometi-lhe que escreveria sua história para que as pessoas peçam a Deus o que verdadeiramente importa. Promessa cumprida, Pedro! Sua lição está no papel.

Por Afonso Pessoa

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