China: ordenação de mais um bispo
Dom Inácio Ding Zuyao é o nono bispo chinês nomeado pelo Papa Leão XIV desde o início de seu pontificado e o 19º desde a assinatura do acordo Vaticano-China de 2018.

Foto: chinacatholic.cn
Redação (17/10/2026 15:31, Gaudium Press) Um novo bispo católico foi ordenado na China no âmbito do acordo provisório entre a Santa Sé e Pequim sobre a nomeação de bispos. Dom Inácio Ding Zuyao (Ignatius Ding Zuyao) foi ordenado bispo de Haimen, na província de Jiangsu, no dia 15 de outubro, tornando-se o 19º prelado chinês consagrado em plena comunhão com o Papa sob os termos do acordo bilateral vigente desde 2018.
A ordenação ocorreu dois meses após o Papa Leão XIV ter aprovado formalmente sua nomeação, em 24 de agosto, conforme os mecanismos estabelecidos pelo acordo provisório. A Santa Sé anunciou a nomeação no mesmo dia da cerimônia. Autoridades da Igreja oficial chinesa, porém, haviam eleito Ding como bispo-designado de Haimen em 14 de maio. O relatório da Conferência dos Bispos Católicos Chineses (subordinada ao controle do governo da República Popular da China e do Partido Comunista Chinês, não é oficialmente reconhecida pela Santa Sé) confirmou a eleição e a ordenação, mas não fez qualquer menção ao Papa Leão XIV, à aprovação do Vaticano ou ao acordo provisório.

Foto: chinacatholic.cn
A cerimônia de ordenação
A consagração aconteceu na igreja em Qingnian East Road, Nantong, Jiangsu, com a presença de cerca de 400 pessoas, entre clérigos, religiosas e fiéis leigos.
O consagrante principal foi Dom Joseph Shen Bin, bispo de Xangai, escolhido pelo Partido Comunista como uma referência-chave para a Igreja na China, natural de Jiangsu e governou a diocese de Haimen de 2010 a 2023, e é o atual presidente da Conferência dos Bispos Católicos Chineses (não é oficialmente reconhecida pela Santa Sé) e Vice-Presidente da Associação Patriótica Católica Chinesa (ligada ao Partido Comunista). Participaram também Dom John Wang Renlei (Xuzhou), Dom Joseph Xu Honggen (Suzhou), Dom Francis Lu Xinping (Nanjing) e o bispo auxiliar de Xangai Dom Ignatius Wu Jianlin.
A presença de Shen Bin foi especialmente significativa. Ele havia sido transferido de Haimen para Xangai em abril de 2023 por autoridades chinesas, em uma medida inicialmente realizada sem aprovação do Vaticano. O Papa Francisco reconheceu posteriormente a transferência, em julho de 2023, regularizando a situação. Desde então, a diocese de Haimen permanecia vacante.
Como é costume nas ordenações na China continental, o Pe. Yang Yu, secretário-geral, leu o documento de aprovação da Conferência dos Bispos Católicos Chineses, e não uma do Papa (como ocorre em todas as demais dioceses do mundo).
O mais jovem bispo do mundo
Nascido em agosto de 1986, em Qidong, Jiangsu, Inácio Ding Zuyao pertence a uma geração mais jovem de clérigos chineses que assume cargos de liderança. Com 40 anos no momento da ordenação, ele se tornou um dos bispos mais jovens da Igreja Católica (e o mais jovem em atividade segundo algumas análises, com apenas cerca de 15 anos de sacerdócio). Ao observar as datas de nascimento dos bispos nomeados na China em 2026, quatro nasceram depois de 1980. No panorama mundial, entre os mais de 5.400 bispos da Igreja Católica, apenas cerca de 20 nasceram após 1980 — e a maioria deles atua como bispos auxiliares, e não como ordinários de uma diocese.
No processo de nomeações sob o acordo entre Pequim e a Santa Sé, o Papa fica limitado a aprovar ou rejeitar o nome proposto. Assim, fica evidente que os organismos oficiais da Igreja na China estão prioritariamente indicando sacerdotes muito jovens, todos formados e ordenados sob a liderança atual do país.
A formação de Inácio Ding Zuyao começou no Seminário de Sheshan, em Xangai (2001-2004). Em seguida, estudou filosofia e teologia no Seminário Teológico de Pequim (2004-2011), onde obteve o bacharelado. Foi ordenado sacerdote para a diocese de Haimen, em 27 de outubro de 2011.
No ministério pastoral, atuou como pároco em Haimenzhen (2012-2013), Linjiang (2013-2017) e Caojiazhen (2017-2023). Desde fevereiro de 2023, era responsável pela paróquia de Qingnian Donglu, em Nantong, até a nomeação episcopal. Também ocupa cargo na Comissão de Assuntos Eclesiásticos de Jiangsu.
A diocese de Haimen: raízes históricas
A diocese de Haimen tem raízes missionárias que remontam ao século XVII. Um papel importante foi desempenhado pelo jesuíta italiano Francesco Brancati (1607-1671), que evangelizou a região da ilha de Chongming, na foz do rio Yangtzé, com o apoio de leigos chineses ligados à família de Xu Guangqi (discípulo de Matteo Ricci).
Em 11 de agosto de 1926, o Papa Pio XI estabeleceu o Vicariato Apostólico de Haimen, separando território do Vicariato de Nanjing. O primeiro vigário apostólico foi o jesuíta chinês Simon Zhu Kaimin, um dos seis primeiros bispos chineses consagrados por Pio XI em Roma, na Basílica de São Pedro, em 28 de outubro de 1926. Em 11 de abril de 1946, Pio XII elevou o vicariato à categoria de diocese, sufragânea de Nanjing.
Impulsionado por grande zelo missionário, Dom Zhu Kaimin liderou corajosamente o que então era um vicariato apostólico por mais de 30 anos, navegando pela turbulenta era de Mao Zedong. Acabou sendo rotulado de “reacionário” pelos comunistas e morreu em 1960, em uma situação que equivalia a um exílio interno.
Após as dificuldades da Revolução Cultural, as comunidades católicas da região retomaram as atividades pastorais a partir dos anos 1980. A catedral passou a funcionar em Nantong. Em 2010, Joseph Shen Bin foi ordenado bispo da diocese. Em 2012, por ocasião do 85º aniversário da fundação, uma estátua de bronze de Dom Simon Zhu Kaimin foi inaugurada.
A ordenação de Ding ocorre poucos dias antes do centenário da consagração de Zhu Kaimin (28 de outubro de 2026), reforçando o laço histórico da diocese.
O acordo provisório Vaticano-China
O acordo provisório sobre a nomeação de bispos foi assinado em 22 de setembro de 2018, durante o pontificado do Papa Francisco. Renovado em 2020 e 2022 (por períodos de dois anos), foi estendido por quatro anos em outubro de 2024. Seu conteúdo completo permanece confidencial, mas o objetivo central é estabelecer um processo mutuamente aceito para a escolha de bispos na China continental, superando décadas de tensões em que Pequim e a Santa Sé reivindicavam autoridade concorrente sobre as nomeações.
Desde a assinatura, 19 bispos foram ordenados em plena comunhão com o Papa sob os termos do acordo (algumas contagens falam em 21 nomeações, incluindo transferências). Sob o Papa Leão XIV, o ritmo de nomeações acelerou significativamente em comparação com o período de Francisco.
Muitas dioceses chinesas ainda permanecem vacantes (dezenas delas há mais de 25 anos), o que torna cada nova ordenação um passo relevante para a vida pastoral da Igreja no país.






Deixe seu comentário