O azeite da intenção
Bem podemos considerar que o azeite necessário para que cada um dos sentidos se mantenha “aceso” à chegada do noivo seja a intenção em nossos atos. Com que intenção estou utilizando meus sentidos para dar glória ao Criador?
Redação (07/11/2026 12:11, Gaudium Press) O Evangelho deste 32º Domingo do Tempo Comum nos convida a refletir sobre um aspecto essencial de nossa vida neste vale de lágrimas: a intenção de nossos atos.
O cortejo nupcial
A parábola das dez virgens se insere no contexto de um dos mais significativos acontecimentos sociais da antiguidade: a festa de casamento. Marcada por grande solenidade, a cerimônia matrimonial incluía um cortejo nupcial no qual as amigas da noiva aguardavam, juntamente com ela, a chegada do noivo, que, por sua vez, vinha também acompanhado de seus amigos, até o momento de conduzi-la à sua casa. Visto que tal deslocamento ocorria na hora do crepúsculo, era necessário levar lâmpadas abastecidas com azeite ou resina para iluminar o caminho.[1]
Convém lembrar que “os fósforos não haviam sido inventados, nem o isqueiro a gás. Para obter fogo se requeria certa arte e paciência: batiam-se duas pedras apropriadas, uma contra a outra, até se acender com uma faísca a mecha ou algo facilmente inflamável. Era tarefa tão complexa, que havia o costume de se ter uma dessas lamparinas sempre ardendo, ou se conservavam algumas brasas na lareira, a fim de conseguir fogo com presteza para qualquer finalidade. Deixar que a chama se apagasse era um verdadeiro desastre, porque acendê-la de novo não seria nada simples.”[2]
Cincos sentidos: representação das virgens
Diz São Jerônimo: “As cinco virgens sábias e as cinco néscias podem ser interpretadas como os cinco sentidos, dos quais uns caminham com presteza rumo às moradas celestes e desejam as coisas elevadas, e outros, por terem ávido apetite da imundície terrena, carecem do incentivo da verdade para iluminar o coração. Da vista, do ouvido e do tato, em sentido espiritual, foi dito: ‘O que vimos, o que ouvimos, o que com nossos olhos contemplamos e nossas mãos apalparam’ (I Jo 1, 1); sobre o paladar: ‘provai e vede como o Senhor é suave’ (Sl 33, 9); e sobre o olfato: ‘Atrás da fragrância de teus perfumes corremos’ (Ct 1, 3); e também: ‘somos o bom odor de Cristo’ (II Cor 2, 15)”.[3]
Bem podemos considerar que o azeite necessário para que cada um dos sentidos se mantenha “aceso” à chegada do noivo seja a intenção com que realizamos nossos atos. Com que intenção estou utilizando meus sentidos, recebidos para dar glória ao Criador? É mister estar sempre atento a este ponto, pois como adverte o Evangelho “Não sabeis qual será o dia, nem a hora”(Mt 25,13), quando menos esperarmos Deus poderá nos pedir contas de todos os bens recebidos d’Ele.
Outro aspecto interessante da parábola é que todas as virgens cochilaram. Esse sono pode ser interpretado como uma figura da nossa passagem dessa vida terrena para a eternidade. Entretanto, havia uma diferença decisiva entre elas: cinco virgens possuíam uma reserva de azeite — as intenções que colocaram em seus atos durante suas vidas —; as outras cinco, carecendo do combustível, precisaram sair à procura do azeite e, por isso, não se encontravam presentes quando o noivo chegou…
A parábola nos ensina, assim, que não basta praticar atos exteriormente bons, é necessário que sejam animados por uma intenção orientada para Deus. Não podemos deixar para o último instante a preparação de nossa alma para o encontro definitivo com o Senhor.
Entretanto tal é o amor de Deus por nós que Ele nos concedeu a intercessão não de uma virgem, mas da Virgem das virgens, Sua Mãe Santíssima. Que Ela nos ajude a realizar todos os nossos atos com o desejo de glorificar ao Seu Divino Filho e de estarmos a postos para a chegada d’Ele.
Por Kaio Calixto
[1] Cf. TUYA, OP, Manuel de; SALGUERO, OP, José. Introducción a la Biblia. Madrid: BAC, 1967, v.II, p.312-313.
[2] CLÁ DIAS, João Scognamiglio. O inédito sobre os Evangelhos. Città del Vaticano: LEV; São Paulo: Lumen Sapientiæ, 2013, v.II, p.441.
[3] SÃO JERÔNIMO. Comentario a Mateo. L.IV (22,41-28,20), c.25, n.58. In: Obras completas. Comentario a Mateo y otros escritos. Madrid: BAC, 2002, v.II, p.353; 355.






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