A filha primogênita despertou: Leão XIV, Lourdes e a França que voltou a procurar Deus
A França moderna parecia uma gruta escura, prestes a fechar as portas da fé e a entregar suas catedrais ao turismo.

Foto: Vatican Media
Redação (01/10/2026 14:49, Gaudium Press) A viagem confirmou, mais do que criou, um renascimento católico que os números já anunciavam. Uma Jornada Mundial da Juventude na França é plausível no horizonte, mas ainda não está no calendário. E, no voo de volta, a resposta do Papa sobre o caráter “sistêmico” dos abusos foi cuidadosa, com cada palavra pesada.
Quatro dias, quatro atos
Entre 25 e 28 de setembro, Leão XIV percorreu Paris, Lourdes e Metz, em sua sexta viagem internacional desde a eleição, em maio de 2025. A França recebeu o novo Sucessor de Pedro depois das sete visitas de São João Paulo II e da visita de Bento XVI, em 2008.
No Palácio do Eliseu, o Papa tocou no nervo francês por excelência. Defendeu que a laicidade não é uma ameaça e citou as escolas católicas como espaços de diálogo e respeito. Em Notre-Dame, reerguida das cinzas, exortou a Igreja a priorizar a conversão missionária, tomando a reconstrução da catedral como símbolo de renovação e esperança.
À noite, no Stade de France, a França mostrou o rosto que poucos esperavam. No avião, o próprio Papa destacou o encontro com cerca de 80 mil jovens vindos de todo o país como um dos momentos mais marcantes da viagem. Depois, veio Lourdes, com os doentes. Por fim Metz, onde evocou o legado de Robert Schuman e seu compromisso com a reconciliação e a unidade do continente.
Foi um divisor de águas?
A resposta honesta é que a visita foi a confirmação de uma virada que já estava em curso. Segundo a Conferência Episcopal, 21.386 catecúmenos foram batizados na Páscoa de 2026, entre eles 13.234 adultos, quase 20% a mais que em 2025. Em 2016, eram pouco mais de 4.100 adultos. E o fenômeno rejuvenesce: os jovens de 18 a 25 anos já são 42% dos adultos batizados.
Há prudência nos próprios círculos eclesiais. O sociólogo François Mabille vê no fenômeno, sobretudo, a passagem de um catolicismo de transmissão para um catolicismo de adesão, num país onde o catolicismo como um todo continua a recuar. O arcebispo de Lyon, Dom Olivier de Germay, apontou o verdadeiro desafio: acompanhar esses neófitos ao longo do tempo, para que se tornem discípulos e membros plenos das comunidades.
O divisor de águas, portanto, não está nos números. Está no tom. Leão XIV tirou a Igreja francesa da postura defensiva e a colocou em modo missionário. A prova veio do próprio Papa, quando um jornalista alemão lhe falou de uma Igreja que estaria morrendo na Alemanha. Leão XIV respondeu que o mesmo já se dizia da França no passado, e que bastava ver o que aconteceu naqueles quatro dias. A França virou argumento.
Veremos uma JMJ na França?
Por enquanto, o calendário fala outra língua. No voo, o Papa disse que a única viagem definitivamente programada para o próximo ano é a JMJ na Coreia. Seul recebe os jovens de 3 a 8 de agosto de 2027, e a sede seguinte ainda não foi definida.
A França tem trunfos de sobra: uma juventude que lotou um estádio, uma onda inédita de batismos, a estrutura herdada dos Jogos Olímpicos de 2024, Lourdes como coração espiritual e a memória da JMJ de Paris, em 1997. Os obstáculos também são reais. Há o debate permanente sobre a laicidade e o uso de dinheiro público num evento religioso, e há a lógica da rotação: depois de Lisboa e Seul, a escolha costuma olhar para outros continentes. Minha leitura é que a França entrou de vez no radar para a próxima década, mas uma JMJ francesa logo após Seul seria uma surpresa.
O que o futuro reserva
A França que Leão XIV deixou é, ao mesmo tempo, terra de missão e terra de conflito. O tema do fim da vida atravessou a viagem. No avião, um jornalista do Le Pèlerin lembrou que o Papa tratou do assunto em mais da metade dos discursos e disse, em Lourdes, que o legal não é necessariamente moral, numa referência à recente legalização da eutanásia. O Papa respondeu que não ultrapassou a linha que separa Igreja e Estado, porque defender a vida é aplicar o Evangelho, e não fazer política partidária.
Os próximos anos dirão se a Igreja francesa consegue, ao mesmo tempo, acolher as dezenas de milhares de neófitos, sustentar uma voz pública em defesa da vida sem ser acusada de violar o princípio de laicidade e servir aos migrantes, dimensão marcada pela visita à Maison Bakhita.

