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Precisamos dos Anjos?

São José sabia que, em muitas circunstâncias, um pai pode precisar que um Anjo lhe mostre a decisão a tomar ou a direção a seguir.

Foto: Wikipedia

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Redação (27/09/2026 08:01, Gaudium Press) Há narrações do Evangelho que conhecemos desde criança. O presépio tem Nossa Senhora, São José, o Menino, os pastores, os animais e os Anjos — e tudo nos parece estar exatamente onde deveria estar. Jesus foi concebido pelo Espírito Santo no ventre virginal de Maria e, ainda assim, quis ter um pai na Terra. Por quê?

Talvez nunca consigamos responder inteiramente a essa pergunta. Podemos, entretanto, fazer outra: o que tinha São José de especial para ser o escolhido? O Evangelho, pouco dado a currículos, apresenta esse homem de maneira desconcertantemente breve: José “era justo” (Mt 1,19).

Ele obedecia aos Anjos

Havia nele, porém, outra característica que chama a atenção quando acompanhamos sua história: José sabia ouvir. E, mais particularmente, sabia ouvir os Anjos.

Quando descobriu que Maria estava grávida e ainda desconhecia o mistério da Encarnação, José decidiu afastar-se discretamente. Foi então que um Anjo lhe apareceu em sonho e disse que não temesse recebê-la, pois o fruto do seu ventre havia sido concebido pelo Espírito Santo. José acreditou e obedeceu.

Mais tarde, diante da ameaça de Herodes, outro aviso: deveria tomar o Menino e sua Mãe e fugir para o Egito. José levantou-se durante a noite e partiu para uma terra estrangeira, com idioma e costumes que não conhecia, levando apenas os parcos recursos obtidos com o seu humilde trabalho de carpinteiro. Morto Herodes, recebeu a ordem de voltar e, advertido novamente diante do perigo representado por seu filho Arquelau, dirigiu-se com sua família para a Galileia, estabelecendo-se na pequenina Nazaré.

Há algo bastante interessante nessa sucessão de acontecimentos: os Anjos davam os recados e José os acatava e os colocava em prática com toda a dedicação. A confiança de São José na Providência nunca foi uma desculpa para ficar sentado esperando que Deus fizesse aquilo que cabia a ele fazer. O Céu mostrava o caminho e São José caminhava.

Um mundo muito maior do que imaginamos

São José falava com os Anjos. Vamos nos deter neste ponto. Talvez tenhamos uma ideia bastante modesta do tamanho desse mundo invisível, o mundo angélico. São Tomás de Aquino, ao tratar da quantidade dos Anjos na Suma Teológica, afirma que as substâncias imateriais existem numa multidão imensa, excedendo “como que incomparavelmente” a multidão das substâncias materiais.

Em seu Comentário ao Evangelho de Mateus, São Tomás retoma uma belíssima interpretação dos Padres da Igreja, que ele próprio havia reunido na Catena Aurea. Ao comentar a parábola da ovelha perdida — “Se um homem tem cem ovelhas e uma delas se perde, não deixa ele as noventa e nove nos montes para ir procurar aquela que se perdeu?” (Mt 18,12-14) —, Santo Hilário vê naquela única ovelha todo o gênero humano, enquanto as noventa e nove representam a multidão da glória celeste. São Gregório completa a imagem: as cem ovelhas formavam, originalmente, o conjunto dos Anjos e dos homens; perdida a humanidade, os espíritos angélicos permaneceram no alto, simbolizados pelas noventa e nove deixadas nos montes.

A imagem é extraordinária. Uma única ovelha para representar toda a humanidade; noventa e nove para evocar o mundo angélico. Não se trata, evidentemente, de uma contabilidade do Céu, mas de uma maneira de nos fazer entrever a desproporção entre o pequeno mundo que enxergamos e a imensidão daquele que permanece invisível aos nossos olhos.

Lembro-me de uma homilia em que o saudoso Monsenhor João Clá explicou essa desproporção entre Anjos e homens por meio de uma comparação muito peculiar e fácil de fixar: “Imaginem um enorme tapete persa com suas franjas. Se quiséssemos representar nele a proporção entre o mundo angélico e a humanidade, os homens seriam as franjas; os Anjos seriam o tapete”.

É um pequeno golpe na vaidade da espécie que se acostumou a imaginar-se como a grande atração do universo. Vivemos muitas vezes como se o tapete não existisse e só houvesse as franjas. No entanto, São José vivia com os olhos postos no sobrenatural.

Anjo da Guarda não é coisa de criança

Falar em Anjos hoje pode levar a conversa por caminhos bastante curiosos. Há quem não acredite neles e há quem, no extremo oposto, organize um verdadeiro “cartório celestial”, criando um comércio de informações que ninguém sabe muito bem de onde vieram.

