Peru: Senhor dos Milagres no Palácio do Governo
No Peru, outubro não é apenas o mês do rosário, é o mês do Senhor dos Milagres.

Fotos: Instagram presidenciaperu
Redação (21/10/2026 09:47, Gaudium Press) Em Lima, o mês de outubro não é apenas uma referência ao Rosário, mas, sobretudo, ao Señor de los Milagros — o Cristo Moreno ou Cristo de Pachacamilla —, a imagem religiosa mais venerada no Peru. Durante o chamado mês roxo, a imagem sai do Mosteiro das Nazarenas (Santuário de Las Nazarenas) em datas-chave, carregada pelas equipes da Irmandade do Senhor dos Milagres, acompanhada pelas sahumadoras (mulheres que vão incensando o caminho percorrido pela imagem do Senhor dos Milagres), pelas cantoras e por uma multidão de fiéis, muitos vestindo o hábito roxo em cumprimento de promessas.
A festa é uma das maiores manifestações de fé católica do mundo. Estima-se que, nos dias principais, entre 1,5 e 3 milhões de pessoas acompanhem os percursos pelas ruas do Centro Histórico de Lima. Em 2005, a Festividade do Senhor dos Milagres foi declarada Patrimônio Cultural da Nação.
Origens da devoção
A história começa por volta de 1651, no antigo bairro de Pachacamilla, habitado principalmente por escravos angolanos. Um deles pintou em um muro de adobe a imagem de Cristo crucificado, com a Virgem Maria aos pés da cruz e Santa Maria Madalena, e o Pai Eterno acima. Em novembro de 1655, um forte terremoto devastou Lima e Callao, mas o muro permaneceu intacto. Tentativas de destruir a pintura fracassaram, e a devoção se consolidou.
Em 1687, outro grande sismo reforçou a fama de milagre. Sebastián de Antuñano impulsionou a confecção de uma cópia a óleo e a primeira saída processional. O terremoto de 28 de outubro de 1746, que destruiu grande parte de Lima e matou milhares, confirmou definitivamente a imagem como protetora da cidade. Desde então, outubro ficou associado à memória desses eventos e à gratidão coletiva.
A Irmandade organiza várias saídas anuais. Em 2026, as datas principais são 3, 18, 19 e 28 de outubro, além de 1º de novembro. O dia 18 (segundo percurso) é tradicionalmente o mais solene: a imagem percorre a Avenida Tacna, os jirones Ica e de la Unión, chega à Plaza Mayor e recebe homenagens das principais instituições do Estado.
O retorno histórico ao Palácio de Governo
Desde 1986, durante o primeiro governo de Alan García, a imagem do Cristo Moreno não entrava no interior do Palácio de Governo. Quarenta anos depois, em 18 de outubro, a tradição foi retomada.
Nesse domingo, a presidente Keiko Fujimori — que assumiu o cargo em 28 de julho — e todo o seu gabinete ministerial receberam a sagrada imagem no Pátio de Honra. O premier Luis Galarreta e os titulares das 16 pastas acompanharam a cerimônia. Muitos portavam, nas lapelas, emblemas do Senhor dos Milagres e velas.
O ingresso do andor, conduzidos pela Quinta Cuadrilla da Hermandad, foi recebido com as honras do Regimento de Cavalaria “Marechal Domingo Nieto”, a escolta presidencial. No pátio, um tapete floral multicolor com motivos alusivos ao Peru recebeu a imagem. Flores decoravam também a entrada do palácio.
Diante do andor, Fujimori se persignou, tocou a estrutura e rezou por alguns momentos. Os ministros fizeram o mesmo. Em seguida, as autoridades colocaram arranjos florais nas cores da bandeira peruana (vermelho e branco) aos pés da imagem, substituindo as flores laranjas e roxas tradicionais. A presidente entregou ainda velas, um escudo nacional e flores brancas em homenagem ao Cristo de Pachacamilla.
Após o ato solene, a procissão retomou o percurso pelas ruas de Lima, passando também pela Prefeitura, pelo Palácio do Arcebispado e pelo Congresso da República. Fogos de artifício acompanharam a jornada, e milhares de fiéis vestidos de roxo lotaram o Centro Histórico.






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