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Bispo de Berlim diante do declínio da Igreja Católica alemã: já não se trata de nova evangelização, mas de primeira evangelização.

Em Berlim, apenas 35% das crianças, mesmo as de famílias católicas, são batizadas. A fé católica na Alemanha exige “primeira evangelização”, diz arcebispo de Berlim em homilia à Conferência Episcopal.

Foto: screenshot/ Domradio.de

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Redação (30/09/2026 09:52, Gaudium Press) Os bispos alemães estão reunidos em sessão plenária da Conferência Episcopal Alemã (DBK) em Fulda. Durante a celebração eucarística desta quarta-feira, 30 de setembro, o arcebispo de Berlim, Dom Heiner Koch, proferiu uma homilia franca e realista diante de seus irmãos no episcopado. O texto, publicado integralmente por veículos como o kath.net, parte de um contraste marcante e chega a um diagnóstico duro sobre o estado da fé no país.

Koch começou recordando as imagens recentes da viagem do Papa Leão XIV à França. “Fiquei encantado ao ver as fotos”. Só na celebração eucarística de Paris, segundo o prelado, participaram cerca de 800 mil fiéis. “A última vez que celebramos liturgias tão grandiosas e magníficas na Alemanha foi na Jornada Mundial da Juventude de 2005, e com a ajuda de jovens cristãos de todo o mundo”, observou. Em seguida, formulou a pergunta que ecoou entre os presentes: “se o Santo Padre viesse algum dia a Berlim, quantas pessoas participariam da Eucaristia com ele? Quantas manifestações, inclusive de grupos políticos radicais, haveria — como ocorreram durante a visita do Papa João Paulo II exatamente 20 anos atrás?”

A diferença, segundo o arcebispo, não se limita a números. Na Alemanha, especialmente no Leste, a maioria das pessoas “nunca experimentou contato pessoal com a fé e com a Igreja Católica”. Por isso, afirmou Koch, já não se trata de “nova evangelização”, mas de primeira evangelização. A pergunta central que ele lançou aos bispos foi: “como a Igreja e os cristãos podem entrar em contato com as pessoas ao nosso redor de tal forma que, por meio de nossa vida e de nossa fé, a centelha do Espírito de Deus possa se transmitir a elas?”

Três razões para o afastamento

Koch apontou três fatores principais que explicam o distanciamento de tantos alemães da fé cristã e da Igreja:

A ausência de experiência e transmissão da fé nas famílias. Muitas famílias já não participam da vida eclesial há gerações. Não a conhecem nem a compartilham. “Isso vale não apenas para famílias em que ninguém se declara cristão, mas também para aquelas em que pelo menos alguns membros foram batizados”. O dado concreto é impressionante: em Berlim, apenas 35% das crianças são batizadas, mesmo em famílias católicas em que pelo menos um dos pais é católico. Para o arcebispo, esse fato, a longo prazo, é “esse fato representa uma ameaça consideravelmente maior do que muitas questões e problemas da Igreja”.

A ausência de Deus no dia a dia. Em todas as partes as pessoas encontram o “poder do homem”, inclusive o poder de destruir e fazer guerra, talvez até de levar o mundo à ruína. O homem aparece como a força motriz óbvia deste mundo. “Não vejo nenhum Deus. Para Ele já não há lugar”, pensam muitos. A questão da imagem cristã de Deus e do sofrimento, especialmente a miséria que não é culpa do ser humano. “‘Quem ainda consegue rezar: Que apenas o bom Deus decida?’, perguntou certa vez um ateu durante um debate.

As perguntas que surgem são as mesmas de Jó. O livro de Jó narra o sofrimento de um homem justo e inocente. Porém, ao contrário do personagem bíblico, que manteve a fé apesar das dúvidas profundas e da ausência de respostas claras (“O Senhor deu, o Senhor tirou; bendito seja o nome do Senhor”), muitos contemporâneos simplesmente deixam de crer. Koch recordou que Jó reconhecia a incompreensibilidade de Deus. “Jó não rebaixa Deus ao nível da compreensão humana. Deus é sempre também maior e superior a nós. Pelo contrário, apesar da impossibilidade de compreender Deus, afirmava: “Eu sei que meu Redentor vive”.

Diante desse quadro, o arcebispo de Berlim cita a Epístola de Tiago que resume essa imagem de Deus, que cresceu precisamente no sofrimento e na fidelidade diante da adversidade, quando diz de Jó: “Vocês ouviram falar da perseverança de Jó e viram o fim que o Senhor lhes deu, pois o Senhor é cheio de compaixão e misericórdia” (Tg 5,11). Ele aponta que a solução seria “permanecermos fiéis a Deus e acreditarmos que estamos a salvo n’Ele, mesmo que persistam nossas dúvidas e incertezas, bem como nossa incapacidade de compreender Deus e de explicá-Lo aos nossos semelhantes. Certamente, este não é um testemunho de fé triunfal, mas talvez seja, em nossos dias, ainda mais crível.

Ele acrescentou a necessidade de não abandonar as pessoas em seu sofrimento muitas vezes inexplicável — algo que também se aprende de Jó.

O que a homilia não disse

É difícil não notar a ausência quase total de autocrítica institucional na análise de Koch. Os fatores apontados — famílias que não transmitem a fé, a autossuficiência do homem moderno e a dificuldade de crer diante do sofrimento — são reais e relevantes. No entanto, o prelado não mencionou o papel que as ações e omissões da própria hierarquia alemã podem ter desempenhado na perda de fiéis.

Há décadas, parte significativa do episcopado alemão tem expressado publicamente dúvidas ou rejeições a pontos centrais da doutrina e da moral católicas. O “Caminho Sinodal” alemão, iniciado após o escândalo de abusos, priorizou temas como a ordenação de mulheres, a bênção de uniões homossexuais, a democratização da Igreja e a revisão da moral sexual, muitas vezes em tensão com Roma. Dom Heiner Koch é considerado um partidário moderado desse processo: admite a possibilidade futura de mulheres sacerdotes e a aprovação de relações entre pessoas do mesmo sexo, mas defende que essas mudanças ocorram em comunhão com a Igreja universal, e não de forma unilateral pela Alemanha.

De fato, a agenda episcopal frequentemente se concentra em temas da cultura secular — questões LGBT, mudança climática, imigração, democracia, inclusividade e feminismo — por vezes em detrimento da pregação clara sobre a conversão, os sacramentos, a vida eterna e a identidade cristã. O resultado é uma Igreja que, em muitos lugares, parece mais uma organização de serviço social e de opinião política do que uma comunidade de fé com identidade teológica nítida.

Dados oficiais reforçam a gravidade do quadro: a Igreja Católica na Alemanha perdeu centenas de milhares de membros em anos recentes (cerca de 320 mil só em 2024, segundo números citados em análises anteriores). No Leste, a situação de secularização profunda é ainda mais acentuada. A “primeira evangelização” de que fala Koch não é apenas um desafio pastoral, mas a consequência de uma longa erosão espiritual.

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