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Quarenta anos depois de João Paulo II, por que Leão XIV volta a Assis?

A viagem de outubro poderá oferecer uma indicação importante sobre o modo como Leão XIV pretende equilibrar a abertura ao diálogo inter-religioso e a necessidade de preservar com clareza a identidade cristã.

Foto: Vatican News/ Vatican Media

Foto: Vatican News/ Vatican Media

Redação (07/10/2026 12:16, Gaudium Press) Quarenta anos após um dos encontros mais ousados e discutidos do pontificado de São João Paulo II, Assis voltará a reunir líderes religiosos do mundo inteiro para rezar pela paz. Desta vez, porém, a presença de um Papa na cidade de São Francisco reveste-se de uma coincidência histórica particularmente significativa: Leão XIV retorna ao lugar onde nasceu o chamado “Espírito de Assis” precisamente durante o Ano Jubilar dedicado aos 800 anos da morte do Pobrezinho.

O Vaticano confirmou que Leão XIV estará em Assis no próximo dia 27 de outubro, último dia do encontro “Paz desarmada e desarmante”, que se realizará entre 25 e 27 de outubro. A expressão que dá nome ao evento não foi escolhida ao acaso; foram justamente essas as palavras utilizadas pelo novo Pontífice em sua primeira aparição na sacada da Basílica de São Pedro, em 8 de maio de 2025.

A dimensão do encontro ajuda a compreender a sua importância. Segundo os organizadores, são esperados 384 representantes de religiões, culturas e instituições provenientes de 53 países, com 155 palestrantes distribuídos por 24 fóruns. Leão XIV chegará no último dia e participará de uma oração pela paz com a comunidade cristã na Basílica Inferior de São Francisco. O Patriarca Ecumênico Bartolomeu também fará uma meditação. Em seguida, diante da basílica, o Papa dirigirá sua mensagem ao mundo.

A escolha da data remete diretamente a 27 de outubro de 1986. Naquele dia, João Paulo II realizou algo sem precedentes: convidou representantes das grandes religiões mundiais a Assis para uma Jornada Mundial de Oração pela Paz.

O gesto suscitou entusiasmo, mas também fortes questionamentos dentro da Igreja. O problema teológico era evidente: como reunir cristãos e seguidores de outras religiões para rezar sem transmitir a impressão de que todas as religiões seriam caminhos equivalentes para Deus?

 O próprio João Paulo II antecipou a objeção. No discurso daquele dia, explicou que a reunião não pretendia alcançar um consenso religioso, negociar as convicções de fé ou sugerir qualquer forma de relativismo. Por essa razão, as diferentes religiões tiveram seus próprios espaços de oração. Depois, os seus representantes caminharam em silêncio até a praça diante da Basílica de São Francisco.

Vinte anos mais tarde, Bento XVI julgou necessário voltar exatamente a esse ponto. Ao recordar o encontro de 1986, reafirmou que a iniciativa de João Paulo II não significava relativizar a verdade religiosa. Para Bento XVI, mesmo quando representantes de diferentes religiões se encontram pela paz, é necessário evitar qualquer confusão que possa sugerir que as diferenças religiosas deixaram de importar.

É precisamente aqui que a visita de Leão XIV adquire uma dimensão que ultrapassa uma simples comemoração.

Diálogo inter-religioso e identidade cristã

Pouco mais de um mês antes de viajar a Assis, três dicastérios vaticanos publicaram a nota “Um Caminho de Esperança”, dedicada aos 60 anos da declaração conciliar Nostra aetate. O documento enfrenta diretamente uma das tensões que acompanham o diálogo inter-religioso desde o Concílio Vaticano II: como dialogar sinceramente com outras religiões sem enfraquecer a afirmação cristã de que Jesus Cristo é “o Caminho, a Verdade e a Vida”?

A resposta do documento é significativa. O diálogo faz parte da missão evangelizadora da Igreja, mas deve ocorrer “sem ambiguidade”, evitando tanto o relativismo quanto o sincretismo. A abertura ao outro não exige que o católico abandone a sua identidade. Ao contrário, pressupõe consciência clara dessa identidade.

A mesma nota recupera explicitamente o “Espírito de Assis”, iniciado por João Paulo II, e afirma que as religiões podem recorrer às suas fontes espirituais mais autênticas para combater aquilo que Leão XIV considera uma perversão da própria religião: utilizar o nome de Deus para justificar terrorismo, violência ou guerra.

Portanto, a viagem de outubro poderá oferecer uma indicação importante sobre o modo como Leão XIV pretende equilibrar duas heranças do período pós-conciliar: a abertura ao diálogo inter-religioso e a necessidade de preservar com clareza a identidade cristã.

São Francisco, protagonista espiritual de 2026

Existe, contudo, uma segunda chave de leitura, talvez ainda mais importante, que diferencia Assis de 2026 de Assis de 1986: São Francisco não é apenas o cenário do encontro. Ele é o protagonista espiritual deste ano.

