“Os católicos franceses saíram das catacumbas”: a imprensa impressionada com a viagem do Papa à França
A magnitude das multidões reunidas em Paris e em Lourdes, o entusiasmo dos jovens e a firmeza do Sumo Pontífice na defesa da vida chamaram a atenção da mídia internacional, que se questiona sobre o renascimento do Catolicismo na França.

Foto: screenshot/ Vatican Media
Redação (29/09/2026 10:33, Gaudium Press) De 25 a 28 de setembro de 2026, o Papa Leão XIV realizou sua primeira viagem apostólica à França, passando por Paris, Saint-Denis, Lourdes e Metz. O que muitos observadores esperavam ser uma visita protocolar a um dos países mais secularizados da Europa transformou-se em fenômeno mediático global. Centenas de milhares de fiéis encheram avenidas históricas, um estádio e santuários, enquanto a imprensa de vários continentes se perguntava: a França, tradicionalmente descrita como “filha primogênita da Igreja” em declínio, estaria vivendo um inesperado despertar católico?
As imagens dos Champs-Élysées transformados em uma longa nave de igreja a céu aberto, com cerca de 800 mil pessoas na missa da Praça da Concórdia, circularam rapidamente. Cerca de 80 mil jovens lotaram o Stade de France em uma vigília, e aproximadamente 150 mil se reuniram em Lourdes. Além dos números, o que chamou atenção foi a presença marcante de jovens adultos, muitos sem formação religiosa tradicional, e a firmeza do pontífice — o primeiro Papa nascido nos Estados Unidos e de origem agostiniana — em temas como a defesa da vida e os desafios da tecnologia.
Visão dos italianos: fé pública e doutrina clara
Na Itália, a cobertura foi particularmente atenta. Em La Nuova Bussola Quotidiana, Stefano Fontana descreveu o episódio como “um passo fora das catacumbas”. Para ele, os fiéis não saíram às ruas para reivindicações pontuais, mas para afirmar publicamente a própria identidade católica por meio da oração e dos sacramentos. A Igreja francesa, segundo essa leitura, recuperava visibilidade em plena sociedade laica. “Trata-se da ‘invasão’ numerosa de praças e avenidas, como talvez ninguém esperasse. Não pode ter sido um fenômeno casual ou meramente quantitativo. A questão é que, ocupando ruas e praças, estavam fiéis presentes ali não ‘como católicos’, mas ‘na qualidade de católicos’; eles ocupavam um espaço público e não para se manifestar por alguma emergência social do momento. A Igreja estava presente, a fé também; as pessoas se confessavam e rezavam. Era como uma saída das catacumbas à luz do sol para reivindicar um papel há muito esquecido”, sublinhou Stefano Fontana.
Il Giornale, por sua vez, destacou o “rugido” de Leão XIV contra a eutanásia. Em Lourdes, o Papa afirmou com clareza que “o que é legal não é necessariamente moral”, rejeitando a ideia de “falsa compaixão” associada a leis de morte assistida. “O ‘rugido’ de Leão contra a eutanásia soou no discurso dirigido diretamente aos doentes com quem se encontrou à tarde em Lourdes. ‘O que é legal não é necessariamente moral’, afirmou o Papa, declarando com veemência que ‘é impossível considerar normal tirar a vida’. Para Prevost, a ‘tentação de tirar a vida sob o pretexto de uma falsa compaixão deve ser firmemente rejeitada’, independentemente daquele direito à assistência ao suicídio mencionado no texto promovido por Macron e aprovado pela esquerda francesa”, escreveu Nico Spuntoni.
Sandro De Franciscis, ex-presidente do Bureau de Constatações Médicas de Lourdes, expressou a esperança de que o pontífice ajudasse a França a reencontrar sua vocação histórica. Já o Corriere della Sera enfatizou a escala parisiense. “O sucesso da visita do Papa Leão à França foi estrondoso. Quase um milhão de pessoas nos Champs-Élysées, toda a classe política francesa a seus pés, Marine Le Pen na primeira fila da missa, logo atrás de seu único verdadeiro rival à presidência da República, Édouard Philippe. Macron estava ausente; ele percebeu que havia errado e, para se redimir, compareceu à última missa, na catedral gótica de Metz”. Gian Guido Vecchi comparou os três quilômetros dos Champs-Élysées a uma imensa nave de igreja e notou o clima semelhante ao das Jornadas Mundiais da Juventude, com forte presença jovem.
