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Papa Leão XIV reconhece virtudes heroicas de seis novos Veneráveis

Missionários, sacerdotes, um irmão capuchinho ligado ao Padre Pio e uma leiga consagrada estão mais próximos dos altares. 

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Redação (24/10/2026 17:07, Gaudium Press) O Papa Leão XIV autorizou, neste sábado, 24 de outubro, a promulgação de seis decretos que reconhecem as virtudes heroicas de servos de Deus, dando um novo passo em seus processos de beatificação e canonização. A decisão foi tomada durante uma audiência com o Cardeal Marcello Semeraro, prefeito do Dicastério para as Causas dos Santos, e permite que os seis sejam chamados de veneráveis.

Os reconhecimentos abrangem vocações e contextos bastante distintos: dois bispos missionários que dedicaram a vida à evangelização na Ásia e na América do Sul, dois sacerdotes diocesanos italianos, um irmão capuchinho que conviveu com São Pio de Pietrelcina e uma leiga consagrada argentina vinculada ao Movimento dos Focolares.

Embora pouco conhecidos fora de seus ambientes de atuação, esses seis testemunhos revelam diferentes maneiras de viver a santidade: no anúncio do Evangelho em regiões remotas, na formação espiritual dos fiéis, no cuidado dos mais vulneráveis e na fidelidade a Deus em meio às provações.

O que significa ser declarado venerável?

O reconhecimento das virtudes heroicas constitui uma etapa importante no caminho oficial da Igreja para a beatificação e a canonização. Para receber esse título, o candidato deve ter demonstrado, ao longo da vida, a prática das virtudes cristãs em grau considerado heroico, como a fé, a esperança, a caridade, a prudência, a justiça, a fortaleza e a temperança.

A declaração de venerabilidade, entretanto, não equivale à beatificação nem significa que a pessoa já tenha sido canonizada. Em regra, para a beatificação de um venerável, é necessário o reconhecimento de um milagre atribuído à sua intercessão, ocorrido depois de sua morte. A canonização, por sua vez, normalmente requer o reconhecimento de outro milagre, posterior à beatificação.

Com os decretos promulgados neste sábado, os seis processos avançam no discernimento eclesial sobre a santidade de suas vidas. Suas histórias, marcadas pela dedicação a Deus e ao próximo, oferecem também aos fiéis exemplos concretos de como o Evangelho pode transformar a existência cotidiana.

Oreste Marengo: mais de vinte línguas a serviço da evangelização

O salesiano Oreste Marengo nasceu em 29 de agosto de 1906, em Diano d’Alba, na Itália. Ingressou na Sociedade de São Francisco de Sales, fundada por São João Bosco, e, em 1923, partiu para a Índia, com destino à região nordeste, junto com outros 8 noviços. Foi ordenado sacerdote em 2 de abril de 1932, em Shillong, na Índia. A partir de então, dedicou sua vida à missão evangelizadora no nordeste indiano, região caracterizada pela diversidade de povos, idiomas e tradições culturais.

Um dos aspectos mais notáveis de seu apostolado foi sua capacidade de comunicação com as populações locais. Segundo registros salesianos, Marengo falava mais de vinte línguas locais, o que lhe permitia anunciar o Evangelho diretamente às comunidades, sem depender constantemente de intérpretes. Em suas viagens missionárias, visitava aldeias distantes dos principais centros urbanos, procurando estabelecer vínculos com as pessoas e favorecer o crescimento da Igreja.

Em 1951, foi nomeado bispo de Dibrugarh e, em 1964, passou a dirigir a diocese de Tezpur. Posteriormente, assumiu responsabilidades no território missionário de Tura. Seu ministério episcopal esteve ligado à consolidação da presença católica em áreas nas quais a evangelização exigia perseverança, adaptação cultural e formação de lideranças locais.

Um aspecto significativo de sua trajetória foi a disposição de abrir espaço para que a própria Igreja indiana assumisse progressivamente maiores responsabilidades. Ao aceitar afastar-se do governo eclesiástico para favorecer a sucessão por um bispo indiano, Marengo demonstrou que a missão não deveria se limitar à presença de evangelizadores estrangeiros, mas contribuir para o amadurecimento das comunidades cristãs locais.