Em janeiro, por vontade de Leão XIV, a Penitenciaria Apostólica proclamou um Ano especial de São Francisco, de 10 de janeiro de 2026 a 10 de janeiro de 2027, em comemoração aos 800 anos de sua morte, ocorrida em 3 de outubro de 1226. O Papa concedeu ainda a possibilidade de indulgência plenária aos fiéis que, cumprindo as condições estabelecidas pela Igreja, peregrinarem a igrejas franciscanas ou lugares de culto dedicados ou ligados a São Francisco em qualquer parte do mundo.

Não se trata de um detalhe devocional separado da mensagem política e religiosa de Assis. O próprio decreto jubilar estabelece uma conexão direta entre São Francisco e a crise contemporânea. O texto recorda que o santo viveu em uma época de guerras, desordem moral e fervor religioso mal orientado e afirma que o mundo atual não é tão diferente daquele encontrado pelo Pobrezinho. Diante da violência social e de uma paz cada vez mais distante, o Ano de São Francisco pretende fazer dos cristãos testemunhas concretas de caridade, reconciliação e paz.

Há aqui uma diferença importante de perspectiva.

Francisco não aparece simplesmente como uma figura universal de fraternidade capaz de aproximar pessoas de diferentes religiões. Para o documento promulgado sob Leão XIV, ele é, antes de tudo, um homem transformado por Cristo, apresentado como exemplo de vida evangélica e de perfeição cristã. A sua paz não nasce de uma negociação entre diferentes verdades religiosas, mas de uma conversão que começa na relação com Deus e desemboca na reconciliação com os homens.

Essa dimensão já havia sido destacada pelo próprio Leão XIV na abertura do Ano Franciscano. Em sua mensagem para as comemorações, o Papa afirmou que a paz é um dom que vem do alto e advertiu contra a ilusão de imaginar que ela possa ser construída apenas pelas forças humanas.

Essa afirmação fornece uma chave particularmente interessante para compreender o encontro de outubro.

Se João Paulo II escolheu Assis em 1986 porque São Francisco era reconhecido mundialmente como símbolo de paz, reconciliação e fraternidade, Leão XIV chega à mesma cidade quarenta anos depois tendo acabado de propor à Igreja inteira algo mais exigente: não simplesmente admirar Francisco, mas imitá-lo.

Até a indulgência plenária concedida para este ano aponta nessa direção. O regente da Penitenciaria Apostólica advertiu que o Jubileu não deveria transformar-se em uma sucessão de celebrações extraordinárias, mas conduzir da comemoração à imitação concreta do santo.

É justamente esse ponto que poderá determinar o significado mais profundo da presença de Leão XIV no encontro inter-religioso.

Como será apresentado São Francisco?

O Papa poderá simplesmente confirmar uma tradição de quarenta anos de encontros pela paz. Todavia, o contexto criado pelo próprio pontificado sugere algo mais complexo. Entre a recente nota vaticana que rejeita explicitamente o relativismo no diálogo inter-religioso e o Ano Jubilar que apresenta São Francisco como homem radicalmente configurado a Cristo, Assis oferece a Leão XIV uma oportunidade para reinterpretar o “Espírito de Assis” a partir do próprio santo que lhe deu origem.

Há ainda um poderoso simbolismo histórico nessa escolha. São Francisco viveu no tempo das Cruzadas e, em 1219, atravessou as linhas de combate para encontrar o sultão Malik al-Kamil. O episódio tornou-se um dos grandes símbolos cristãos do encontro com o diferente. Francisco, porém, não chegou diante do sultão escondendo a sua identidade religiosa. Foi como cristão e missionário. Séculos depois, essa combinação entre convicção e encontro continua a ser precisamente o problema que a Igreja procura resolver no diálogo inter-religioso.

Por isso, talvez a pergunta mais interessante sobre 27 de outubro não seja simplesmente o que Leão XIV dirá sobre a paz. Será necessário observar qual São Francisco aparecerá em seu discurso.

Se o Francisco apresentado pelo Papa for apenas o símbolo universal da fraternidade, Leão XIV estará essencialmente dando continuidade à interpretação de Assis consolidada nas últimas décadas. Se, porém, recuperar o Francisco missionário, penitente e profundamente cristocêntrico apresentado pelo próprio decreto jubilar, a sua presença poderá representar uma tentativa de conferir ao “Espírito de Assis” uma formulação mais explicitamente cristã.

Quarenta anos depois de João Paulo II, portanto, Leão XIV não volta simplesmente ao lugar onde nasceu uma nova etapa do diálogo entre as religiões. Ele chega a Assis no ano em que pediu à Igreja inteira que peregrinasse espiritualmente até Francisco, concedendo inclusive indulgência plenária aos fiéis que o fizerem nas condições estabelecidas pela Igreja. E chega depois de o Vaticano ter reafirmado que diálogo não significa relativismo, que fraternidade não exige renúncia à identidade e que a busca da paz não pode separar-se da busca da verdade.

Em 1986, João Paulo II colocou Assis no centro do diálogo religioso mundial. Em 2026, no oitavo centenário da morte de São Francisco, Leão XIV terá a oportunidade de explicar que significado esse “Espírito de Assis” deve conservar para a Igreja quarenta anos depois.

Por Rafael Ribeiro

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