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Austrália: apenas 55% dos católicos creem na presença real de Cristo na Eucaristia

Não se trata dos abusos nem da liturgia. A principal razão pela qual os católicos australianos deixam de ir à missa é que não a consideram uma prioridade, segundo um estudo encomendado pela Conferência Episcopal do país.

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Redação (10/10/2026 08:34, Gaudium Press) Um estudo recente encomendado pelos bispos da Austrália revela um dado preocupante: apenas 55% dos católicos que participaram da pesquisa acreditam que o pão e o vinho consagrados se tornam verdadeiramente o Corpo e o Sangue de Cristo. O número é ainda mais preocupante quando se considera que mais de um quarto dos entrevistados afirma ir à Missa todos os domingos.

O relatório Absent from the Table: Catholics in Australia Who Do Not Regularly Attend Sunday Mass (“Ausentes da mesa: católicos na Austrália que não frequentam regularmente a Missa dominical”), apresentado em 7 de outubro, foi elaborado pelo Centro Nacional de Pesquisa Pastoral da Conferência Episcopal Australiana, sob a coordenação de Trudy Dantis. Os próprios autores interpretam o resultado como sinal de um problema estrutural: “Do ponto de vista eclesial, essas crenças e atitudes não representam meras tendências pastorais, mas um enfraquecimento da fé na Eucaristia, que está no núcleo da crença católica”.

Fé declarada, prática enfraquecida

Paradoxalmente, o mesmo estudo registra níveis relativamente altos de identificação religiosa. 65% dos participantes dizem que a fé é muito importante em suas vidas; mais de três quartos acreditam que Jesus é o Filho de Deus; 64% rezam com regularidade; e 69% afirmam que ser católico faz parte essencial de quem são hoje.

No entanto, o principal motivo apontado para não ir à Missa não é uma crítica à Igreja, mas algo bem mais simples e revelador: ir à Missa, simplesmente, não é uma prioridade.

Uma amostra com praticantes

A pesquisa foi direcionada a católicos maiores de 18 anos que não frequentam a Missa com regularidade (considerada como três ou mais vezes por mês, incluindo a vigília do sábado). Após a depuração, os pesquisadores trabalharam com 1.963 questionários válidos e realizaram entrevistas em profundidade com 67 voluntários entre março e julho de 2025. A divulgação ocorreu por meio das dioceses, párocos, boletins, meios católicos e uma entrevista.

Apesar do foco em não praticantes, 27% dos que responderam declararam ir à Missa pelo menos uma vez por semana (percentual que sobe para 39% entre os entrevistados). Outros 19% vão uma vez por mês, 36% ocasionalmente e 19% nunca. Os praticantes semanais foram excluídos da análise dos motivos de ausência, mas permaneceram nos dados sobre crenças.

A amostra apresenta vieses claros: 69% são mulheres, 80% nasceram na Austrália, e a Austrália Ocidental contribuiu com 24% das respostas, contra apenas 10% de Victoria. O próprio relatório alerta que, por se tratar de participantes autoselecionados, as conclusões não podem ser plenamente generalizadas para o conjunto dos católicos da Austrália.

A indiferença como principal causa

Os motivos de ausência foram classificados, como em um estudo de 2007, em “centrados no participante” e “centrados na Igreja”. O desequilíbrio é gritante. “Ir à Missa não é uma prioridade” foi o motivo principal para 500 dos que responderam — mais que o dobro do primeiro motivo ligado à Igreja, as questões litúrgicas (234); crise de fé (137), problemas com o pároco e outros clérigos (109), mau uso do poder e da autoridade na Igreja (104), fatores estruturais (92), questões familiares (91) e problemas da paróquia como comunidade (90). Sensação de exclusão por normas eclesiais (41) e percepção de irrelevância da Igreja (37) ficaram nas últimas posições.

Entre os temas novos em relação a 2007, o relatório destaca a convicção de que assistir à Missa toda semana é desnecessário para manter a fé. A pandemia de COVID-19 também enfraqueceu o senso de obrigação e transformou a Missa, para muitos, em apenas mais uma forma de se relacionar com Deus. Aparecem ainda dificuldades com sacerdotes nascidos no exterior, falta de Missa semanal em algumas regiões e a ausência de Missa tradicional em latim.