O missionário morreu em Tura, em 30 de julho de 1998, depois de mais de seis décadas dedicadas à Índia. Sua trajetória recorda que a evangelização exige não apenas zelo apostólico, mas também conhecimento das culturas, proximidade com as populações e disposição para formar comunidades capazes de perseverar na fé.

Friedrich Kaiser Depel: o pioneiro da Bíblia no Peru

Nascido em 24 de maio de 1903, em Dülmen, na Alemanha, Friedrich Kaiser Depel ingressou na Congregação dos Missionários do Sagrado Coração de Jesus, movido pelo desejo de anunciar o Evangelho em terras distantes. Foi ordenado sacerdote em 10 de agosto de 1932, na catedral de Paderborn, e chegou ao Peru em 22 de abril de 1939, desembarcando no porto de Callao.

Depois de anos de trabalho missionário, especialmente em Lima, foi nomeado, em 1957, primeiro prelado de Caravelí, extensa região do sul peruano marcada por montanhas, comunidades rurais dispersas e dificuldades de acesso. A distância entre as localidades e a escassez de sacerdotes e religiosas representavam obstáculos consideráveis para a vida pastoral. Kaiser compreendeu que era necessário formar uma comunidade religiosa capaz de chegar a lugares onde a assistência pastoral e social era insuficiente.

Esse desejo concretizou-se em 22 de junho de 1961, com a fundação da Pia União das Missionárias de Jesus Verbo e Vítima. A congregação nasceu com a finalidade de levar a presença da Igreja às populações dos Andes mais afastadas, por meio da evangelização, da vida sacramental e do acompanhamento das comunidades que dispunham de poucos recursos.

O nome da congregação expressa uma espiritualidade centrada em Jesus Cristo, Verbo encarnado e vítima oferecida por amor à humanidade. A missão das religiosas deveria prolongar, em condições frequentemente difíceis, a presença evangelizadora da Igreja entre aqueles que corriam o risco de permanecer à margem da assistência pastoral.

Kaiser também participou das quatro sessões do Concílio Vaticano II, entre 1962 e 1965, defendendo a importância da atividade missionária. Em janeiro de 1988, sofreu uma embolia cerebral que comprometeu o centro da fala. Mesmo depois de uma vida de intensa atividade, sua trajetória permaneceu marcada pela entrega à vocação recebida. Viveu com constância a virtude da fé e dedicou-se à difusão da Sagrada Escritura, a ponto de ser considerado “o pioneiro da Bíblia no Peru”.

O bispo morreu em Lima, em 26 de setembro de 1993, e foi sepultado na capela das Missionárias em Caravelí. Seu legado missionário continua ligado à congregação que fundou e ao esforço de levar o Evangelho às comunidades mais isoladas do Peru.

Domenico Pogliani: a caridade como centro da vida sacerdotal

Domenico Pogliani nasceu em Milão, na Itália, em 18 de dezembro de 1838. Ordenado sacerdote em 1861, exerceu seu ministério em diferentes funções, inclusive na catedral milanesa, antes de se tornar pároco de Cesano Boscone, localidade nos arredores de Milão.

Ao entrar em contato com a pobreza que atingia numerosas famílias do campo lombardo, Pogliani percebeu a situação de abandono enfrentada por idosos, cegos e pessoas com deficiência, muitas vezes sem acesso a cuidados adequados. Em vez de se limitar à assistência espiritual oferecida pela paróquia, começou a acolher essas pessoas em sua própria residência.

A iniciativa, inicialmente modesta, cresceu até se transformar em uma obra de assistência permanente. Em 1º de junho de 1896, fundou a Casa Sagrada Família, destinado especialmente àqueles que, segundo a terminologia médica da época, eram considerados incuráveis. A instituição ampliou progressivamente sua capacidade de acolhimento e, em 1915, atendia aproximadamente quatrocentas pessoas.

O lema escolhido por Pogliani, Super omnia charitas — “Acima de tudo, a caridade” — sintetizava a espiritualidade que orientava sua obra. Para ele, o amor cristão não poderia permanecer restrito às palavras ou às práticas devocionais: deveria manifestar-se em gestos concretos de acolhimento, sobretudo em favor daqueles que não encontravam amparo na sociedade.

