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Regente Duque de Orléans: talis vita finis ita

Após a morte de Luís XIV, em 1715, seu herdeiro e bisneto Luís XV não assumiu imediatamente o trono, pois era uma criança de cinco anos. Até alcançar a maioridade, em 1723, a França foi governada por seu tio-avô, o Duque de Orleães, como regente.

Duque de Orleães Foto: Wikipedia

Duque de Orleães Foto: Wikipedia

Redação (06/10/2026 10:32, Gaudium Press) Na adolescência, o Duque de Orleães se enlameou frequentando lugares péssimos e teve contatos com elementos ligados à bruxaria. Após assumir a Regência, apoiou os jansenistas.

Nomeou como seu conselheiro o Padre Dubois que seguia as orientações fornecidas por sua amante Madame de Tencin, a qual possuía um famoso salão literário e político, em Paris. Era mãe de d’Alembert, um dos líderes dos revolucionários enciclopedistas.

Apesar de sua vida escandalosa, Dubois foi nomeado Arcebispo de Cambrai e pouco depois o Papa Inocêncio XII o elevou ao cardinalato. Favoreceu a vida corrompida do Regente que o nomeou Primeiro-Ministro.

Descrevendo o Duque de Orléans, o célebre memorialista Duque de Saint-Simon afirma que todos os vícios disputavam nele a primazia. A ambição, a avareza e a libertinagem eram os seus deuses.[1]

Caiu morto, fulminado por ataque de apoplexia

As modas indecorosas se espalhavam na nobreza. O grande pregador Jean-Baptiste Massillon, Bispo de Clermont-Ferrand, num sermão proferido na Corte censurou as damas ali presentes: “É de vós que passam ao povo as modas imodestas, a vaidade dos enfeites, esses artifícios que desonram um rosto onde somente o pudor devia transparecer…”[2]

O Regente residia no Palais-Royal, em Paris, onde eram realizadas ceias nas quais se praticavam obscenidades e até orgias.

Em 1723, estando sentado em uma poltrona no Palácio de Versailles, perguntou à sua concubina, a Duquesa de Phalaris, se acreditava no Céu e no inferno. Ela respondeu que sim, e o Regente disse-lhe: “Então, deveis ser muito infeliz com o gênero de vida que adotais…” E caiu morto, fulminado pela apoplexia.[3] Talis vita finis ita – Tal é a vida, assim também é o fim.

Vê-se como a decadência moral e religiosa da França do século XVIII iniciou-se nas classes mais altas e depois atingiu a burguesia e o povo.

Tendências desordenadas

Ensina Dr. Plinio Corrêa de Oliveira:

Na Revolução gnóstica e igualitária que domina toda a Terra, podemos distinguir três profundidades, as quais cronologicamente até certo ponto se interpenetram: as tendências, as ideias e os fatos.

A primeira delas consiste nas “tendências desordenadas, que por sua própria natureza lutam por realizar-se, já não se conformando com toda uma ordem de coisas que lhes é contrária, começam por modificar as mentalidades, os modos de ser, as expressões artísticas e os costumes, sem desde logo tocar de modo direto – habitualmente, pelo menos – nas ideias”.[4]

“A ação profunda do Humanismo e da Renascença entre os católicos não cessou de se dilatar numa crescente cadeia de consequências, em toda a França. Favorecida pelo enfraquecimento da piedade dos fiéis – ocasionado pelo jansenismo e pelos outros fermentos que o protestantismo do século XVI desgraçadamente deixara no Reino Cristianíssimo – tal ação teve por efeito no século XVIII uma dissolução quase geral dos costumes, um modo frívolo e brilhante de considerar as coisas, um endeusamento da vida terrena, que preparou o campo para a vitória gradual da irreligião. Dúvidas em relação à Igreja, negação da divindade de Cristo, deísmo, ateísmo incipiente foram as etapas dessa apostasia”.[5]

Dessas camadas profundas, a crise passa para o terreno ideológico. Com efeito, como Paul Bourget pôs em evidência em sua célebre obra Le démon de midi, “cumpre viver como se pensa, sob pena de, mais cedo ou mais tarde, acabar por pensar como se viveu”[6].

