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Suas ruínas profetizam

As Reduções jesuíticas, que se multiplicaram sobre os solos do Paraguai e do Brasil, reuniriam, até o século XVIII, mais de 140.000 nativos. Rumavam para a instauração do Reino de Cristo, mas…

Foto: Geopizza Podcast/ X

Foto: Geopizza Podcast/ X

Redação (20/10/2026 17:36, Gaudium Press) Estamos em pleno séc. XVII, numa zona recentemente povoada entre o Brasil e o Paraguai.

Ainda envoltos na densa escuridão da antemanhã, notamos apenas o solene silêncio do cristão repouso, a silhueta da igreja ao lado de um prédio colossal e, no meio dos edifícios, o responsável pela guarda noturna. Mas façam silêncio, estimados leitores, pois estamos prestes a presenciar o “despertar”.

Bam, bam, bam… Ressoa o som grave e solene do sino.

Estamos num mosteiro? Não, não propriamente.

De repente, ouve-se o rufar de tambores… ah, então trata-se de um quartel? Também não.

Encontramo-nos, na verdade, em uma das recentes reduções jesuítica estabelecidas no sul do Novo Continente.

A vida diária numa Redução

Logo após o despertar, acompanhamos o Padre até a grande praça central, núcleo da vida comunitária e espaço em torno do qual se distribuem todos os prédios. Nela, avistamos duas colunas: numa delas, a imagem de Nossa Senhora; na outra, a do santo padroeiro.

Ainda na tal praça, voltam-se naturalmente nossos olhares para a igreja, ao mesmo tempo grandiosa e simples, num tom vermelho-pálido, localizada no centro de todas as construções. Novamente, ouvimos o repicar dos sinos: é o toque para Santa Missa. A Redução começa, então, a tomar vida inteiramente: os índios dirigem-se ao Santuário, para onde também acorrem muitas crianças.

Terminada a movimentação, entramos na igreja. Homens e rapazes ocupam um lado; senhoras e moças, o outro – essa divisão era sempre bem conservada nas Reduções.

Então a Sagrada Eucaristia se inicia – ainda entre penumbras – com os harmoniosos acordes do órgão e as ressonâncias do violino, das harpas, flautas e oboés que ecoam acompanhados pelas límpidas vozes do coral. A luz d’alva atravessa as vidraças, ora fazendo reluzir os nobres castiçais e os vasos preciosos, ora conferindo novas tonalidades de cores à pintura que se encontra junto ao retábulo. Aliás, aqui entre parênteses, talvez o leitor se surpreenda ao saber que todos esses objetos que estamos vendo foram fabricados pelos próprios índios.

Findo o Santo Sacrifício, saem todos para o café da manhã. Revigorados espiritual e fisicamente, os aborígenes iniciam a vida laboriosa de todos os dias. Os homens dirigem-se aos seus respectivos postos de trabalho – nas horta ou nas oficinas – em meio a cânticos e orações. As senhoras, por sua vez, permanecem em seus lares, onde fiam lã ou algodão, além de cuidarem das criancinhas menores de sete anos. As de idade superior vão para a escola, ou auxiliam nos trabalhos – ninguém perde tempo!

Este “programa” dura menos de seis horas. Ao meio-dia serve-se o almoço, seguido de um período de descanso de duas horas. À tarde, pais e filhos reúnem-se para a instrução cristã e a recitação do Rosário.

No final do dia, toma-se a última refeição. Nesse momento todos se calam num grande silêncio e recolhimento, à espera do nascer do Sol.

Obviamente, esses horários não eram fixos, posto que dependiam das estações do ano e das solenidades litúrgicas, como a Semana Santa, Corpus Christi, Natal ou a festa do santo padroeiro, festejadas solenemente na Redução.

Tais eram as bênçãos recebidas nessas cerimônias que muitos jesuítas, anos depois, ao recordarem esses momentos, ainda seriam assaltados por uma profunda emoção. O Pe. José Cardiel, por exemplo, conta que, quando escrevia sobre as Reduções, não conseguia conter as lágrimas.

Disciplina

Mas há ainda outro aspecto indispensável a ressaltar: a ordem e a disciplina. A Companhia dispunha da ajuda de alguns dentre os próprios nativos, denominados curadores ou prefeitos. Caso algum homem se portasse mal – comendo, por exemplo, o seu boi utilizado no trabalho, sendo preguiçoso ou faltando sem razão à Missa de preceito –, era conduzido ao Padre e recebia um castigo. Cumprida a penitência, o faltoso osculava as mãos do clérigo com muito respeito e agradecia em guarani: “Deus vos pague, Padre, porque me destes entendimento”.[1]

É, em suma, a religião católica apresentada de modo a sacralizar todas as atividades do dia com um extenso e intenso cerimonial. Ou seja, a grande arma, o grande método de apostolado dos jesuítas, era basear-se na grandeza do cerimonial, dentro de uma vida que diríamos monacal, pois com isso já teriam – segundo diziam e confirmavam na prática – as condições para mudar a moral e o tipo humano dos povos indígenas.

Foto: Geopizza Podcast/ X

Foto: Geopizza Podcast/ X

O fim e as esperanças

Assim eram as Reduções jesuíticas que se multiplicaram sobre os solos do Paraguai e do Brasil. Nas trinta Reduções dessas paragens, reunir-se-iam, até o século XVIII, mais de 140.000 nativos. Tratava-se de uma obra heroica que se estenderia, qual magnífico fio dourado, rumo ao Reinado de Nossa Senhora sobre o Novo Continente.

Mas esse caminho ascensional rumo à soberania de Deus sobre a América foi rude e selvagemente cortado por homens infensos à religião, ainda que sob a capa da política. E viu-se o terrível espetáculo de “cristãos” expulsando os sacerdotes, afugentando os aborígenes recém-batizados e derrubando as igrejas e as Reduções.

Entretanto, as pedras das poucas ruínas que sobraram não se calam e bradam até hoje a glória deste passado, anunciando a vitória vindoura destes ideais.

Por Santiago Parodi


[1] CARDIEL, José. Las misiones del Paraguay. Madrid: Historia 16, 1989, p. 129.

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