Uma cura que ele atribuía à intercessão de Nossa Senhora do Rosário também teria exercido influência significativa em sua trajetória espiritual e caritativa.

Pogliani morreu em 25 de julho de 1921. A obra que fundou continuou a desenvolver atividades de assistência, mantendo viva a intuição de seu fundador: reconhecer a dignidade de cada pessoa, inclusive daqueles cuja condição física ou social os tornava particularmente vulneráveis.

Alessandro Vitetti: dedicação silenciosa à Igreja local

Alessandro Vitetti nasceu em 12 de outubro de 1915, em Cirò, na região da Calábria, sul da Itália. Foi ordenado sacerdote em 16 de junho de 1940 e desenvolveu praticamente toda a sua atividade pastoral na região de Cariati, dedicando-se à formação dos seminaristas, à direção espiritual e ao serviço administrativo e pastoral da diocese.

Ao longo dos anos, desempenhou diferentes funções: foi formador no seminário, diretor espiritual, chanceler da cúria diocesana, professor e responsável pela Ação Católica. A variedade dessas atividades revela uma vida sacerdotal voltada tanto para a organização da vida eclesial quanto para o acompanhamento pessoal dos fiéis.

Durante o Concílio Vaticano II, realizado entre 1962 e 1965, acompanhou a Roma seu bispo, Dom Orazio Semeraro. Dessa maneira, esteve próximo de um dos acontecimentos mais importantes da história recente da Igreja Católica, período de reflexão sobre a missão evangelizadora, a liturgia, a relação com o mundo contemporâneo e a renovação da vida eclesial.

Sua atuação, contudo, não se limitou às responsabilidades institucionais. Vitetti também se distinguiu pela atenção aos pobres e pela preocupação com a formação espiritual dos fiéis, procurando fazer do ministério sacerdotal um serviço constante à comunidade.

Nos últimos anos de vida, enfrentou um quadro grave de diabetes. Morreu em Cariati, em 24 de fevereiro de 1995.

A trajetória de Vitetti demonstra que a santidade também pode amadurecer longe dos grandes acontecimentos públicos. A fidelidade às tarefas pastorais, a formação das consciências e a disponibilidade para servir constituíram os elementos centrais de sua vocação.

Irmão Daniele Natale: a proximidade espiritual com Padre Pio

Entre os seis novos veneráveis, o irmão Daniele Natale é particularmente conhecido pelos devotos de São Pio de Pietrelcina, o célebre capuchinho que exerceu seu ministério em San Giovanni Rotondo, na Itália.

Nascido Michele Natale, em 11 de março de 1919, nessa mesma cidade, ele cresceu em uma família de agricultores e pastores, marcada por condições econômicas modestas. Quarto de sete filhos, frequentou pouco a escola e passou parte da infância cuidando dos rebanhos.

Ainda muito jovem, conheceu Padre Pio e, aos 14 anos, ingressou na vida capuchinha. Recebeu o nome religioso de Daniele e escolheu permanecer como irmão leigo, sem seguir o caminho da ordenação sacerdotal.

Sua vida foi marcada por enfermidades, períodos de hospitalização e uma intensa dedicação à oração. A proximidade espiritual com Padre Pio tornou-se um aspecto importante de sua história. Em uma de suas enfermidades, ele faleceu e depois voltou à vida graças à intercessão do Padre Pio. Depois deste episódio, Frei Daniele retomou sua vida de apostolado, como fiel discípulo de São Pio que lhe havia feito esta categórica promessa: “Onde estiveres tu, estarei também eu, para onde fores, irei contigo”.

Depois da morte de Padre Pio, em 1968, o irmão Daniele dedicou-se especialmente aos grupos de oração que se multiplicaram sob a influência espiritual do santo. Seu trabalho ajudou a conservar e difundir uma espiritualidade centrada na oração, na confiança em Deus e na participação na vida da Igreja.

Morreu em San Giovanni Rotondo, em 6 de julho de 1994. Em 2015, seus restos mortais foram trasladados para a igreja conventual de Santa Maria das Graças, onde os fiéis podem recolher-se em oração.

