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Século XVIII: Revolução nas ideias

A França foi envenenada por ideias contrárias à Igreja e à ordem natural.

voltaire Rousseau

Redação (26/10/2026 15:27, Gaudium Press) Tendo dado livre curso às tendências desordenadas, a França foi envenenada por ideias contrárias à Igreja e à ordem natural.

Citemos alguns exemplos.

Voltaire, por andar com os piores libertinos e escrever hediondos versos e sátiras, foi desterrado de Paris por duas vezes e também por duas vezes aprisionado na Bastilha. Redigiu o infame poema “A donzela”, que é um lamaçal jogado contra Santa Joana d’Arc, a monarquia e a Religião. Apesar disso, foi admitido na Academia Francesa. E o Papa Bento XIV agradeceu amavelmente a Voltaire o envio que lhe fizera de sua peça anticatólica “Maomé ou o fanatismo”. A pedido do Rei da Prússia, Frederico II, visitou essa nação.  Cumulado de riquezas, comprou o castelo de Ferney, onde passou a viver como rei servido por vassalos…

Odiou a Deus e amou o demônio

Voltaire redigiu muitas peças teatrais, contos, novelas e cartas, nas quais propagava ideias revolucionárias e insuflava as paixões desordenadas. Em suas missivas, referindo-se à Igreja Católica, mais de 150 vezes escreveu: “esmaguemos a infame”.

Odiou a Deus e amou o demônio. Escreveu: “amo apaixonadamente meus irmãos em Belzebu… Estou cansado de ouvir dizer que doze homens foram suficientes para estabelecer o Cristianismo e desejo provar que basta apenas um para destruí-lo”.[1]

Apesar dessas abominações, era endeusado por pessoas de classe elevada. Num teatro, após a representação de uma de suas peças, foi carregado aos ombros, e muitos assistentes osculavam suas mãos, roupas e até os cavalos….

Dois meses depois, deitado em sua cama, urrava de dor. Seu ventre parecia abrasado por um fogo interior. Tentou ingerir o que seu corpo ejetara, lançou um grande grito e morreu.[2]

Rousseau negou o pecado original…

Nessa época, indivíduos revolucionários elaboraram uma enciclopédia na qual negavam a doutrina católica e defendiam total liberdade no pensar, falar e agir.

Diderot, um de seus diretores, afirmou que só há felicidade num país onde tudo é permitido, inclusive o incesto. E, numa poesia, escreveu: “Tecendo em suas mãos as entranhas do padre, [os homens] farão uma corda para enforcar o último dos reis”.[3]

As obras de Rousseau se propagaram rapidamente por toda a sociedade. Escreveu-as em estado de transe, sob efeito de uma “iluminação súbita”.

Toda a sua doutrina parte do seguinte princípio: o homem é naturalmente bom, é a sociedade que o corrompe. Tal asserção nega o pecado original.

São Luís Maria Grignion de Montfort escreveu:

Precisamos “conhecer primeiramente e bem, pela luz do Espírito Santo, nosso fundo de maldade, nossa incapacidade para todo bem, nossa fraqueza em todas as coisas, nossa inconstância em todo tempo, nossa indignidade de toda graça e nossa iniquidade em todo lugar.

“O pecado de nossos primeiros pais nos estragou completamente, nos azedou, inchou e corrompeu, como o fermento azeda, incha e corrompe a massa em que
é posto. Os pecados atuais que cometemos, sejam mortais ou veniais, perdoados que estejam, aumentam em nós a concupiscência, a fraqueza, a inconstância e a corrupção, deixando maus traços em nossa alma.

“Nosso corpo é tão corrompido que o Espírito Santo (Rm 6, 6; Sl 50, 7) o chama corpo do pecado, concebido no pecado, nutrido no pecado e só apto para o pecado, corpo sujeito a mil e mil males, que se corrompe sempre mais cada dia, e que só engendra a doença, os vermes, a corrupção.

