Bispo e cardeal chineses defendem a “sinização” da Igreja
A lealdade ao Partido Comunista acima da fidelidade a Cristo: o que disseram os bispos de Pequim e Hong Kong em Roma.
Foto: Vatican News
Redação (06/11/2026 15:29, Gaudium Press) No dia 5 de novembro, na Pontifícia Universidade Urbaniana, em Roma, o arcebispo de Pequim e presidente da Associação Patriótica Católica Chinesa, Joseph Li Shan, e o Cardeal Stephen Chow SJ, bispo de Hong Kong, defenderam abertamente que os católicos chineses devem lealdade ao governo comunista — ateu e totalitário — e devem obedecer às leis estatais que regulam de forma asfixiante a religião na China.
A conferência comemorava o centenário da consagração dos primeiros bispos católicos nascidos na China. Não é difícil imaginar o que aqueles pioneiros pensariam das declarações de seus sucessores.
O discurso do arcebispo Li Shan
O arcebispo Li apresentou as normas do regime chinês como algo positivo. Segundo ele, essas regras “estabelecem os limites legais para a atividade religiosa e garantem plenamente a evangelização e o cuidado pastoral normal da Igreja, bem como os direitos e interesses legítimos dos fiéis”.
Ele descreveu a revolução comunista de 1949 — que chegou ao poder após 22 anos de guerra civil e milhões de mortes — como “a fundação de uma nova China” que “mudou completamente a situação em que a Igreja na China dependia de forças políticas ocidentais”.
Segundo Li, a Igreja, “mantendo-se fiel à essência da fé e conservando intactas sua doutrina básica e sua disciplina canônica”, deveria encontrar o modo de se adaptar melhor “às políticas e leis do governo chinês sobre a liberdade de crença religiosa, criando um novo tipo de relação Igreja-Estado com características chinesas”. Essa, disse ele, “se tornou uma questão que todos os cristãos tinham de resolver”.
Os católicos chineses, acrescentou, “abraçaram a recém-nascida China socialista e empreenderam um caminho de desenvolvimento baseado no amor à pátria e no amor à Igreja, uma Igreja com independência, autogoverno e autogestão”.
O arcebispo ligou a política de “sinização” ao Sínodo sobre a Sinodalidade, afirmando que, “assim como o mais recente Sínodo dos Bispos promoveu o ‘caminhar juntos’, todos os assuntos da Igreja na China são geridos de maneira conjunta pelo clero, pelas religiosas e pelos fiéis chineses, e assim todas as obras sagradas da Igreja estão florescendo”.
“A Igreja na China, que no passado esteve condicionada por estruturas coloniais, tem uma experiência inesquecível a esse respeito. Este é, precisamente, o sentido da sinização da Igreja que propomos hoje”, declarou. E enfatizou: “não é um acréscimo externo à Igreja Católica, como se fosse algo opcional, que se pudesse fazer ou não, mas um elemento intrínseco à catolicidade da Igreja”.
O discurso do Cardeal Stephen Chow
O Cardeal Chow afirmou que o principal desafio dos católicos chineses é ser, ao mesmo tempo, patriotas e crentes, “leais ao nosso governo e leais à nossa fé”. Um dos desafios da Igreja na China, disse, é conciliar a condição de “patriotas e cidadãos chineses com a de membros fiéis do Povo de Deus”.
Ele defendeu a sinização como forma de inculturação: “A inculturação é o Evangelho transformando uma cultura, enquanto uma cultura, com seus próprios valores e expressões, enriquece nossa fé e nossa vida eclesial”.
Sob o mandato do presidente Xi Jinping, explicou Chow, “está ocorrendo a sinização da religião. Na realidade, a sinização ocorre em diversos âmbitos da vida na China, não só na religião, e certamente não só no que diz respeito à Igreja Católica. Não se dirige especificamente à Igreja Católica, mas a todas as religiões. Trata-se de alinhar [a religião] com a ideologia do Partido Comunista Chinês, os valores socialistas e o espírito patriótico”.
A principal preocupação do governo chinês, segundo o cardeal, é que a religião possa ser usada como “veículo para a intervenção estrangeira”. “As religiões e outros setores devem ter esse espírito patriótico. Para o presidente Xi, todas as religiões na China devem estar alinhadas com a política e a cultura chinesas, e essa é a única maneira de manter a estabilidade da religião na China”.