Foto: Vatican Media
Capítulo à parte: os abusos, de Lourdes ao voo papal
Antes do avião houve Lourdes. Na Casa Episcopal, o Papa recebeu sete vítimas de abusos cometidos por membros do clero e da Igreja na França, quatro homens e três mulheres, acompanhadas pelo bispo de Amiens, Dom Gérard Le Stang. Segundo as vítimas, o encontro estava previsto para uma hora, mas se estendeu por 1 hora e 57 minutos. O Papa encontrou cada uma delas individualmente e, depois, o grupo em conjunto.
Nem todos aplaudiram. Associações francesas de vítimas consideraram insuficiente o espaço que lhes foi reservado. O Vaticano explicou que o número reduzido foi escolhido para permitir uma troca genuína, como solicitado pelo próprio Leão XIV.
Depois do encontro, uma palavra incendiou a imprensa. As cinco vítimas que falaram aos jornalistas afirmaram que o Papa reconheceu diante delas o caráter sistêmico da violência sexual na instituição. Uma delas, Jérôme Guillement, resumiu assim a visão do Papa: os agressores são indivíduos, mas a forma como agiram durante anos está relacionada a esse caráter sistêmico.
No voo, a pergunta veio direta, feita por Cyriac Zeller, da I.Media, e a resposta de Leão XIV merece ser lida com lupa. O Papa contou que pediu às vítimas que ajudassem a transmitir a outras vítimas a disposição dele e da Igreja de escutá-las e de caminhar com elas. Reconheceu que várias falaram de abuso sistêmico, mas disse preferir outra formulação, referindo-se a algumas organizações da Igreja que, em certos momentos, agiram de modo abusivo enquanto sistema. E acrescentou que o abuso é, antes de tudo, um problema humano, mas que, dentro da Igreja, a vida de fé da vítima é ferida e às vezes pode ser destruída.
O que isso significa? Leão XIV não lançou uma acusação genérica contra toda a Igreja, mas também não se escondeu atrás da tese das “maçãs podres”. Admitiu que houve estruturas que funcionaram de modo abusivo. Para quem acompanha o tema desde o relatório da CIASE, de 2021, a distinção é relevante: desde então, a Igreja na França implementou amplas reformas de proteção e protocolos de compensação financeira. O próximo capítulo não será escrito em coletivas de imprensa, mas na prática, com transparência, reparação e vigilância permanente.

Foto: screenshot/ Paul Larrouturou/ X
Epílogo: da gruta ao mundo
Há 168 anos, numa gruta úmida dos Pirineus, uma menina pobre e analfabeta ouviu uma Senhora que pedia penitência, oração e uma capela. Ninguém acreditou em Bernadette. Hoje, Lourdes recebe milhões de peregrinos todos os anos.
A França moderna também parecia uma gruta escura, prestes a fechar as portas da fé e a entregar suas catedrais ao turismo. Então Notre-Dame queimou, e a França chorou. Notre-Dame renasceu, e a França voltou a rezar. Dezenas de milhares de jovens pediram o batismo. Oitenta mil cantaram juntos em um estádio.
Leão XIV não trouxe à França um milagre. Veio confirmar um milagre que já acontecia em silêncio, como a fonte que Bernadette cavou com as mãos na lama, sem saber que ali brotaria água para o mundo inteiro.
A filha primogênita da Igreja não morreu. Estava adormecida. E, nestes quatro dias de setembro, ouviu de novo a voz de Pedro, levantou a cabeça e se lembrou de quem é.
Por Rafael Ribeiro





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