Resumo das atividades do Papa Leão XIV no Uruguai
Em menos de 24 horas desde a chegada do Pontífice ao Uruguai, suas palavras já provocaram impacto com uma nota de originalidade, sobretudo se comparadas ao que foi dito em suas recentes viagens à Espanha e à França.

Foto: Vatican Media
Redação (07/11/2026 15:28, Gaudium Press) Em seu primeiro discurso no Uruguai, na sexta-feira, 6 de novembro, durante o encontro com as autoridades, representantes da sociedade civil e do corpo diplomático, realizado na Praça da Independência, em Montevidéu, o Papa recordou que o exercício da autoridade deve estar orientado para o bem comum.
Segundo o Pontífice, a autoridade pública “encontra sua razão de ser no serviço ao bem comum e é chamada a ser exercida dentro da ordem jurídica, respeitando a liberdade e a responsabilidade dos cidadãos”. Também ressaltou que as decisões políticas precisam considerar não apenas as necessidades do presente, mas os efeitos que terão sobre as gerações futuras.
Nesse contexto, Leão XIV chamou a atenção para a importância de refletir sobre a vida humana que começa e sobre aquela que ainda se desenvolve no seio materno. “Quem ainda não nasceu já pertence à família humana e ao futuro do seu povo. A sua dependência absoluta da mãe não diminui a dignidade que lhe é própria nem a proteção que merece. O próprio Jesus quis assumir esta condição ao encarnar-se. Acolher uma nova vida exige que o pai se comprometa ao lado da mãe, que a família preste o seu apoio e que existam condições sociais que permitam a ambos criar e cuidar dos seus filhos”. A referência ganha particular relevância diante das preocupações demográficas do Uruguai e dos desafios enfrentados pelo país em relação à natalidade.
O Papa mencionou ainda a necessidade de ampliar as oportunidades de inserção dos jovens no mercado de trabalho e de melhorar as condições sanitárias da população. Reafirmou, por fim, a disposição da Igreja de colaborar, dentro de suas possibilidades, com iniciativas voltadas ao desenvolvimento humano e social.
Leão XIV concluiu: “Vim ao Uruguai como Sucessor de Pedro e como pastor, com o desejo de me encontrar com a Igreja peregrina nesta terra e de me aproximar, com carinho, a todo o seu povo”.
Oração pelas vocações e exemplo do Beato Jacinto Vera
Ainda na sexta-feira, Leão XIV presidiu à celebração das Vésperas na Catedral Metropolitana da Imaculada Conceição e dos Santos Filipe e Tiago, em Montevidéu, reunindo bispos, sacerdotes, diáconos, religiosos, religiosas e seminaristas.
Na homilia, o Pontífice convidou os consagrados a examinarem a disposição interior com que vivem sua vocação. “Também nós, que entregamos a vida ao Senhor, precisamos nos perguntar onde está o nosso coração”, afirmou. Em seguida, recordou que a fidelidade à vocação exige retornar continuamente a Jesus Cristo, reconhecendo-O como o verdadeiro tesouro e modelo de vida. “Por vezes, ele pode ficar preso a uma obra que consideramos nossa, ao reconhecimento que recebemos ou à tranquilidade de ter tudo sob controle. E, sem nos apercebermos, começamos a ver os outros a partir de uma perspectiva com base nessas preocupações. A fidelidade à nossa vocação exige que voltemos, uma e outra vez, a Jesus Cristo, deixando que Ele seja o nosso tesouro, Aquele a quem queremos assemelhar-nos”, frisou.
Como exemplo de dedicação pastoral, apresentou o Beato Jacinto Vera, primeiro bispo uruguaio, cujos restos mortais repousam naquela catedral. Leão XIV evocou os pés que percorreram os caminhos do país para anunciar o Evangelho, as mãos que abençoaram e socorreram os pobres e administraram os sacramentos, os ouvidos que acolheram inúmeras confidências e os olhos atentos às necessidades do próximo.
O Papa também destacou a importância da perseverança na oração pelas vocações sacerdotais e religiosas. Recordou que, em 2024, quando o seminário interdiocesano uruguaio não recebeu novos candidatos, numerosos fiéis começaram a organizar jornadas de oração e jejum, atendendo ao pedido de Jesus: “Pedi, pois, ao Senhor da messe que envie trabalhadores para a sua messe” (Mt 9, 38).
A iniciativa prosseguiu nos anos seguintes e, segundo o Pontífice, já apresenta frutos: vários jovens começaram seu caminho de formação no seminário e na vida consagrada. Leão XIV manifestou gratidão por essas novas vocações e incentivou a comunidade católica a perseverar na súplica. “Vede nestes frutos a prova de que o nosso Deus escuta a oração do seu povo”.