Chow terminou comparando a interculturalidade com a sinodalidade: “Quando olhamos essa dinâmica intercultural, vemos que ela compartilha muito com a sinodalidade… quando nos encontramos uns com os outros, temos de ver como nos tornarmos verdadeiros cristãos e verdadeiros chineses”. “É por meio de um compartilhar genuíno e de uma escuta respeitosa e ativa que podemos chegar a nos encontrar. Chegamos a identificar as convergências, e também podemos apreciar as divergências”.
A “sinização” e o acordo secreto Vaticano-China
A política de sinização exige, na prática, que clérigos e leigos católicos reconheçam e aceitem a supremacia da autoridade estatal e da doutrina do Partido Comunista sobre a hierarquia e o ensinamento da Igreja.
Essa política está intimamente ligada ao acordo secreto de 2018 entre o Vaticano e o governo da República Popular da China, que tentou restabelecer a unidade entre a Igreja Católica e a Associação Patriótica Católica Chinesa — uma estrutura cismática e controlada pelo Partido. O caminho escolhido foi permitir que órgãos do Estado indiquem os candidatos ao episcopado, contrariando disposições do Concílio Vaticano II.
O acordo foi renovado em 2020, 2022 e 2024, nesta última ocasião por um prazo de quatro anos.
A perseguição continua
Desde 1949, milhares de bispos, sacerdotes e fiéis católicos desapareceram, foram presos, torturados ou morreram nas mãos do regime comunista chinês. A perseguição não se limita aos católicos (tanto da Igreja clandestina quanto, em menor grau, da oficial), mas atinge todos os cristãos e outras religiões: muçulmanos, budistas, praticantes do Falun Gong e demais.
A repressão anticristã segue a todo vapor: crucifixos são removidos dos templos, cartazes com frases de Xi Jinping são colocados no interior das igrejas, versões da Bíblia adaptadas à ideologia comunista são difundidas. Em 2017, o regime proibiu menores de idade de entrar em igrejas, assistir a serviços religiosos e se unir a grupos cristãos, mesmo acompanhados dos pais.
Em 2025, a Administração Nacional de Assuntos Religiosos do Partido Comunista Chinês proibiu cidadãos estrangeiros de participar de atos de culto junto com chineses e exigiu que todos os visitantes reconhecessem a “independência nacional” das igrejas e comunidades de fé chinesas. As normas determinam que os estrangeiros “respeitem as leis, regulamentos e normas do país, acatem o princípio de independência e autogestão religiosa da China e aceitem a supervisão legítima do governo chinês”. As liturgias devem ser celebradas apenas em locais oficialmente reconhecidos e presididas por ministros chineses autorizados. Um estrangeiro só pode presidir em espaço não reconhecido em circunstâncias excepcionais e com permissão oficial.
O predecessor do Cardeal Chow em Hong Kong, o Cardeal Joseph Zen, foi preso em 2022 sob a acusação de conluio com potências estrangeiras e, no final, condenado por não ter registrado corretamente um fundo de ajuda humanitária do qual era administrador. Nos últimos tempos, o assédio estatal aos católicos tem aumentado em várias regiões da China.
As declarações do Cardeal Parolin
Na mesma conferência, o Cardeal Pietro Parolin, secretário de Estado do Vaticano, respondeu a perguntas da imprensa sobre o acordo com a China. Ele afirmou que um dos principais desafios é conciliar “o ser chinês, com todas as características específicas que isso implica, com uma comunhão profunda com o Papa e a Igreja universal. Que hoje, nesta ocasião, haja dois bispos chineses presentes nos enche de alegria, precisamente porque isso vai nessa direção”.
“Todos os acordos são imperfeitos, e o relativo à China não é exceção”, disse Parolin. “Ainda mais porque não foi um acordo simples, dada a complexidade das situações e condições em que nos tocou, e continua tocando. Mas o caminho está aberto… Assim, sigamos adiante, tentando aperfeiçoar o que é imperfeito. Embora a perfeição não seja deste mundo”.
As declarações de Li Shan e Chow revelam com clareza o preço que parte da hierarquia chinesa está disposta a pagar para sobreviver sob o regime: subordinar a liberdade da Igreja à soberania absoluta do Partido. A pergunta que fica é se esse “caminho aberto” realmente conduz à comunhão com a Igreja universal ou a uma forma cada vez mais profunda de submissão ao Estado ateu.




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