Alemanha e Espanha: o contraste com a tradição laica
Na Alemanha, Der Spiegel considerou a missa parisiense potencialmente a maior já celebrada na capital francesa, destacando as aclamações ao Papa no papamóvel. A televisão pública, via Tagesschau, enfatizou o número de 800 mil participantes. Na Espanha, El País falou em “triunfo” de Leão XIV em Paris e ressaltou o contraste com a tradição republicana laica. O jornal também deu espaço aos 80 mil jovens no Stade de France e ao apelo papal por uma laicidade que reconheça a contribuição dos crentes ao bem comum.
Estados Unidos: o “laboratório” inesperado do renascimento católico
Nos EUA, o Washington Post dedicou atenção especial ao aumento de conversões e batismos entre jovens adultos na França — um país há décadas associado ao declínio religioso. A reportagem apontou a geração Z, a presença de padres nas redes sociais e jovens que descobrem a beleza da liturgia sem herança familiar católica. Ainda assim, o jornal lembrou que esse movimento não compensa décadas de queda na prática regular. A Associated Press interpretou a afluência parisiense como sinal da influência persistente da Igreja em um Estado oficialmente laico.
Reino Unido: superstar e alertas éticos
A imprensa britânica combinou o entusiasmo popular e o interesse doutrinal. The Times falou em acolhida de “superstar”. The Guardian privilegiou as advertências do Papa sobre o risco de perder nossa humanidade em um “paraíso de máquinas”, além de suas intervenções sobre eutanásia, barriga de aluguel e manipulações genéticas. Em um momento de avanços tecnológicos acelerados e debates éticos intensos, essas palavras ecoaram além dos círculos católicos.
Do Brasil à Ásia: uma viagem de alcance global
No Brasil, a Folha de São Paulo destacou a dimensão internacional da viagem, a surpreendente presença de milhares de pessoas e o desejo de reconciliação em um mundo de pernas para o ar por formas ressurgentes e virulentas de nacionalismo, marcado por conflitos, com atenção especial à etapa de Metz e à homenagem a Robert Schuman, um dos pais da União Europeia. No México, La Jornada focou nos alertas sobre inteligência artificial e na defesa da vida. Na África, a ACI Africa valorizou a mobilização dos jovens franceses; na Ásia, a UCA News acompanhou as intervenções sobre a proteção da vida e o encontro do Papa com vítimas de abusos.

Foto: Vatican Media
Uma França católica que surpreendeu o mundo
A visita de Leão XIV — a primeira de um papa à França com essa envergadura desde Bento XVI, em 2008 — ocorreu em um contexto particular: aumento de pedidos de batismo entre adultos jovens, apesar da tendência de longo prazo de secularização; debates intensos sobre o fim da vida; e preocupações com a inteligência artificial e a dignidade humana. O pontífice também se encontrou com sobreviventes de abusos e insistiu em uma Europa fiel às suas raízes cristãs, de paz e unidade.
A atenção da imprensa internacional converge em um ponto: durante quatro dias, a França mostrou ao mundo uma face católica mais pública e entusiasmada do que as narrativas habituais de declínio sugeriam. A expressão de Stefano Fontana — “um passo fora das catacumbas” — resume bem uma das leituras mais marcantes dessa visita do Papa Leão XIV à França. Trata-se de um momento em que a fé voltou a ocupar, de forma visível e entusiasmada, as ruas, as praças e as câmeras.
Essa imagem, captada por jornais de diversos países, assinala uma Igreja que saiu do espaço privado e se fez presente no coração da sociedade francesa e atraiu a atenção mundial.
Com informações Tribune Chrétienne





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