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Papa Leão XIV em Metz: “não é possível falar da Europa sem fazer referência ao cristianismo”

Leão XIV convida a Europa a reencontrar suas raízes cristãs para construir a paz e o futuro.

Foto: Vatican Media

Foto: Vatican Media

Redação (28/09/2026 10:52, Gaudium Press) Diante do presidente Emmanuel Macron e de diversas autoridades europeias reunidas nesta segunda-feira, 28 de setembro, no Centro de Congressos Robert Schuman, em Metz, o Papa Leão XIV pronunciou um discurso dedicado ao futuro da Europa. Das raízes cristãs do continente à defesa da vida, da laicidade à paz, o Santo Padre traçou os contornos de uma Europa chamada a redescobrir seu patrimônio espiritual para construir seu amanhã.

No último dia de sua viagem apostólica à França, Leão XIV escolheu Metz — cidade histórica, ponto de encontro no coração do continente e símbolo da reconciliação franco-alemã — para este encontro intitulado “Nas raízes da Europa pela paz e pela unidade”. Em seu discurso, o Papa explicou: “Estou muito contente por me encontrar aqui, nesta cidade histórica, ponto de encontro no coração do continente, para um encontro com um título evocativo: Nas raízes da Europa pela paz e unidade”.

O título, segundo o próprio pontífice, inspira-se na figura do Venerável Robert Schuman, a quem prestou homenagem especial neste centro que leva o seu nome e na região do Mosela, onde Schuman viveu, repousa e foi representante, durante muitos anos, na Assembleia Nacional. “Foi desta região, com as suas vicissitudes nos séculos XIX e XX, que ele retirou a inspiração para ajudar a moldar a Europa de hoje e de amanhã através da sua célebre Declaração de 9 de maio de 1950”, afirmou Leão XIV.

As raízes cristãs e monásticas

O Papa iniciou uma “viagem” pelas raízes da Europa, afirmando que ela se compreende, antes de tudo, como uma realidade cultural e histórica. “Antes mesmo de ser uma realidade geográfica, a Europa entende-se como uma realidade cultural e histórica”. E acrescentou que não é possível falar da Europa sem fazer referência ao cristianismo.

Leão XIV destacou o papel de São Bento, proclamado Padroeiro da Europa por São Paulo VI em 1964 como “mensageiro da paz, construtor da união, mestre da civilização”. Recordou a influência dos monges beneditinos na ajuda aos pobres, na educação, nas universidades, nos hospitais, na arquitetura, nas ciências, no direito e na organização das cidades e dos Estados. E declarou de forma enfática: “Sem estes fundamentos monásticos, a civilização europeia tal como a conhecemos não existiria”. Em Metz, graças a São Crodegango e outros, respirava-se um espírito beneditino de fraternidade, e dali o canto gregoriano se espalhou pelos territórios carolíngios.

Citando o próprio Robert Schuman, o Papa reforçou: “O cristianismo ensinou a igualdade de natureza entre todos os homens, filhos do mesmo Deus, redimidos pelo mesmo Cristo, sem distinção de raça, cor, classe ou profissão”. Também recordou as palavras de Alcide De Gasperi sobre a “herança europeia comum” e a moral unitária que exalta a responsabilidade da pessoa humana.

Laicidade e verdadeira colaboração

Sobre o lugar das Igrejas nas sociedades europeias, Leão XIV referiu-se ao artigo 17 do Tratado sobre o Funcionamento da União Europeia, que incentiva “um diálogo aberto, transparente e regular” com as Igrejas, respeitando o estatuto de que gozam nos Estados-Membros. As instituições civis devem respeitar a autonomia das igrejas e promover a sua liberdade de organização, expressão e culto. Este ponto é particularmente importante para França, onde o laicismo é regularmente tema de debates relativos à visibilidade do cristianismo na esfera pública. E esclareceu: “A laicidade que rege a vida dos Estados não implica apenas o caráter não confessional das instituições civis, mas pressupõe uma verdadeira colaboração entre as partes, bem como o respeito pela autonomia das Igrejas, a promoção da sua liberdade de organização, expressão e culto por parte das autoridades estatais e comunitárias”.

Paz não deve ser confundida com irenismo ingênuo

O Papa denunciou que a guerra reapareceu mesmo na Europa: um novo “massacre inútil” que causa inúmeras vítimas civis todos os dias. Insistiu na necessidade de diálogo paciente, coragem nas negociações e disposição de sacrificar algumas posições em prol do bem maior da paz. O Papa não confunde a busca pela paz com um pacifismo ingênuo. “A busca pela paz na Europa, tal como no resto do mundo, não deve ser confundida com um irenismo ingênuo”. Ele insiste, porém, na necessidade de priorizar o diálogo, o respeito ao direito internacional e a negociação, em vez de considerar o acúmulo de armamentos como resposta suficiente às ameaças contemporâneas. “Todavia, é preciso ter cuidado com a ilusão do rearmamento”. Promover a paz, segundo ele, é uma tarefa ativa, e não basta apenas “conter a hemorragia da guerra”.

A Europa, segundo Schuman, é um continente onde se prefere dialogar em vez de recorrer às armas e que se assenta no respeito pelo direito internacional e no princípio de que pacta sunt servanda. Leão XIV lamentou que “hoje em dia, as relações humanas e as relações entre os Estados tornam-se cada vez mais bárbaras. O valor da palavra dada é desprezado; em vez disso, a mentira e o engano são motivos de orgulho”.

Acolhida e integração

Sobre a migração, o Papa recordou a necessidade de vias legais e seguras para proteger as pessoas que fogem de guerras e perseguições, de lutar contra traficantes e de oferecer processos sérios de acolhimento e integração. E ressaltou: “acolher uma pessoa significa integrá-la como se fosse da própria família, oferecendo-lhe a possibilidade de desenvolver os seus talentos, capacidades e sensibilidade, mas também de entrar no espírito da casa que a acolhe”. Trata-se de um encontro entre povos e culturas que exige a redescoberta criativa das raízes e a escuta atenta do outro.

Apelo final aos jovens

Leão XIV reservou a conclusão aos jovens, chamados a construir a Europa de hoje e de amanhã. Ele os incentivou a se tornem artífices da paz, a amar a vida, a constituir família e a defender a dignidade de cada pessoa. Citando Schuman, desejou que a ideia de uma Europa reconciliada, unida e forte se torne o lema das novas gerações. E exortou:

“Aos jovens digo: tende a coragem de viver com responsabilidade a missão de construir a paz no vosso coração, nas vossas relações, na vossa família, nas escolas e nas universidades, na vida das vossas cidades, dos vossos países e de toda a Europa.  Não vos submetais à lógica da violência e da opressão.  Amai a vida em cada momento e não tenhais medo do futuro!

Não tenhais medo de formar uma família, de ter filhos, de defender a dignidade de cada pessoa, do primeiro instante no seio da mãe ao último suspiro.  Não tenhais medo de trabalhar incansavelmente, também através do empenho político, em prol do bem das vossas comunidades.

Sede construtores de comunidade! E, convosco, a Europa, solidamente enraizada, continuará a florescer e a inspirar o mundo inteiro.”

O discurso de Metz, disponível na íntegra no site oficial da Santa Sé, desenha uma Europa cuja identidade profunda não se reduz a instituições ou fronteiras, mas se nutre de um legado espiritual vivo. Ao chamar os jovens a serem construtores de comunidade e defensores da vida desde o primeiro instante até o último suspiro, Leão XIV confiou às novas gerações a missão de fazer frutificar essas raízes em tempos marcados por conflitos e incertezas sobre o futuro do continente.

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