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O rascunho e a obra de arte

Entre o esboço divino e a obra acabada, a vida espiritual de cada cristão é construída pela graça, pela purificação e pela constante confiança.

Foto: Reprodução

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Redação (31/10/2026 09:40, Gaudium Press) Quem tem um projeto e se lança a realizá-lo guarda sempre uma certa ideia do resultado final. Durante a execução, o autor verifica constantemente se a obra se aproxima de sua intenção original.

A essa regra de sabedoria prática não poderia escapar a Sabedoria Eterna ao nos criar, tendo por meta a nossa plena santificação. Mas em que consiste a santidade consumada? Na beatitude celeste, a qual é atingida precisamente por meio das oito bem-aventuranças proclamadas nesta Solenidade.

No momento em que nascemos, Deus como que nos entrega um “rascunho” de um quadro maravilhoso, o qual deverá ser completado ao longo das nossas vidas – ou mesmo após seu término, no Purgatório – até o acabamento perfeito. Quem, na hora da morte, apresenta seu quadro inteiramente concluído é declarado “bem-aventurado” – a oito títulos – pelo Divino Juiz.

Por exemplo, os puros de coração chegarão à visão claríssima de Deus, promessa cumprida por Ele na vida eterna, mas já iniciada nesta vida. Conforme explica São Tomás, “esses prêmios, de que o Senhor aqui trata, podem ser obtidos de dois modos, isto é, perfeita e consumadamente, e assim apenas na pátria; incoativa e imperfeitamente, e assim pelos que estão a caminho – in via. Por isso os Santos têm um certo começo daquela bem-aventurança”.

Quem não atinge o nível dessa bem-aventurança específica não terá um elevado “grau de visão”, conforme o lumen gloriæ. Na casa do Pai há muitas moradas: alguns verão mais perfeitamente, outros menos. Segundo explana São Boaventura, a nossa natureza está deformada pela culpa, mas reformada pela graça, de modo que devemos purificá-la para subir a Deus.

O mesmo princípio se aplica às outras bem-aventuranças. Os aflitos – Jesus Se refere àqueles que sofrem aflição por amor a Deus, ou seja, a quem se aflige por vê-Lo ofendido, por não O ver amado como merece – serão consolados, nesta vida e na outra, pela confiança a toda prova. O coração deles “repousa em Deus”. Nada os inquieta pois, como afirma Santo Agostinho, “criastes-nos para Vós, Senhor, e o nosso coração está inquieto enquanto não repousa em Vós”.

Assim sendo, o Evangelho das bem-aventuranças nos estimula a impetrar a Deus, com o salmista: “Completai em mim a obra começada” (Sl 137, 8) e “Não me leveis na metade de meus dias” (Sl 101, 25). Esse é o pedido que durante toda a nossa vida devemos fazer ao Divino Espírito Santo, por intercessão de Nossa Senhora.

Eis a realidade: em sua bondade infinita, o Criador nos propõe a cada instante a contribuição da sua graça, sendo por isso mesmo o verdadeiro Autor da nossa santificação. A “obra de arte” espiritual que devemos completar antes de ser convocados a prestar contas é tanto obra sua quanto nossa. A nós cabe, simplesmente, deixar que o Divino Pintor use o “pincel” de nossa alma segundo sua santíssima vontade.

Pe. Mario Beccar Varela, EP

Artigo extraído da Revista Arautos do Evangelho, novembro 2026.

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