“Nossa alma, unida ao corpo, tornou-se tão carnal que é chamada carne: ‘Toda a carne tinha corrompido o seu caminho’ (Gn 6, 12). Toda a nossa herança é orgulho e cegueira no espírito, endurecimento no coração, fraqueza e inconstância na alma, concupiscência, paixões revoltadas e doenças no corpo.”[4]

… o pensamento e a propriedade particular

Numa polêmica a respeito de seus escritos, ele afirmou que tomou o partido dos instintos contra a razão.

Em “Discurso sobre a origem da desigualdade”, sustenta que o modelo ideal para a humanidade é o “bom selvagem”, que não pensa e vive em comunidade de bens. Afirma: o homem que pensa é um animal depravado; com a propriedade surgiu a desigualdade, fonte de todas as desgraças humanas.

Propugnando o comunismo, em “Contrato social” declara que o Estado é o senhor de todos os bens.

Em “Confissões”, dando mostras de uma megalomania delirante, diz que ele valia mais que os outros homens.  E narra sua vida desregrada: abandonou os cinco filhos que tivera com sua concubina, viveu durante muitos anos num “ménage à trois” etc.

Em certo momento, abandonou a civilização e foi viver num bosque, onde morreu. Alguns afirmam que ele deu um tiro em sua cabeça, outros que se envenenou com ervas colhidas no local.[5]

Seu túmulo no próprio bosque passou a ser objeto de culto. Até mesmo a Rainha Maria Antonieta o visitou… E suas cinzas foram depositadas no Panteão de Paris, ao lado dos restos de Voltaire.

Precursor do tribalismo

Rousseau foi precursor do tribalismo que hoje se difunde em todo o orbe.

O belga Claude Lévy-Strauss (1908-2009) escreveu “O pensamento selvagem”. Comentando referida obra, Dr. Plinio Corrêa de Oliveira afirma que nela o autor propugna o “pensamento que não pensa e se volta apenas para o concreto. Tal é o preço da fusão coletivista tribal. Ao pajé incumbe manter, num plano místico, esta vida psíquica coletiva, por meio de cultos totêmicos carregados de ‘mensagens’ confusas, mas ‘ricas’ dos fogos fátuos ou até mesmo das fulgurações provenientes dos misteriosos mundos da transpsicologia ou da parapsicologia. É pela aquisição dessas ‘riquezas’ que o homem compensaria a atrofia da razão.

“Da razão, sim, outrora hipertrofiada pelo livre exame, pelo cartesianismo etc., divinizada pela Revolução Francesa, utilizada até o mais exacerbado abuso em toda escola de pensamento comunista, e agora, por fim, atrofiada e feita escrava a serviço do totemismo transpsicológico e parapsicológico…[6]

Compenetrados de nossa fraqueza, peçamos a Nossa Senhora o dom da fortaleza para lutarmos contra as más tendências e ideias que encharcam a humanidade, e a certeza da vitória da Virgem e de seus filhos fiéis contra o demônio e seus asseclas, como Ela prometeu em Fátima.

Por Paulo Francisco Martos

Noções de História da Igreja


[1] ROHRBACHER, René-François. Histoire universelle de l’Église Catholique. Liège: J. G. Lardinois. 1847, v. 27, p. 186.

[2] Cf. LENOTRE G. Existences d’artistes. Paris: Bernard Grasset. 1949, p. 100-103.

[3] CLÁ DIAS, João Scognamiglio, EP. Despreocupados… rumo à guilhotina – A autodemolição do Ancien Régime. São Paulo: Edições Brasil de Amanhã. 1993, p. 236..

[4] SÃO LUÍS MARIA GRIGNION DE MONTFORT. Tratado da verdadeira devoção à Santíssima Virgem. Petrópolis: Vozes. 8. ed. 1974, p. 83-84.

[5] Cf. LENÔTRE, G. Vieilles maisons, vieux papiers. Paris: Librairie Perrin. 1910.

[6] CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Revolução e Contra-Revolução. 9. ed. em português. São Paulo: Associação Brasileira Arautos do Evangelho.2024, p. 281.

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