Estados Unidos: o que revela a nova pesquisa sobre a crença no sobrenatural
“A maioria das pessoas percebe que nossas vidas vão além da existência material. Elas têm uma percepção do sobrenatural e estão buscando respostas para suas perguntas de diversas maneiras”. Dr. John Farquhar Plake.

Foto: Chad Greiter/ Unsplash
Redação (13/10/2026 15:14, Gaudium Press) A Sociedade Bíblica Americana (American Bible Society) divulgou, no sétimo capítulo de seu 16º relatório anual State of the Bible: USA 2026, um panorama detalhado sobre as crenças dos norte-americanos em relação ao sobrenatural. O levantamento, realizado entre 8 e 27 de janeiro de 2026 com 2.649 adultos de todos os 50 estados e do Distrito de Colúmbia (em parceria com o NORC da Universidade de Chicago), investigou crenças sobre Deus, céu, inferno, Satanás, Anjos, demônios, milagres bíblicos e experiências pessoais de ordem espiritual.
A maioria ainda acredita no sobrenatural
Segundo os dados, cerca de 62% dos adultos americanos afirmam acreditar de alguma forma no sobrenatural. Apenas cerca de um em cada oito (13%) declara não crer em Deus; 68% afirmam acreditar em Deus e 20% não estão certos. A crença é mais forte em aspectos “positivos”: 62% creem no céu e 64% em anjos. Já os elementos associados ao mal registram números um pouco mais baixos: 55% acreditam em Satanás, 53% no inferno e 51% em demônios.
Há diferenças demográficas marcantes. Jovens da Geração Z mais novos (21 anos ou menos) relatam níveis mais altos de crença em Deus do que os da mesma geração com 22 a 29 anos. A educação formal, por sua vez, está associada a uma queda acentuada: 74% dos que têm apenas diploma do ensino médio creem em Deus, contra 58% entre os que possuem pós-graduação ou diplomas profissionais. A diferença é ainda maior no que diz respeito aos demônios.
Queda nas doutrinas cristãs tradicionais
Quando a pesquisa se volta para doutrinas centrais do Cristianismo, os percentuais caem. Pouco mais da metade (53%) acredita na ressurreição de Jesus (considerando as respostas “definitivamente” ou “provavelmente” verdadeira). Apenas 49% consideram o nascimento virginal de Jesus ao menos “provavelmente verdadeiro” — a primeira vez que uma grande pesquisa nacional registra esse índice abaixo de 50%. A crença em milagres bíblicos é ainda menor; por exemplo, só 44% acredita na abertura do Mar Vermelho.
Esses números confirmam uma tendência de longo prazo. Em 2014, o Pew Research Center apontava que 73% dos americanos acreditavam que Jesus havia nascido de uma Virgem; em 2017, o índice havia caído para 66%. Em pouco mais de uma década, portanto, cerca de um quarto da população deixou de acreditar nisso. Estudos anteriores, como o do Barna Group de 2007, já registravam patamares bem mais elevados (cerca de 75%).
Entre os cristãos praticantes, no entanto, a adesão permanece praticamente unânime: 97% creem no nascimento virginal, 99% na ressurreição de Jesus e 92% no relato da abertura do Mar Vermelho para que o povo de Israel o atravessasse. O contraste é nítido e mostra que a erosão das crenças tradicionais ocorre sobretudo fora do círculo dos praticantes regulares.
Experiências pessoais e ataques espirituais
A pesquisa também investigou relatos de experiências sobrenaturais. Quase metade dos americanos (48%) afirma ter recebido respostas milagrosas a orações; cerca de um terço (35%) diz ter testemunhado ou experimentado uma cura divina; e mais de um quarto (26%) relata ter sofrido algum tipo de ataque espiritual. Entre os cristãos praticantes, esses números sobem bastante: 90% mencionam orações respondidas, 69% curas divinas e 58% ataques espirituais.
Diante de um ataque espiritual, a prática mais citada pelos cristãos praticantes para enfrentar essa situação é a oração (74%). Em seguida, 36% afirmam ter proclamado a autoridade de Jesus Cristo e 24% recorreram a músicas de louvor e adoração. Para decepção dos pesquisadores da Sociedade Bíblica, a meditação ou a citação das Escrituras foi a opção menos escolhida (apenas 15%).
Um olhar comparativo: o caso dos anglicanos ingleses
Para contextualizar os números americanos, vale recordar uma pesquisa da Christian Research realizada por volta de 2002 (realizada pelo grupo tradicionalista Cost of Conscience). Ela revelou que cerca de um terço dos pastores da Igreja da Inglaterra duvidava ou não acreditava na ressurreição corporal de Cristo, e apenas metade aceitava plenamente a concepção virginal. Em grupos liberais, os índices de descrença eram ainda mais altos. Enquetes posteriores chegaram a indicar que uma parcela pequena, mas existente, de clérigos anglicanos não acreditava nem mesmo na existência de Deus. O contraste com a fidelidade doutrinária dos cristãos praticantes americanos é evidente.
O que esses dados dizem sobre a sociedade americana
Os resultados da Sociedade Bíblica Americana desafiam a narrativa de uma secularização completa e acelerada. Embora as doutrinas cristãs clássicas estejam perdendo terreno entre a população em geral, a maioria dos norte-americanos ainda reconhece a existência de uma realidade espiritual. Muitos buscam respostas fora das estruturas religiosas tradicionais, o que, segundo John Farquhar Plake, editor-chefe da série State of the Bible e diretor de inovação da organização, reforça a responsabilidade das comunidades religiosas de apresentar a fé como chave de compreensão da conexão entre o mundo natural e o sobrenatural.
Em um país onde 62% da população adulta ainda vê algo além da matéria, a queda nas crenças específicas em milagres bíblicos aponta para um cristianismo cultural mais diluído, ao mesmo tempo em que os praticantes mantêm uma fé robusta. O relatório de 2026 descreve uma transformação: menos adesão a dogmas históricos entre a maioria, e uma vivência espiritual intensa — e, muitas vezes, experimental — entre aqueles que se engajam ativamente com a fé.





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