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A necessidade, a facilidade e os carrinhos de bebê

Há um ponto fatal que impede o desenvolvimento: o uso desregrado das facilidades inibe certas contingências essenciais na formação do ser humano.

Foto: Sumaid pal Singh Bakshi/ Unsplash

Foto: Sumaid pal Singh Bakshi/ Unsplash

Redação (31/10/2026 14:59, Gaudium Press) Convidei um amigo para estar em minha casa. Era uma tarde de domingo, e o clima estava suave e ameno. A natureza parecia descansar de sua faina semanal, e o sol ainda deitava seus últimos raios quando começamos a conversar.

Girava o diálogo em torno daqueles temas corriqueiros desde a chegada do homem à terra: política, guerra, economia etc. Passamos assim por volta de uma hora. Nesse ínterim, o astro-rei já havia desaparecido no horizonte, e todo panorama parecia dormir. Então, o objeto de nossa conversação assumiu aos poucos a gravidade da noite.

 Afirmávamos não ter havido na história desenvolvimento tecnológico comparável ao da nossa época. Eu ponderava até ter havido paralelos no decorrer da humanidade, como na civilização egípcia. O fato de os egípcios terem erguido aquelas enormes pedras e as transportado por distâncias quilométricas nos deixa realmente pasmos, pois nossos guindastes modernos talvez realizem esse prodígio com dificuldade. O modo de cortar as pedras com a perfeição de um laser e a perfeita matemática empregada na construção das pirâmides são igualmente impressionantes. Todavia, isso se explica mais pelo mistério do que pela tecnologia. Portanto, salvo algumas analogias, podemos dizer que alcançamos um auge de progresso, gerando, assim, uma série de vantagens e facilidades inerentes a essa evolução.

— Concordo plenamente — anuiu ele —, mas não se esqueça que nem toda a facilidade é vantagem.

Necessidade: mãe do progresso

— Como não?

— Muito simples. A necessidade é um fator essencial do progresso humano. E isso se verifica em todos os campos. Na economia, por exemplo: diante do problema de estabelecer valores e preços, surgiu a necessidade de um objeto representativo de uma determinada quantia, capaz de regular a compra e venda. Por isso, criou-se a moeda.

— E depois vieram as notas, os cheques e os cartões de crédito…

— Sim. Nas construções, inicialmente necessitou-se de um lugar protetor das intempéries, onde a família pudesse se reunir para estar junto do patriarca, então, começaram a armar tendas. Mais tarde, precisaram defender-se das guerras e agruparem-se em sociedade; para tanto construíram cidades fortificadas que…

— E a muralha da China – interrompi, com a sem-cerimônia própria de um descontraído diálogo na boca da noite – que é, então, uma colossal obra da necessidade…

— Tal e qual! No transporte, o homem desejava deslocar-se por distâncias maiores em menos tempo, e se ver livre do tempo e espaço limitados pela velocidade de suas próprias pernas. Por isso, o homem inventou automóveis e aviões. Esses são exemplos de como a necessidade impulsiona o desenvolvimento.

— Está ficando claro.

— Ora, as facilidades têm sua origem nas necessidades – continuou o meu amigo com uma sabedoria que eu desconhecia – e se concretizam no progresso. Por essa razão, mais progrediu a sociedade onde alguém é capaz de manter um diálogo, em tempo real, com alguém do outro lado do mundo do que aquela que se restringe ao envio de uma carta, cuja chegada é incerta.

— Digamos que concordo.

— Contudo, há um ponto fatal que impede o desenvolvimento: o uso desregrado das facilidades inibe certas contingências essenciais na formação do ser humano.

— Desculpe, você sabe que não sou bom de metafísica e este seu discurso já está ficando filosófico.

— Por exemplo – continuou ele pacientemente –, se obrigo uma criança a permanecer num carrinho de bebê até os dez anos de idade, julgando com isso proporcionar-lhe um benefício ao poupá-la do esforço de andar, qual será a consequência? Posso estar condenando-a a passar o resto da vida com as pernas atrofiadas.

— Exato.

— Nesse caso, a facilidade sadia de possuir um carrinho de bebê pode tornar-se um malefício.

— Exato.

— Portanto, a facilidade pode tornar-se uma desvantagem.

— Exato.

— É por isso que, a meu ver, estamos nos atrofiando em consequência do mau uso das facilidades.

O carrinho de bebês adultos

O meu amigo terminara a sua digressão. De minha parte, julgando eu a argumentação procedente, apesar de genérica, e, às vezes, um tanto anacrônica, retruquei-lhe em tom jocosamente amistoso (e, no fundo, não tão convencido):

— Poderia me dar um exemplo de uma facilidade mal utilizada em nossos dias?

Ele retorquiu:

— A própria tecnologia de que falávamos no início é extremamente ilustrativa. A inteligência artificial… Não se trata de uma criança que passa dez anos num carrinho de bebê, mas de um homem que vive toda a sua existência com uma máquina substituindo o seu cérebro. Uma das provas desta possível realidade é que a IA tem assumido muitos campos de ação humana. Basta dizer que boa parte dos processos judiciais em primeira instância no Brasil já é resolvida através da IA e que mais de quarenta mil funcionários do Banco do Brasil tiveram seu trabalho substituído pela IA.

— Coitados…

— Enfim, as facilidades da IA são inúmeras. Basta pegar o celular e pesquisar. Como disse anteriormente, elas são de si um sinal de progresso. Podemos afirmar ser a IA fruto de um desenvolvimento.

— Concordo – acrescentei resolvido a, por fim, falar alguma coisa –, pois o homem tanto progrediu que plasmou uma cópia do principal artifício de seu progresso: a inteligência.

— Pois bem – continuou ele –, o problema não está na IA, mas pode vir dela. De tanto suprir as carências, ela pode começar a gerá-las. Alguém que nasceu em uma sociedade onde a IA assume atividades próprias ao esforço humano nunca terá de fazer esses esforços. Resultado: um homem que não se esforça no exercício de suas qualidades acaba atrofiando-se. Se aplicarmos esse raciocínio em nível global, teremos uma humanidade cujo desenvolvimento de suas próprias faculdades estará comprometido. Aliás, é cientificamente comprovado que esta última geração é a primeira na história a apresentar um nível de QI inferior ao da geração anterior.

— Eu sempre pensei que a nossa geração fosse insuperável.

— É… eu acho que a nossa geração arrasou com o futuro.  O nosso presente decidirá o futuro de nossos filhos e netos.

Minhas conclusões práticas

Depois dessa última consideração, olhei o relógio. Ele já indicava o avançado da hora. Então despedimo-nos.

Sinceramente, não esperava passar de uma conversa sobre chuva e bom tempo para divagações sobre maus tempos vindouros e dilúvios. Até então, preocupava-me com o bem-estar de minha família e, de repente, vi-me responsável pela saúde mental da humanidade.

Enfim, o problema já me estava claro, mas como solucioná-lo?

Simplesmente não usar a IA? Seria uma perda acompanhada de um ganho. Perde-se o auxílio de um “cérebro” para conservar o próprio.

Todavia, a fim de aproveitar uma inteligência sem artificializar a nossa, propus-me a utilizá-la do seguinte modo: usá-la como algo útil, e nunca como indispensável. Não permitir que essa facilidade se torne uma necessidade.

Aí está a verdadeira vantagem.

Por Dante Arruda

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