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Vaticano admite “imperfeições evidentes” em acordo com a China, mas insiste em diálogo com Pequim

Declarações do arcebispo Paul Richard Gallagher reacendem debate sobre a eficácia da diplomacia vaticana diante das interferências do regime comunista na nomeação de bispos e das restrições à liberdade religiosa.

Foto: chinacatholic.cn

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Redação (29/10/2026 09:43, Gaudium Press) O secretário para as Relações com os Estados da Santa Sé, arcebispo Paul Richard Gallagher, reconheceu publicamente que o controverso acordo entre o Vaticano e a China apresenta falhas evidentes, mas defendeu sua continuidade, argumentando que o entendimento representa um avanço em relação à situação anterior a 2018.

As declarações foram feitas durante um encontro com jornalistas em Roma, na terça-feira (27), e divulgadas pela agência Reuters e pelo jornalista Michael Haynes, do The Catholic Herald.

“Não é fácil, o diálogo não é fácil. As imperfeições do acordo são evidentes, mas existe um compromisso de perseverar no diálogo”, afirmou Gallagher, reafirmando a intenção da Santa Sé de manter essa orientação.

A manifestação é significativa por partir de um dos principais responsáveis pela diplomacia vaticana, em meio às críticas sobre a capacidade do acordo de garantir a autonomia da Igreja Católica diante das autoridades chinesas.

 Um acordo cercado de sigilo e controvérsias

Assinado provisoriamente em setembro de 2018, durante o pontificado de Francisco, o acordo sino-vaticano procurou solucionar um problema histórico: a nomeação de bispos pelo governo chinês sem autorização pontifícia, em paralelo à existência de comunidades católicas clandestinas fiéis a Roma.

O entendimento prevê a participação das autoridades chinesas no processo de escolha dos bispos, mas reserva formalmente ao Papa a decisão final sobre as nomeações. Seu conteúdo integral, entretanto, nunca foi divulgado, dificultando a avaliação independente de suas cláusulas e dos compromissos assumidos pelas duas partes.

Renovado em 2020 e 2022, o acordo foi prorrogado por quatro anos em 2024. Seus defensores argumentam que ele permitiu reduzir as divisões entre católicos vinculados às estruturas reconhecidas pelo governo e aqueles pertencentes à chamada Igreja clandestina. A possibilidade de contar com bispos reconhecidos tanto por Roma quanto pelas autoridades civis é apontada como um benefício pastoral para os fiéis.

Os críticos, por sua vez, questionam o preço dessas concessões, especialmente diante da política de controle estatal sobre as religiões promovida pelo Partido Comunista Chinês.

 Pequim já tomou decisões episcopais sem autorização prévia de Roma

As dificuldades mencionadas por Gallagher não são apenas teóricas.

Em novembro de 2022, as autoridades chinesas promoveram unilateralmente a instalação de um bispo auxiliar na região de Jiangxi, cuja configuração diocesana não era reconhecida pela Santa Sé.

Em abril de 2023, outro episódio gerou controvérsia: a transferência de Dom Joseph Shen Bin para a Diocese de Xangai também ocorreu sem autorização prévia do Vaticano. Posteriormente, o Papa Francisco regularizou a situação, reconhecendo a nomeação.

Esses casos alimentam dúvidas sobre a eficácia dos mecanismos destinados a assegurar a participação da Santa Sé nas decisões episcopais.

Embora novas nomeações episcopais tenham ocorrido durante o pontificado de Leão XIV, continuam as preocupações com a liberdade das comunidades católicas não registradas e com as restrições à formação religiosa. De fato, setores da diplomacia vaticana consideram necessário esclarecer procedimentos relativos às nomeações, reafirmar a competência exclusiva do Papa e ampliar a transparência do entendimento.

A Igreja clandestina continua sendo o principal desafio

Um dos aspectos mais delicados da aproximação diplomática diz respeito aos católicos chineses que, durante décadas, sofreram perseguições e restrições para preservar sua fidelidade à autoridade pontifícia. Essas comunidades enfrentam agora o desafio de conviver com estruturas eclesiásticas oficialmente reconhecidas pelo Estado, em circunstâncias nas quais a autonomia religiosa permanece limitada.

A situação do bispo Peter Shao Zhumin, de Wenzhou, que foi detido em diversas ocasiões sob pressão das autoridades chinesas, exemplifica as dificuldades enfrentadas por pastores que não aceitam integralmente os mecanismos estatais de controle religioso. Também são motivo de preocupação as restrições à participação de menores em atividades religiosas, os obstáculos à educação católica e as exigências de submissão das instituições religiosas às diretrizes políticas chinesas.

Até onde pode ir a diplomacia do diálogo?

O reconhecimento das imperfeições do acordo por Gallagher recoloca uma questão fundamental: até que ponto pode-se considerar bem-sucedida a diplomacia entre a Santa Sé e um governo que continua restringindo a liberdade religiosa?

Do ponto de vista do Vaticano, manter os canais de comunicação com Pequim pode ser compreendido como uma estratégia de longo prazo. A ruptura do diálogo poderia reduzir ainda mais a capacidade de Roma de intervir na escolha dos bispos e de acompanhar a situação das comunidades católicas.

Ademais, é necessário considerar os possíveis benefícios pastorais de nomeações reconhecidas tanto pelo governo chinês quanto pela Santa Sé. Esses avanços, porém, não eliminam as contradições do acordo.

Se o acordo foi concebido para assegurar a autoridade do Papa sobre a nomeação dos bispos, os episódios em que Pequim agiu unilateralmente colocam em dúvida a eficácia de suas garantias fundamentais. A regularização posterior de decisões tomadas unilateralmente pelo governo comunista pode criar o precedente de que Roma acabe aceitando situações impostas em nome da estabilidade pastoral.

Há ainda uma dimensão moral: para os católicos que suportaram décadas de perseguição por sua fidelidade ao Papa, uma aproximação diplomática pode gerar frustração caso não resulte em maior liberdade para a Igreja. O desafio de Leão XIV será, portanto, encontrar um equilíbrio.

A transparência também será decisiva. Enquanto o conteúdo integral do acordo permanecer confidencial, será difícil determinar se as dificuldades decorrem de violações por parte de Pequim, de ambiguidades nas cláusulas ou das próprias limitações da estratégia adotada.

As declarações de Gallagher mostram que a Santa Sé reconhece os problemas. Admitir as imperfeições, contudo, não equivale a demonstrar que elas estão sendo corrigidas.

Quase oito anos após a assinatura, a eficácia do entendimento deve ser avaliada não apenas pela continuidade do diálogo, mas também por seus resultados concretos: a liberdade de evangelizar, formar sacerdotes, educar crianças na fé e permanecer em plena comunhão com o sucessor de Pedro.

Resta saber se a perseverança defendida por Gallagher produzirá essas garantias ou se continuará exigindo concessões cujos benefícios para a Igreja na China permanecem incertos.

Por Rafael Ribeiro

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