O reconhecimento de suas virtudes heroicas chama a atenção para uma forma de santidade que não depende de grandes responsabilidades ou de uma atuação pública extraordinária. Sua vida foi marcada sobretudo pela oração, pela perseverança diante da doença e pela fidelidade à vocação religiosa.

Margarita Bavosi, “Luminosa”: a santidade vivida no cotidiano

A única mulher entre os seis novos veneráveis é Margarita Bavosi, leiga consagrada argentina conhecida pelo apelido de “Luminosa”. Ela nasceu em Buenos Aires, em 19 de setembro de 1941, e teve sua formação espiritual ligada ao Movimento dos Focolares, fundado por Chiara Lubich.

Desde jovem, sentia o desejo de dedicar integralmente a vida a Deus. Aos 21 anos, depois de concluir seus estudos universitários em História, abraçou a espiritualidade dos Focolares, movimento eclesial que busca promover a unidade entre as pessoas e testemunhar o amor evangélico nas relações cotidianas.

O apelido “Luminosa” estava relacionado ao seu temperamento espontâneo e alegre, à maneira otimista de enfrentar as situações e à capacidade de transmitir serenidade às pessoas com quem convivia.

Sua vocação não se limitou a uma experiência espiritual individual. Durante 14 anos, exerceu responsabilidades pelo movimento na Espanha, acompanhando comunidades e contribuindo para a formação de seus membros. Nesse trabalho, procurava demonstrar que o compromisso cristão deveria abranger todas as dimensões da existência.

Segundo os testemunhos reunidos pelo Movimento dos Focolares, Bavosi atribuía a mesma importância à oportunidade de falar diante de grandes públicos e à realização das tarefas mais simples da vida comunitária. Para ela, a santidade não dependia da visibilidade de uma atividade, mas da intensidade do amor com que ela era realizada.

Em 1981, atendendo a um novo impulso espiritual associado à orientação de Chiara Lubich, aprofundou seu compromisso com a vontade de Deus e com a vivência radical do Evangelho, procurando envolver também as pessoas de seu convívio nessa renovação.

Os últimos quatro anos de sua vida foram marcados por uma fibrose pulmonar atípica, enfermidade que progressivamente comprometeu sua saúde. Morreu em Albano Laziale, nas proximidades de Roma, em 7 de março de 1985, aos 43 anos.

Chiara Lubich descreveu sua existência como uma vida impregnada de amor evangélico, vivida intensamente no momento presente e transformada em uma rápida caminhada rumo a Deus.

O reconhecimento de suas virtudes heroicas constitui um testemunho significativo para os leigos consagrados e para todos aqueles que procuram viver a fé em meio às responsabilidades comuns. Sua história recorda que a santidade não exige necessariamente feitos extraordinários aos olhos do mundo, mas uma entrega constante a Deus, manifestada em cada encontro e em cada tarefa.

Seis histórias, uma mesma vocação à santidade

Os seis novos veneráveis viveram em épocas, países e circunstâncias diferentes. Oreste Marengo dedicou-se à evangelização de povos do nordeste da Índia; Friedrich Kaiser Depel procurou alcançar as comunidades isoladas dos Andes; Domenico Pogliani fez da assistência aos mais frágeis o centro de sua missão sacerdotal; Alessandro Vitetti serviu à Igreja local por meio da formação e do acompanhamento espiritual; o irmão Daniele Natale perseverou na oração e na vida religiosa em meio às enfermidades; e Margarita Bavosi testemunhou a força do amor evangélico na vida comunitária.

Suas trajetórias também revelam a diversidade de vocações presentes na Igreja: bispos, sacerdotes, religiosos e leigos consagrados podem responder ao chamado à santidade segundo os dons e as responsabilidades recebidos.

A decisão de Leão XIV não significa que os seis já tenham sido declarados beatos ou santos. Os processos continuam, e o reconhecimento de eventuais milagres atribuídos à intercessão de cada venerável poderá abrir caminho para as etapas seguintes.

Ainda assim, a promulgação dos decretos representa um momento importante para as comunidades religiosas e eclesiais ligadas a esses testemunhos. É também uma oportunidade para dar maior visibilidade a vidas que, embora nem sempre conhecidas pelo grande público, deixaram marcas duradouras na evangelização, na assistência aos pobres e na formação espiritual dos fiéis.

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