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Leão XIV precisará de quimioterapia? Oncologista explica cenários possíveis

Em entrevista ao jornal italiano Corriere della Sera, a especialista Silvia Novello explica por que a remoção bem-sucedida do tumor pulmonar ainda não permite determinar se o Pontífice está curado. Exames moleculares e a análise dos gânglios linfáticos serão decisivos para estabelecer a necessidade de novos tratamentos.

Foto: Vatican News

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Redação (16/10/2026 08:46, Gaudium Press) A intervenção cirúrgica a que o Papa Leão XIV foi submetido na terça-feira, 13 de outubro, transcorreu sem quaisquer complicações e permitiu a retirada do tecido canceroso identificado em seu pulmão direito. A notícia trouxe alívio aos católicos que acompanham com preocupação o estado de saúde do Pontífice, mas deixou uma pergunta fundamental ainda sem resposta: a operação será suficiente para tratar definitivamente a doença ou o Papa precisará enfrentar novas etapas de tratamento, incluindo a eventualidade de quimioterapia?

A questão foi examinada nesta quinta-feira, 15 de outubro, pelo jornal italiano Corriere della Sera, em entrevista conduzida pela jornalista Vera Martinella com a oncologista Silvia Novello, uma das principais especialistas italianas em câncer de pulmão. Professora da Universidade de Turim, responsável pela área de oncologia torácica do Hospital San Luigi de Orbassano e coordenadora das diretrizes da Associação Italiana de Oncologia Médica para tumores pulmonares, Novello explicou que o diagnóstico conhecido até agora representa apenas uma parte das informações necessárias para se compreender a real extensão da doença.

O Vaticano confirmou que Leão XIV, de 71 anos, foi diagnosticado com um adenocarcinoma pulmonar, a forma mais frequente de câncer de pulmão. A cirurgia consistiu na retirada do lobo inferior do pulmão direito, procedimento conhecido como lobectomia. Segundo informações divulgadas nesta quinta-feira, “os resultados estão dentro da normalidade. A radiografia do tórax revelou uma boa recuperação do pulmão operado. O Papa realizou suas atividades diárias de forma autônoma. A sessão de fisioterapia incluiu exercícios motores completos”.

Entretanto, a boa evolução pós-operatória não deve ser confundida com uma avaliação definitiva do prognóstico oncológico. A remoção completa da lesão visível representa uma etapa importante do tratamento, mas não elimina automaticamente a possibilidade de que existam células tumorais microscópicas ou fatores biológicos capazes de favorecer uma futura recorrência da doença.

É precisamente essa distinção que a professora Novello procura esclarecer. Segundo a especialista, atualmente não basta identificar o tipo de câncer. É necessário conhecer suas características moleculares, o estágio em que foi diagnosticado e a eventual presença de comprometimento dos gânglios linfáticos. Somente a combinação dessas informações permite determinar se o paciente necessita de tratamentos adicionais e quais medicamentos oferecem as melhores perspectivas.

Entre os elementos considerados decisivos estão alterações genéticas identificadas pelas siglas EGFR, ALK, KRAS e ROS1, além da expressão de uma proteína denominada PD-L1. Embora essas denominações sejam pouco familiares ao público, possuem grande importância na oncologia moderna, pois ajudam a identificar características específicas das células cancerígenas e, consequentemente, selecionar os tratamentos mais adequados para combatê-las.

Os exames são realizados a partir do próprio tecido retirado durante a cirurgia, por meio de técnicas capazes de detectar alterações moleculares. Uma delas é o sequenciamento genético de nova geração, conhecido pela sigla NGS, que permite analisar simultaneamente diferentes genes associados ao desenvolvimento do tumor. A avaliação de PD-L1, por sua vez, pode ajudar a determinar quais formas de imunoterapia serão apropriadas.

Segundo Novello, os resultados desses exames costumam ficar disponíveis em aproximadamente uma semana útil, embora o prazo possa variar em função do laboratório e os procedimentos adotados. A especialista ressalta que existe um tempo técnico necessário para a realização das análises, o que significa que a ausência de respostas imediatas não deve ser interpretada como sinal de agravamento da doença.

A principal informação ainda desconhecida é o estágio do câncer. O cenário mais favorável seria a confirmação de que o tumor estava no estágio I, fase em que a doença se encontra localizada e pode, em determinadas circunstâncias, ser tratada apenas com cirurgia. Nessa hipótese, Leão XIV poderia não precisar de quimioterapia ou de outras terapias complementares, permanecendo sob acompanhamento médico periódico.

Esse acompanhamento, entretanto, não significaria o abandono da vigilância oncológica. A especialista explica que, mesmo nos casos mais favoráveis, os pacientes costumam realizar consultas e exames de imagem durante pelo menos cinco anos após a intervenção. O objetivo consiste em identificar precocemente qualquer eventual sinal de retorno da doença, uma precaução habitual no tratamento de tumores malignos.