Foto: Vatican Media
Ao chegar à Nunciatura Apostólica, o Santo Padre ainda saudou os jovens que o aguardavam. Da sacada, manifestou sua alegria ao encontrar tantos uruguaios jovens e católicos: “Vejo que o Uruguai é um país de jovens com fé”.
Leão XIV agradeceu o entusiasmo dos presentes e brincou com o fato de que o Núncio Apostólico gostaria de dormir, embora tenha permitido que continuassem cantando — respeitando, naturalmente, o descanso dos vizinhos. A saudação terminou com uma bênção para todos.
Pontes, palmeirais e mate
Neste sábado, 7 de novembro, o Papa viajou a Paysandú, onde presidiu à Santa Missa no Parque París Londres. A celebração reuniu aproximadamente 40 mil fiéis, segundo informações das autoridades locais divulgadas pela Sala de Imprensa da Santa Sé.
Na homilia, Leão XIV recordou os missionários que, desde os primórdios da evangelização do continente americano, chegaram às terras do Rio da Prata para anunciar a alegria do encontro com Cristo. Também prestou homenagem ao Beato Jacinto Vera, destacando sua dedicação incansável à missão apostólica e sua caridade para com os necessitados.
O Pontífice recordou, por exemplo, que o primeiro bispo uruguaio percorria a cavalo grandes distâncias para visitar os enfermos, enfrentando os perigos dos caminhos e as intempéries. Durante o cerco de Paysandú, em 1864, instalou-se na Ilha da Caridade, diante da cidade sitiada, para prestar assistência aos refugiados e feridos de ambos os lados. Permaneceu ali até o fim do conflito, procurando promover a reconciliação entre os adversários.
Ao incentivar os católicos a dar continuidade à obra dos primeiros evangelizadores, Leão XIV ressaltou que o anúncio cristão deve ser realizado com justiça, honestidade e fidelidade, pois a mensagem transmitida pela Igreja não lhe pertence: é um tesouro recebido de Deus e carregado “em vasos de barro” (2Cor 4, 7).
Um dos aspectos mais característicos da homilia foi a utilização de três elementos da paisagem e da cultura regional como símbolos para explicar a missão dos cristãos: a ponte, os palmeirais e o mate.
A ponte foi apresentada como imagem da união, da comunicação e do intercâmbio entre os povos. Ao mencionar a Ponte Internacional General Artigas, que liga o Uruguai à Argentina sobre o rio Uruguai, o Papa ressaltou a vocação cristã de construir pontes, estreitar vínculos e transmitir a alegria da fé. Entretanto, advertiu que toda ponte precisa de bons alicerces para resistir às correntes mais fortes. Da mesma forma, a vida cristã exige uma sólida formação na fé para permanecer firme diante das adversidades.
Os palmeirais, por sua vez, foram evocados como exemplo de resistência diante dos ventos e de união, pois “as palmeiras não crescem isoladas nesta região, mas formam palmeirais, ou seja, são muitas e não estão sozinhas nem distanciadas umas das outras. Da mesma forma, a Igreja é uma comunidade de irmãos que tem raízes profundas, alimentando-se de uma fonte comum: a Palavra de Deus, os Sacramentos, a oração e a ação caritativa; os seus fiéis elevam o olhar em conjunto para louvar a Cristo, o Sol que nasce do alto, cuja luz guia os passos da humanidade pelo caminho da paz (cf. Lc 1, 78-79)”.
O mate, bebida tradicional e símbolo da convivência no Uruguai, foi apresentado como expressão de familiaridade, amizade e convívio. Seu costume de ser compartilhado ensina a acolher o próximo, fortalecer os laços comunitários e reconhecer os valores que unem as pessoas.
A partir dessas três imagens, Leão XIV convidou os uruguaios a refletirem sobre os elementos que constituem sua identidade e seu sentimento de pertença. Recordou que a fé também faz parte da história do povo uruguaio desde suas origens e precisa ser transmitida às novas gerações com criatividade e ousadia.
O Pontífice incentivou ainda a formação cristã das crianças e dos jovens, o acompanhamento das famílias, o amparo aos idosos e a prática das obras de caridade. Ao concluir, confiou a comunidade à proteção de Nossa Senhora dos Trinta e Três, Padroeira do Uruguai, pedindo que ela conduza todos ao encontro de seu Filho Jesus Cristo.
Continuação da visita apostólica
Após a celebração eucarística, Leão XIV fez uma breve visita à Basílica de Nossa Senhora do Rosário, em Paysandú, onde permaneceu alguns instantes em oração. Na praça diante do templo, saudou os fiéis, abençoou os presentes e encontrou-se com pessoas enfermas. Em seguida, retornou a Montevidéu.
A programação deste sábado ainda prevê outros três compromissos importantes: às 17h, um encontro com a comunidade do bairro Casavalle, na Paróquia Nossa Senhora de Guadalupe; às 18h, uma reunião com representantes do mundo da educação na Universidade Católica do Uruguai; e, às 19h, uma vigília de oração no Estádio Centenário, em Montevidéu.
No domingo, 8 de novembro, o Papa seguirá para Florida, onde celebrará a Santa Missa diante do Santuário Nacional de Nossa Senhora dos Trinta e Três, Padroeira do Uruguai. Depois de um encontro com os bispos e da cerimônia de despedida, partirá para Buenos Aires, dando início à segunda etapa de sua viagem apostólica, que também incluirá o Peru.




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