Austrália: aumento alarmante das mortes por eutanásia em Victoria
Desde 2019, quando o estado legalizou o suicídio assistido e a eutanásia, até o final de junho deste ano, um total de 2.188 pessoas puseram fim à própria vida por este meio em Victoria.

Foto: Olga Kononenko/ Unsplash
Redação (05/10/2026 10:44, Gaudium Press) As mortes por eutanásia e suicídio assistido no estado australiano de Victoria registraram um crescimento expressivo nos últimos anos. Segundo o mais recente relatório anual do Voluntary Assisted Dying Review Board, no ano fiscal de 2025-26, 140 pessoas tiveram a vida encerrada por médicos, um salto em relação às 88 do período anterior. Outras 372 morreram pela “autoadministração de uma substância de VAD” (Voluntary Assisted Dying). No total, 512 mortes ocorreram sob o programa, representando 1,1% de todas as mortes no estado — cerca de quatro vezes mais do que no primeiro ano de vigência da lei, em 2019-20.
Esse aumento de aproximadamente 400% em cinco anos ocorre enquanto o Parlamento estadual aprova mudanças que entrarão em vigor em 2027 e ampliarão ainda mais o acesso ao programa. As alterações incluem a possibilidade de profissionais de saúde iniciarem conversas sobre a “morte assistida voluntária” com pacientes (mesmo que estes não peçam), a extensão do prognóstico de vida de seis para 12 meses, a redução dos períodos de reflexão, a eliminação da exigência de avaliações de terceiros em casos de condições neurodegenerativas, a autorização para enfermeiros realizarem os procedimentos e a remoção da necessidade de cidadania australiana ou residência permanente. Além disso, profissionais que objetam conscientemente serão obrigados a fornecer informações sobre o programa.
O relatório também aponta que o número de pedidos de pessoas de origem cultural e linguisticamente diversa permanece muito abaixo do esperado: apenas 7% dos candidatos falam outro idioma em casa, apesar de representarem 33% da população do estado. As autoridades sugerem a necessidade de “compartilhar informações sobre VAD de forma mais equitativa”.
Ao longo de apenas um ano, o número de requerentes de suicídio assistido e eutanásia que não tiveram acesso a cuidados paliativos aumentou de 118 em 2024-25 para 179 em 2025-26, um aumento de mais de 50%.
Esse cenário se soma a preocupações crescentes com programas semelhantes, como o Medical Assistance in Dying (MAID) do Canadá, que passou por expansões sucessivas e já registra números elevados de mortes, com relatos de casos em que famílias alegam que a eutanásia ocorreu contra a vontade do paciente. De fato, em 2024, o governo canadense matou mais pessoas do que os Estados Unidos por homicídios com armas de fogo, sendo a grande maioria delas brancas.
Posição da Igreja Católica
Diante desse avanço, a Igreja Católica tem se posicionado de forma firme e reiterada. Os bispos de Victoria — incluindo o arcebispo de Melbourne, Dom Peter A. Comensoli — publicaram cartas pastorais alertando para os riscos das mudanças. Eles destacam que permitir que profissionais de saúde iniciem discussões sobre eutanásia com pacientes vulneráveis, especialmente em momentos de fragilidade, enfraquece ainda mais as já limitadas salvaguardas. Também criticam a obrigação imposta a quem tem objeção de consciência de fornecer informações sobre o procedimento.
Os bispos argumentam que a verdadeira resposta ao sofrimento não é a eliminação da vida, mas o fortalecimento dos cuidados paliativos de qualidade, acessíveis a todos, inclusive nas regiões mais remotas. Em uma carta de outubro de 2025, lembraram as palavras do Papa Francisco: a eutanásia é frequentemente apresentada de forma falsa como compaixão, mas a verdadeira compaixão consiste em compartilhar os fardos daqueles que enfrentam as etapas finais da vida terrena, e não em pôr fim intencional a ela.
O Catecismo da Igreja Católica (n. 2324) ensina que a eutanásia voluntária, quaisquer que sejam as formas e os motivos, constitui um homicídio e é gravemente contrária à dignidade da pessoa humana e ao respeito devido a Deus, Criador da vida. Documentos como a carta Samaritanus Bonus (2020), da Congregação para a Doutrina da Fé, reforçam que “incurável nunca é sinônimo de incuidável”. A pessoa em fase terminal tem direito a ser acolhida, cuidada e rodeada de afeto. Qualquer cooperação formal ou material imediata com a eutanásia é pecado grave.
A Igreja distingue claramente entre eutanásia (ação ou omissão que causa a morte para eliminar o sofrimento) e a rejeição da obstinação terapêutica (cessação de tratamentos desproporcionados ou extraordinários, aceitando a morte natural sem pretendê-la). Os cuidados ordinários, incluindo alívio da dor, devem ser mantidos até o fim.
Em Victoria, serviços de saúde católicos se recusam a participar do programa de VAD, mantendo o compromisso de cuidado integral até o último momento. Arcebispos como Dom Anthony Fisher, de Sydney, têm insistido que a Igreja deve oferecer alternativas positivas: melhores cuidados paliativos, atenção pastoral, apoio às famílias e ajuda aos cuidadores. “Somos, de longe, os maiores provedores de alternativas à eutanásia”, afirmou.
A expansão da lei em Victoria, com a remoção de barreiras e a inclusão de migrantes temporários, preocupa especialmente por atingir populações mais vulneráveis e por normalizar a ideia de que a melhor resposta ao sofrimento é a morte provocada. A experiência internacional mostra que, uma vez legalizada, a prática tende a se expandir em número e em critérios de elegibilidade.
A Igreja Católica continua a defender a sacralidade de toda vida humana, do início ao fim natural, e a promover uma cultura de cuidado, esperança e solidariedade. Em vez de facilitar a morte, o chamado é a acompanhar, aliviar a dor e valorizar cada pessoa até o último suspiro.





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