Se os exames demonstrarem que o câncer estava em um estágio mais avançado, como o estágio II, o cenário poderá ser diferente. Ainda que a lesão tenha sido completamente removida, os médicos poderão recomendar tratamentos adicionais para reduzir o risco de recorrência e aumentar as possibilidades de cura. A decisão dependerá das características do tumor e das condições gerais do paciente.

Nesse contexto, a quimioterapia continua desempenhando um papel importante. Apesar dos avanços da medicina e do desenvolvimento de medicamentos mais específicos, ela permanece uma das opções utilizadas no tratamento complementar de determinados adenocarcinomas pulmonares. Conforme o caso, pode ser combinada com imunoterapia ou com medicamentos direcionados a alterações moleculares identificadas nas células cancerígenas.

A imunoterapia visa estimular ou restaurar a capacidade do sistema imunológico de reconhecer e combater células tumorais. Já as chamadas terapias de alvo molecular atuam sobre mecanismos específicos relacionados ao crescimento do câncer. Esses avanços ampliaram significativamente as possibilidades de tratamento de determinados grupos de pacientes, permitindo abordagens que não estavam disponíveis há poucos anos.

A radioterapia também pode ser considerada em situações particulares, especialmente quando existem determinados fatores de risco relacionados à extensão da doença. Novello explica que essas decisões não são tomadas isoladamente por um único médico, mas por equipes multidisciplinares que reúnem cirurgiões, oncologistas, radioterapeutas, anatomopatologistas e outros especialistas.

Um dos aspectos mais importantes dessa avaliação é a análise dos gânglios linfáticos retirados durante a operação. Caso não apresentem células cancerígenas, tal fato será um elemento favorável, indicando ausência de comprometimento dos linfonodos examinados. Se houver envolvimento linfonodal, a informação poderá modificar o estadiamento e influenciar diretamente a escolha dos tratamentos posteriores.

A possibilidade de metástases, portanto, não pode ser confirmada nem descartada exclusivamente a partir das informações atualmente divulgadas sobre o Papa. Da mesma forma, não é possível estabelecer uma estimativa individual confiável do risco de recorrência sem conhecer o estágio definitivo e as características biológicas do tumor.

A professora Novello, contudo, identifica elementos encorajadores na situação de Leão XIV. O Pontífice tem 71 anos, apresentava boas condições gerais de saúde e demonstrou capacidade de recuperação rápida após a intervenção. Esses fatores são relevantes porque a condição física do paciente influencia tanto a recuperação cirúrgica quanto sua capacidade de tolerar eventuais tratamentos complementares.

Há ainda uma diferença importante entre a necessidade de novas terapias e a existência de um prognóstico desfavorável. A recomendação de quimioterapia, imunoterapia ou medicamentos direcionados não significa necessariamente que a cirurgia tenha fracassado ou que o câncer esteja disseminado. Em muitos casos, essas intervenções são indicadas precisamente com a intenção de aumentar as possibilidades de cura e reduzir o risco de que a doença reapareça.

Essa distinção merece atenção especial no caso do Papa, cuja saúde passou a ser acompanhada por milhões de pessoas em todo o mundo. A palavra câncer desperta naturalmente preocupação, enquanto a possibilidade de quimioterapia frequentemente provoca receios associados aos efeitos adversos do tratamento. Todavia, a medicina dispõe atualmente de diferentes estratégias terapêuticas, cuja escolha depende de informações clínicas que ainda não foram divulgadas.

A entrevista publicada pelo Corriere della Sera ajuda, assim, a compreender por que seria prematuro afirmar tanto que Leão XIV está definitivamente curado quanto que precisará de quimioterapia. A cirurgia bem-sucedida representa uma notícia positiva, mas o verdadeiro alcance de seus resultados somente poderá ser avaliado quando estiverem disponíveis os exames anatomopatológicos e moleculares.

Por enquanto, a informação mais importante é que o Pontífice apresenta uma recuperação pós-operatória favorável e que existem diferentes possibilidades de tratamento, algumas das quais poderão sequer ser necessárias. O diagnóstico de adenocarcinoma pulmonar é sério, mas não permite, isoladamente, estabelecer o futuro clínico de um paciente.

Nos próximos dias, os resultados dos exames deverão oferecer elementos mais concretos para compreender a situação de Leão XIV. Até lá, a prudência recomenda distinguir cuidadosamente aquilo que os médicos já sabem daquilo que ainda precisam descobrir. O sucesso da operação permite alimentar a esperança, mas a responsabilidade com a informação exige reconhecer que o prognóstico definitivo permanece em aberto.

Por Rafael Ribeiro

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