Livros, figuras, vestidos incitavam à sensualidade

Pio XII fez uma clarividente descrição da sociedade francesa dessa época:

“Nunca uma sociedade foi mais refinada, mais elegante, mais brilhante, mais fascinante. Os mais variados prazeres do espírito, uma intensa cultura intelectual, uma arte finíssima de agradar, uma requintada delicadeza de maneiras e de linguagem, dominavam aquela sociedade externamente tão cortês e amável, mas na qual tudo – livros, contos, figuras, alfaias, vestidos, penteados – convidava a uma sensualidade que penetrava nas veias e nos corações, e na qual a própria infidelidade conjugal quase já não surpreendia nem escandalizava. Essa sociedade trabalhava assim pela sua própria decadência e corria para o abismo cavado pelas suas próprias mãos”.[7]

Vida de salão

Nessa época, nas classes mais elevadas, existia a vida de salão, a qual “consistia em um grupo de pessoas que se reuniam habitualmente em torno de um núcleo fixo. Nas reuniões vinham pessoas que pertenciam a diversos salões e transmitiam o que tinham ouvido em seu respectivo salão.

“Mas o principal da conversa não eram as novidades e sim os pensamentos. A conversa de salão era pensamento apresentado de modo leve, florido, onde entrava uma nota simbólica bonita em cada pormenor. Era a participação de um mesmo modo de ver em profundidade até as bagatelas”.[8]

Entretanto, devido ao orgulho e à sensualidade que corroíam as almas de seus participantes, os salões foram se transformando em propagadores das ideias revolucionárias.

Ateísmo e feitiçaria

Afirma o historiador Hippolyte Taine que, durante a Regência, o ateísmo aumentou drasticamente. A devoção ao Sagrado Coração de Jesus se tornara objeto de brincadeiras. Padres que se portavam dignamente eram vaiados nas ruas. Crianças de seis anos se gabavam de ateísmo. Manifestar impiedade significava “ter espírito”.

Muitos sacerdotes não falavam de piedade ou de Teologia, mas de moral natural, razão e filosofia. Nos sermões, não pronunciavam o nome de Jesus Cristo e sim o do “legislador dos cristãos”.[9]

O único tipo de homem que tem certeza a respeito dos fins últimos de sua existência, do sentido da vida e da razão de ser de todas as coisas, bem como uma inteira convicção dos princípios filosóficos que sustenta, é o que tem Fé sobrenatural, católica apostólica romana.[10]

Perdendo a Fé, os homens se precipitam no espírito de dúvida e tendem a acreditar em feiticeiros, necromânticos, adivinhos, os quais proliferaram nessa época.

Por Paulo Francisco Martos


[1] Cf. CAPEFIGUE, Jean-Baptiste Honoré Raymond. Le Cardinal Dubois et la Régence de Philippe d’Orléans. Paris: Amyot, 1861.

[2] ROBERT, Henri. Os grandes processos da História. São Paulo: Editora Globo. 1964, v. 5, p. 138.

[3] Cf. idem, ibidem, p. 152.

[4] CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Revolução e Contra-Revolução. 9. ed. em português. São Paulo: Associação Brasileira Arautos do Evangelho.2024, p. 59.

[5] Idem, ibidem. p. 41.

[6] BOURGET, Paul. Paris: Librairie Plon, 1914, v. II, p. 375.

[7] PIO XII. Alocução de 14 de janeiro de 1945.

[8] CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. A felicidade da infância. Como se perde? Como se recupera?  In Dr. Plinio. São Paulo. Ano XXIII, n. 269 (agosto 2020), p. 25.

[9] Cf. CLÁ DIAS, João Scognamiglio, EP. Despreocupados… rumo à guilhotina – A autodemolição do Ancien Régime. São Paulo: Edições Brasil de Amanhã. 1993, p. 324-326.

[10] Cf. CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Tristezas e incertezas renascentistas. In Dr. Plinio. São Paulo.  Ano III, n. 22 (janeiro 2000), p. 17.

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