A Eucaristia em questão

Diante dos 55% que creem na presença real, 24% consideram que o pão e o vinho continuam sendo apenas pão e vinho, e 21% não sabem o que crer. Nas entrevistas, as dúvidas ganham voz concreta. Alguns reduzem a Eucaristia a uma refeição comunitária. Outros rejeitam abertamente a doutrina. “Já não posso aceitar a transubstanciação”, afirma uma mulher entre 40 e 44 anos. Outra reconhece comungar por inércia: “Não me importaria nunca mais comungar. Só faço por cumprir quando estou lá”.

Apenas 22% dos participantes recebem o sacramento da Reconciliação. Alguns admitem desconforto em comungar enquanto discordam do ensinamento da Igreja.

As três fases do declínio religioso

O relatório cita um estudo de 2025, publicado na Nature Communications, por Jörg Stolz e colaboradores, segundo o qual o declínio religioso segue três etapas: primeiro se abandona a participação no rito público; depois a religião perde importância pessoal; e, por fim, chega a desafiliação.

Muitos dos pesquisados mantêm outros vínculos com a Igreja: 44% levaram os filhos a escolas católicas, 40% compartilham a fé e 29% atuam como voluntários na paróquia. A escola católica, porém, pesa mais que a própria paróquia: 74% a consideram importante, contra 51% que dizem o mesmo da comunidade local.

As trajetórias pessoais mostram uma curva interessante. Aos sete anos, 79% dos participantes iam à Missa toda semana. A prática cai até os 40 anos e depois volta a subir: 52% aos 50 e 54% aos 60.

Do abuso à questão indígena

Os autores identificam seis fatores de fundo: a crise dos abusos, o desejo de uma comunidade que a paróquia não oferece, uma espiritualidade vivida à margem da Igreja (acelerada pela pandemia), o esgotamento e as prioridades que competem com a prática, o desengajamento dos jovens e as questões indígenas. O relatório situa essa mudança de cenário desde 2007 no contexto da Comissão Real sobre a resposta institucional aos abusos sexuais de menores (2012-2017), do plebiscito de 2017 sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo, do V Concílio Plenário australiano, do Sínodo sobre a sinodalidade e da pandemia.

A conclusão principal é clara: “O afastamento da Missa dominical não é necessariamente uma rejeição da fé, mas sim o reflexo de necessidades comunitárias não atendidas”.

Reflexões sobre a mesa vazia

No prólogo, o bispo de Sale, Dom Greg Bennet, delegado do Conselho Católico Australiano para a Pesquisa Pastoral, observa que as conclusões “não oferecem uma solução única, mas abrem um horizonte pastoral”. Os participantes, segundo ele, pedem para serem vistos “não como ‘afastados’ ou ‘perdidos’, mas como companheiros de peregrinação cujos caminhos de fé seguiram rumos distintos”.

O relatório se encerra com seis reflexões. O arcebispo de Hobart, Anthony Ireland, presidente da comissão episcopal de Doutrina e Moral, recorda uma visita de Santa Teresa de Calcutá ao seu seminário, em que ela pedia insistentemente: “Deem-nos um sacerdote, por mais velho que seja. Deem-nos um sacerdote, por mais desdentado que seja. Deem-nos um sacerdote”. Para Ireland, Cristo presente na Eucaristia “não apenas deve ser crido, mas deve ser amado”. “Alguns dos que faltam à Missa dominical continuam crendo, alguns continuam servindo com generosidade, alguns continuam rezando com profundidade. Mas o amor se apaga quando se apaga a presença”, escreve.

Citando São Paulo VI na Evangelii nuntiandi, ele sustenta que a crise atual “não é apenas de estrutura ou de estratégia, mas de credibilidade”. E sublinha: depois da pandemia, os estádios e os aviões voltaram a encher. “As pessoas sabem perfeitamente voltar ao que valorizam. Então é preciso perguntar por que não voltar à Missa dominical”.

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