Comentário ao Evangelho do XXVII Domingo do Tempo Comum: o perigo vem de dentro, e a solução também
As maiores ameaças à vinha de Deus não são externas, mas brotam do coração dos próprios vinhateiros.

Parábola dos vinhateiros infiéis Foto: Gustavo Kralj
Redação (04/10/2026 12:00, Gaudium Press) Terça-feira, Semana Santa. O Redentor lança uma incisiva parábola aos sumos sacerdotes e anciãos do povo, na tentativa de demovê-los de suas iniquidades. Narra a história de uma vinha – figura da “casa de Israel” (Is 5, 7) e prenúncio da Igreja – arrendada a vinhateiros.
À primeira vista, a alegoria parece sugerir que o maior perigo para o vinhedo seja a infiltração de ladrões. Para repeli-los, a plantação é guarnecida por cercas, alusão ao poderoso amparo do exército angélico. Tais sebes, porém, são insuficientes: os salteadores são ladinos e não medem esforços para inocular-se à sorrelfa no campo. É mister também levantar uma torre de guarda. Eis a eterna advertência: “Vigiai e orai para não cairdes em tentação” (Mt 26, 41), pois Eva, Sansão, Davi e muitos outros sucumbiram pela falta de vigilância.
Nesse cenário, tudo promete prosperidade: as “videiras escolhidas” (Is 5, 2) estão resguardadas por cercas, atalaias e sentinelas, o terreno está desbastado e o lagar produz os melhores vinhos. Agora é possível viajar para o estrangeiro: os vinhateiros cuidarão da vindima e tudo andará bem…
Mas não. O proprietário – Deus – delega a responsabilidade da vinha a alguns escolhidos. Estes, entretanto, apoderam-se dela e maltratam os seus emissários. Por fim, como derradeiro recurso, esse pai de família envia o próprio filho, a fim de recolher os frutos. A continuação resulta espaventosa: os vinhateiros o recebem com inaudita truculência, à virga-férrea até a morte, como vaticínio da Paixão Redentora que sobreviria poucos dias depois.
Assim, o Divino Mestre sugere que a principal ameaça à sua vinha não provém dos inimigos externos, mas dos internos, sobretudo daqueles a quem se confiou responsabilidades. Não são os Dioclecianos e suas perseguições que mais afligem a Igreja; nem os Robespierres e suas guilhotinas; tampouco os Stalins e seus gulags. A ameaça mais grave reside nos traidores de dentro. Entre eles, o mais funesto é aquele que trai a si mesmo. Judas fora chamado desde o início para ser ministro de Deus, agricultor da vinha. Antes de atraiçoar Jesus, porém, traiu a sua própria vocação. Por isso, melhor seria que não tivesse nascido (cf. Mt 26, 24)…
A conclusão da parábola evidencia o dinamismo da graça, jamais desperdiçada: o Reino de Deus é subtraído do Sinédrio – vinhateiros infiéis – e entregue ao novo povo eleito “que produzirá frutos” (Mt 21, 43), ou seja, aos batizados, participantes da própria invencibilidade da Igreja.
E os inimigos da vinha? Sairão ilesos? A resposta emana dos lábios do Salvador – pedra rejeitada pelos construtores – no versículo sucessivo ao trecho deste domingo: “Quem cair sobre essa pedra ficará despedaçado, e sobre quem ela cair, ela o esmagará” (Mt 21, 44). Cristo e seu Corpo Místico não só resistem aos inimigos; reduzem-nos ao pó.
Se Judas tivesse recorrido ao maternal auxílio da Santíssima Virgem, outra seria a história. Ela é a “torre de guarda” que não só nos vigia e nos cerca de carinho e proteção, mas esmaga em todo tempo a cabeça da Serpente (cf. Gn 3, 15). Unidos a Ela, o triunfo sobre os inimigos – inclusive os mais internos – estará sempre garantido!
Por Pe. Felipe de Azevedo Ramos, EP
Artigo extraído da Revista Arautos do Evangelho, outubro 2026.





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