Nada disso é necessário para acreditar seriamente na existência dos Anjos. A Revelação já nos oferece matéria mais que suficiente. Somente nas Sagradas Escrituras, eles são mencionados 313 vezes: 139 no Antigo Testamento e 174 no Novo. Ali, os Anjos aparecem como mensageiros, combatentes, protetores e instrumentos da Providência, e três deles nos são apresentados pelo nome: Miguel, Gabriel e Rafael. Quanto ao nosso Anjo da Guarda, não precisamos saber como ele se chama para recorrer à sua proteção — e muito menos pagar a alguém para descobrir.

A própria doutrina sobre o Anjo da Guarda é muito mais robusta do que a lembrança afetiva de uma oração aprendida na infância. São Tomás ensina que a cada homem é destinado um Anjo para sua guarda, e compreende essa custódia como parte da Providência Divina sobre cada pessoa.

Talvez por termos aprendido ainda pequenos a rezar “Santo Anjo do Senhor, meu zeloso guardador”, acabamos confinando essa oração ao quarto das crianças. É uma injustiça. Um homem de cinquenta anos precisa de seu Anjo da Guarda tanto quanto precisava aos cinco — talvez mais, porque aos cinco pelo menos desconfiava de que não sabia tudo.

Essa oração, aliás, tem uma história muito mais adulta do que sua associação com a infância faz supor. No século XI, o monge Reginaldo de Cantuária escreveu em sua Vita Sancti Malchi versos dirigidos ao Anjo que o guardava: “Angele, qui meus es custos pietate superna, me tibi commissum serva, tueare, guberna” — “Anjo, que és meu guardião pela piedade celeste, guarda-me, protege-me e governa-me, a mim que te fui confiado”. Esses versos constituem um antecedente medieval da tradição de oração ao Anjo da Guarda que chegou até nós.

Não há nada de pueril nisso. Há, ao contrário, o reconhecimento bastante realista de que não enxergamos tudo, não controlamos tudo e não damos conta de tudo. E isso vale especialmente para quem recebeu a responsabilidade de cuidar de outras pessoas. Essa era a consciência de São José.

Há mais gente cuidando de sua casa

Um pai de família tem seu Anjo da Guarda. Sua esposa tem o dela. Cada filho tem o seu. Para quem tem filhos, a ideia deveria ser especialmente consoladora, porque chega uma hora em que nenhum pai consegue acompanhá-los a todos os lugares, e é tranquilizador saber que os Anjos podem fazê-lo.

Há viagens das quais ele não participa, conversas que não escuta, perigos que não consegue prever, escolhas sobre as quais já não tem domínio e sofrimentos dos quais nem sequer toma conhecimento. Nada há de infantil em pedir ao Anjo da Guarda de um filho que o proteja, em recorrer ao Anjo da própria esposa ou em pedir ao próprio guardião luz diante de uma decisão difícil.

Isso não significa esperar aparições, sonhos ou bilhetes celestes com endereço, horário e instruções detalhadas, como aquelas recebidas por São José. A ajuda de Deus pode chegar por meios muito menos espetaculares: uma inspiração, uma conversa, o conselho de alguém, uma leitura, uma circunstância inesperada ou simplesmente aquela clareza que às vezes aparece quando finalmente conseguimos fazer silêncio. O importante é não confundir confiança na Providência com passividade. São José escutava, mas depois se levantava e fazia o que precisava ser feito.

No próximo dia 29 de setembro, a Igreja celebra os três Arcanjos cujos próprios nomes e missões recordam diferentes formas dessa assistência. Miguel aparece ligado ao combate; Gabriel, ao anúncio; Rafael acompanha Tobias em sua viagem e participa de uma história de cura, casamento e família. Um pai de família não precisa fazer muito esforço para descobrir que continua necessitando de ajuda para o combate, de orientação, companhia e cura.

Talvez nunca saibamos inteiramente por que Jesus Cristo, que não precisava de um pai humano para vir ao mundo, quis ter um pai na Terra. Mas sabemos quem Ele escolheu: um homem justo, trabalhador, responsável pela proteção de sua família e suficientemente humilde para admitir que não conseguiria encontrar sozinho todos os caminhos.

São José, escolhido para ocupar o papel de pai do Filho do próprio Deus, sabia que, em muitas circunstâncias, um pai pode precisar que um Anjo lhe mostre a decisão a tomar ou a direção a seguir. E, nesses tempos tão difíceis, em que as franjas do tapete se agitam em tantas direções, aos pais fica o meu conselho: inspirem-se em São José e alimentem a fé e a confiança nos que ocupam o centro do tapete, criados para nos guiar.

Por Afonso Pessoa

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