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Nem tudo o que podemos fazer nos convém

A liberdade nos oferece possibilidades, mas é a prudência que nos ajuda a distinguir aquilo que podemos realizar daquilo que verdadeiramente nos convém.

Foto: magnific.com

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Redação (07/11/2026 16:45, Gaudium Press) Há tantos anos escrevendo para este informativo, é possível que eu já tenha abordado este assunto em alguma ocasião e, se o fiz, não me incomodo em tratar dele novamente. Afinal, existem verdades que não perdem a atualidade simplesmente porque o mundo mudou, as tecnologias avançaram ou os costumes se transformaram; uma delas foi expressa por São Paulo há quase dois mil anos: “Tudo me é permitido, mas nem tudo me convém” (1Cor 6,12).

É uma afirmação curta, mas que encerra uma sabedoria extraordinária, sobretudo numa época em que a possibilidade de fazer alguma coisa parece ter se transformado, para muitas pessoas, numa justificativa suficiente para fazê-la.

Vivemos no mundo digital, acompanhamos o desenvolvimento da inteligência artificial, preparamos a exploração de outros planetas, fabricamos automóveis elétricos e veículos capazes de circular sem motorista, enquanto dispositivos domésticos obedecem a comandos de voz, respondem perguntas e executam tarefas. Coisas que, há poucas décadas, pareceriam pertencer exclusivamente à ficção científica.

Tudo isso é admirável, e seria absurdo negar os benefícios que o progresso trouxe à humanidade. Entretanto, convém perguntar se, juntamente com a capacidade de realizar tantas coisas, desenvolvemos na mesma proporção a sabedoria necessária para escolher quais delas devemos realizar.

O progresso não mudou a natureza humana

Há quem procure relativizar determinados ensinamentos morais argumentando que, nos tempos bíblicos, a sociedade era muito diferente, que os costumes mudaram e que não podemos continuar orientando nossas escolhas por princípios formulados numa realidade tão distante da nossa.

É verdade que o mundo mudou. Mudaram os meios de transporte, as formas de comunicação, a medicina, as relações de trabalho e inúmeros aspectos da vida cotidiana, mas será que mudaram, na mesma proporção, a natureza humana, nossas inclinações, fraquezas e necessidades mais profundas?

Continuamos sujeitos à inveja, ao orgulho, à mentira, à ambição desmedida e à tentação de colocar nossos interesses acima dos direitos alheios, assim como continuamos capazes de generosidade, fidelidade, sacrifício, compaixão e amor.

O desenvolvimento tecnológico ampliou extraordinariamente nossas possibilidades, mas não suprimiu a necessidade de distinguir o bem do mal. Um instrumento pode ser novo; a intenção de quem o utiliza, nem sempre.

A mesma tecnologia que aproxima pessoas separadas por milhares de quilômetros pode servir para espalhar calúnias, humilhar desconhecidos ou invadir a intimidade alheia. O fato de podermos publicar uma informação não significa que tenhamos o direito de divulgá-la, assim como a possibilidade de expressar uma opinião não nos dispensa da responsabilidade pelas consequências de nossas palavras.

A liberdade precisa de direção

Confundimos frequentemente liberdade com ausência de limites, como se ser livre significasse poder satisfazer todos os desejos, experimentar todas as possibilidades e rejeitar qualquer orientação que contrarie nossa vontade.

Entretanto, uma pessoa que não consegue resistir aos próprios impulsos talvez esteja muito menos livre do que imagina, pois acaba submetida a desejos que não aprendeu a governar.

A prudência, uma das quatro virtudes cardeais, ajuda-nos justamente a discernir, diante das circunstâncias concretas, qual é o bem que devemos procurar e quais são os meios adequados para alcançá-lo. Não se trata de viver com medo, recusar novidades ou transformar cada decisão num problema interminável, mas de compreender que nossas escolhas produzem consequências que nem sempre atingem apenas a nós mesmos.

Podemos responder imediatamente a uma ofensa, mas talvez seja melhor esperar até que a irritação diminua. Podemos comprar algo que desejamos, mas isso não significa que a compra seja conveniente para nossa situação financeira. Podemos insistir numa discussão até conseguir a última palavra, embora muitas vezes seja mais sábio preservar a paz do que conquistar uma vitória sem importância.

Em todas essas situações, a verdadeira liberdade se manifesta não apenas na capacidade de agir, mas também na possibilidade de renunciar.

Quando tudo é permitido às crianças

Talvez um dos exemplos mais claros dessa confusão apareça na educação dos filhos. Por receio de frustrar as crianças, contrariar seus desejos ou parecer excessivamente rigorosos, alguns pais acabam confundindo amor com permissividade, permitindo comportamentos que deveriam ser corrigidos e deixando de estabelecer limites necessários à convivência.

É evidente que educar não significa humilhar, ameaçar ou impor uma obediência cega, mas também não significa entregar a uma criança a responsabilidade de decidir sozinha aquilo que ainda não possui maturidade para compreender.

Uma criança que nunca aprende a ouvir um “não” pode crescer acreditando que seus desejos devem prevalecer sobre os direitos dos outros, que toda contrariedade representa uma injustiça e que as regras existem apenas para limitar sua felicidade.

Naturalmente, a ausência de limites não determina, por si só, que alguém se tornará um adulto irresponsável ou delinquente, pois a formação humana envolve muitos fatores. Ainda assim, ensinar uma criança a reconhecer consequências, respeitar o próximo e aceitar frustrações é uma forma de prepará-la para exercer a liberdade com responsabilidade.

O amor dos pais não se demonstra apenas pelas coisas que oferecem aos filhos, mas também pelos limites que têm coragem de estabelecer. Quando os pais não mandam em suas casas e permitem que as crianças o façam, ironicamente poderão assistir ao fracasso de filhos adultos incapazes de governar a própria vida.

Nem tudo o que é possível é bom

A impressão de que os avanços da humanidade tornaram ultrapassadas as antigas distinções morais pode levar a uma conclusão perigosa: se hoje podemos fazer tantas coisas que antes eram impossíveis, talvez já não existam limites que precisem ser respeitados.

Ora, o pecado não deixou de existir porque inventamos máquinas mais sofisticadas, assim como a consciência humana não se tornou dispensável porque conseguimos automatizar decisões e tarefas.

A questão fundamental continua sendo a mesma: aquilo que desejamos fazer é justo? É honesto? Respeita a dignidade das outras pessoas? Contribui para nosso crescimento ou apenas satisfaz uma vontade passageira?

Nem sempre teremos respostas imediatas, e é justamente por isso que precisamos formar a consciência, cultivar a prudência e reconhecer que a capacidade de escolher exige também a disposição de assumir responsabilidades.

A Doutrina Católica não nos convida a rejeitar o progresso nem a desconfiar de todas as novidades, mas a recordar que nenhuma conquista material substitui o desenvolvimento moral e espiritual do ser humano.

Enfim, podemos construir máquinas capazes de realizar tarefas extraordinárias, alcançar lugares antes inacessíveis e ampliar quase indefinidamente nossas possibilidades de ação; contudo, se não aprendermos a distinguir o que nos convém daquilo que apenas nos atrai, correremos o risco de conquistar um poder cada vez maior sobre o mundo sem desenvolver o necessário domínio sobre nós mesmos.

E talvez seja essa uma das lições mais atuais de São Paulo: nem tudo o que podemos fazer nos convém, porque a verdadeira liberdade não consiste em realizar todas as nossas vontades, mas em aprender a escolher o bem.

Por Afonso Pessoa

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