Um milagre eucarístico no Peru?
Milagre eucarístico de Eten, no Peru: “As aparições que o Senhor se dignou realizar milagrosamente na hóstia, manifestando-se sob forma humana, foram reais e verdadeiras”.
Redação (03/11/2026 12:14, Gaudium Press) Os chamados milagres eucarísticos impressionam e atraem a atenção dos fiéis. Um dos que mais se interessaram por esses fenômenos foi São Carlo Acutis, recentemente canonizado, que reuniu um impressionante catálogo de milagres e se dedicou a divulgá-los nas redes sociais. Deus o chamou ao Céu ainda na adolescência, para que contemplasse sua presença real, já não sob os véus do pão e do vinho, mas na visão direta, face a face, por toda a eternidade.
Ao tratar dos milagres eucarísticos, convém recordar, antes de tudo, que o milagre por excelência é a própria transubstanciação. Entretanto, a Divina Providência permitiu que outros fenômenos sobrenaturais se manifestassem em torno das hóstias consagradas, com o propósito de estimular e fortalecer o culto ao Santíssimo Sacramento. Alguns desses acontecimentos são reconhecidos pela Igreja e amplamente conhecidos, como o milagre de Lanciano, na região italiana dos Abruzos. Outros, porém, são menos divulgados, como o de Eten, no litoral norte do Peru, sobre o qual a Santa Sé ainda não se pronunciou oficialmente.
O milagre eucarístico de Eten
Está prevista para este mês de novembro uma viagem apostólica do Papa Leão XIV ao Uruguai, à Argentina e ao Peru. Neste último país, o Pontífice visitará Chiclayo, diocese da qual foi bispo. O que poucos sabem é que, na cidade de Eten, pertencente a essa mesma circunscrição eclesiástica, ocorreu um extraordinário prodígio há quase quatro séculos. Trata-se de um acontecimento documentado por testemunhos da época e cuja memória foi preservada por uma longa tradição de devoção.
Voltemos ao que registram os documentos históricos.
Corria o ano de 1649. A humilde paróquia de Eten, confiada aos frades franciscanos, era habitada, em sua maior parte, por indígenas mochicas.
O chamado milagre eucarístico de Eten compreende duas manifestações do Menino Jesus em uma hóstia consagrada. A primeira ocorreu em 2 de junho, ao término das Vésperas da solenidade de Corpus Christi. Quando a hóstia estava prestes a ser colocada no sacrário, surgiu nela a imagem do Menino Jesus. O fenômeno foi testemunhado pelo prefeito, por religiosos e pelos fiéis que lotavam a igreja.
Segundo os registros preservados em 42 fólios no Arquivo do Convento da Província Franciscana dos Doze Apóstolos do Peru, a imagem representava:
“Um menino da cintura para cima, com rosto e corpo humanos, cabelos louros e vestes roxas […] Todo o povo exclamava: ‘Milagre! Milagre!’ Tocaram as chirimías,[1] os clarins e as trombetas, enquanto os sinos repicavam […]”.
Durante três semanas, um notário eclesiástico recolheu depoimentos sobre o acontecimento.
Pouco mais de um mês depois, em 22 de julho daquele mesmo ano, por ocasião da festa de Santa Maria Madalena, padroeira da localidade, uma multidão acorreu à igreja, atraída pelas notícias do prodígio anterior. Após a Missa, realizou-se a procissão eucarística, ao término da qual a hóstia foi novamente depositada no sacrário.
Naquela tarde, os franciscanos abriram o sacrário e retiraram o Santíssimo Sacramento com toda a reverência, colocando-o em seu lugar de exposição para a adoração dos fiéis. Imediatamente, formou-se sobre a sagrada hóstia o busto do mesmo Menino Jesus. Em seguida, apareceram três corações, que simbolizavam a Santíssima Trindade. A aparição durou aproximadamente 15 minutos.
Os autos de 25 de junho e 21 de setembro de 1649, redigidos pelo licenciado e sacerdote Fernando de la Carrera, juiz eclesiástico designado pela Igreja para examinar e investigar o acontecimento, registram o seguinte:
“As aparições que o Senhor se dignou realizar milagrosamente na hóstia, manifestando-se sob forma humana, foram reais e verdadeiras e, como tais, devem ser acreditadas, merecendo plena fé, conforme atestam os testemunhos prestados sob juramento. São pessoas dignas de toda credibilidade, particularmente o senhor cura e vigário, doutor Jerónimo de Silva Manrique, a quem se deve dar plena fé e crédito por sua virtude, religiosidade e condição pessoal”.
O processo original e suas cópias encontram-se na Biblioteca Vaticana, no Arquivo Geral das Índias, em Sevilha, na Espanha, e na biblioteca do Convento de São Francisco, em Lima.
O reconhecimento da devoção e a atuação de Leão XIV
“É o único milagre eucarístico no Peru e alcançou repercussão mundial graças ao beato Carlo Acutis, que, após minuciosa investigação, o destacou em suas redes sociais como um dos milagres eucarísticos ocorridos no mundo”, declarou o cardeal Robert Prevost quando ainda era prefeito do Dicastério para os Bispos.
Em 13 de fevereiro de 2019, quando era bispo de Chiclayo, Dom Prevost entregou ao Papa Francisco um documento contendo a história da devoção ao Menino do Milagre de Eten. O material reunia 20 mil testemunhos de fiéis e tinha como objetivo solicitar que a Igreja reconhecesse Eten como uma “Cidade Eucarística”.
Aqueles que desejarem conhecer melhor o milagre podem consultar os materiais disponibilizados pela Paróquia Santa Maria Madalena de Eten e pelo site da Conferência Episcopal Peruana, que também abordou o milagre por ocasião do lançamento de um documentário recente sobre o tema.
Outro episódio significativo ocorreu em 23 de outubro passado. Durante uma audiência com os participantes de um congresso realizado na Universidade Gregoriana, por ocasião dos 150 anos de sua Faculdade de Direito Canônico, um sacerdote presenteou o Papa com o livro Itinerário de Fé: O Menino de Eten chega a Lima e Callao. A obra narra uma recente peregrinação do Menino de Eten por paróquias dessas duas circunscrições eclesiásticas.
É significativo que, em uma cristandade ainda nascente, como era o Vice-Reino do Peru naquela época, tenha ocorrido uma manifestação sobrenatural tão extraordinária, que contribuiu para consolidar a fé dos fiéis, especialmente no que diz respeito à Eucaristia.
No Peru, assim como em toda a América Latina, as devoções ao Santíssimo Sacramento, à Santíssima Virgem e ao Papa, introduzidas pelos missionários espanhóis, portugueses e de outras procedências, possuem raízes profundas. Constituem um sinal de esperança para o futuro cristão do continente, que, apesar das sucessivas crises e dificuldades, continua a despontar e a se afirmar.
A aprovação formal desse milagre eucarístico está agora nas mãos de Leão XIV. Eten, o Peru e toda a Igreja aguardam com expectativa.
Por Pe. Rafael Ibarguren, EP
[1]É um termo espanhol para um tipo de instrumento de sopro de madeira semelhante a um oboé






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