Com Gabrielle, em Nairobi
Noirobi – Quênia (Terça-feira, 21-01-2014, Gaudium Press) – Longas filas, carimbos, passaportes, um cuidadoso procedimento para detectar metais. Só depois disso foi que finalmente alcançamos nosso balcão de embarque de número 2.
As pessoas iam chegando agora mais rapidamente e logo atravessaríamos o “tubo” que, finalmente, nos levaria ao avião, com destino ao Brasil.
Uma senhora abordou-me perguntando num francês com sotaque característico de algum país da África Central:
-Aqui é o embarque de número 22?
Expliquei que não. Mas ela continuou:
– Ah! O senhor é brasileiro?
-Sim! Respondi.
-O senhor viu, o raio que se abateu sobre o Redentor?
Devido ao inusitado da pergunta, demorei alguns instantes para entender que assunto ela estava tentando levantar comigo.
Ainda bem que, antes de dirigir-me a essa sala de espera, liguei o computador aproveitando um resto de cartão de uma wi-fi e havia lido notícias sobre o tema em torno do qual ela queria manter uma conversa.
Depois de um momento, surpreso, respondi meio que por instinto:
-Sim! A senhora também viu?
Ela respondeu afirmativamente com um aceno de cabeça e um semblante que mostrava preocupação com a notícia.
A desconhecida e inesperada interlocutora continuou o seu interrogatório com aquela mística muito própria aos povos africanos:
-O senhor acha que foi um bom ou um mal presságio?
Ai, realmente fiquei confundido: não tinha analisado o fato por esse ângulo.
Francamente: no aeroporto de Nairobi, uma janela para várias partes do mundo, aquela pergunta sobre um fato ocorrido no Brasil há alguns dias e com essa repercussão… teológica. Fiquei confuso e confesso que demorei, repito, um tanto para refazer-me do inopinado que se me apresentava.
Procurei, dentro das notícias que havia lido, fazer minha interlocutora entender que, no Brasil, estamos exatamente no período do verão e que as tempestades são, então, muito frequentes. E que elas diferem muito dessas tormentas de alguns países africanos, onde a chuva cai sem raios ou trovões. E, disse-lhe mais: nosso Cristo Redentor está num ponto muito alto, na cidade do Rio de Janeiro e lá, frequentemente, os raios caem sobre os lindos morros arredondados que circundam a baía.
Mas, eu vi que ela não estava satisfeita com minhas explicações quando argumentou séria, firme e serena:
-Sim, mas Ele é a própria imagem de Deus, com seus braços abertos, que protege o Brasil e o mundo… É o símbolo da proteção! Por algum motivo Deus permitiu que isso acontecesse e que a mão direita da imagem tivesse seus dedos danificados…
Eu ouvia atento aquele francês que me agradava tanto, expresso naquele rosto cheio de mistério, naqueles olhos carregados de fé:
-Sabe, senhor, em minha tribo as mãos representam, como já lhe expliquei: a luta, a bênção, o carinho, o caminho indicado. Quando ela se enferma, tudo isso deixa de existir… especialmente quando se trata da mão direita!
Eu não queria e não podia deixa-la sem uma resposta de caráter metafísico, para, de algum modo, não apagar naquela alma essa visão sobrenatural existente nesses povos desse lado do mundo.
-Veja bem, senhora! As mãos de nosso Cristo Redentor, universalmente conhecido tomou sobre si o peso do raio, que poderia ter atingido outro ponto do Santuário. Ele foi o escudo…
Não adiantou! Gabrielle, este era seu nome, continuou dizendo, em tom de consolo, mais que de presságio:
– Ah! Senhor, assim espero que seja! Assim espero. E desejo que não seja o que conhecemos através de nossos antepassados: a mão se enfermou…
Assustei-me novamente. Desta vez porque ouvia meu nome pelos alto-falantes do aeroporto…
A “conversa” me distraiu, o tempo passou: todos já tinham embarcado, menos eu.
Despedi-me rapidamente e corri para o avião, sem esquecê-la.
16 horas depois, com escala em Johannesburg, chegamos ao Brasil. Eu ainda pensava nas palavras de Gabrielle, com quem havia falado em Nairobi.
Por Lucas Miguel Lihue





Deixe seu comentário