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Núncio apostólico na Alemanha alerta: adaptar a Igreja à sociedade não a salvará

“Não se deve ter a ilusão de que, se a Igreja se adaptar o suficiente à sociedade, isso a salvará. Isso não vai acontecer. A Igreja tem uma mensagem, a mensagem de Jesus Cristo. Mas a sociedade quase não tem mais interesse nessa mensagem”.

Dom Hubertus Matheus Maria van Megen Foto: Vatican Media

Dom Hubertus Matheus Maria van Megen Foto: Vatican Media

Redação (25/09/2026 08:43, Gaudium Press) O arcebispo holandês Hubertus Matheus Maria van Megen, nomeado núncio apostólico na Alemanha pelo Papa Leão XIV em 9 de abril passado, ainda está nos primeiros meses de sua missão no país. Depois de apresentar as cartas credenciais ao presidente Frank-Walter Steinmeier em 23 de julho, o diplomata de 64 anos concedeu sua primeira grande entrevista ao portal katholisch.de. As declarações repercutiram amplamente, especialmente por sua franqueza sobre o Caminho Sinodal alemão, a secularização e o perfil ideal de um bispo.

Van Megen chegou a Berlim após cerca de 16 anos de serviço na África — primeiro como núncio no Sudão e na Eritreia, depois no Quênia e no Sudão do Sul, além de observador permanente da Santa Sé junto ao Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) e ao ONU-Habitat. Quando a notícia de sua transferência para a Alemanha se espalhou no continente africano, sacerdotes e leigos reagiram com uma advertência quase unânime: “Ah, o senhor vai para a Alemanha. Tenha cuidado! Eles querem uma Igreja que simplesmente não pode existir”. O próprio núncio relata a frase com certo humor, mas reconhece que ela resume uma tensão real.

Primeiras impressões de um “vizinho” que descobriu não conhecer tanto assim

Nascido em 4 de outubro de 1961 em Eygelshoven, na província de Limburgo, muito perto da fronteira com a Alemanha (e com raízes familiares em Aachen e Düsseldorf), van Megen cresceu falando alemão com fluência e imaginava conhecer bem o país. A proximidade com a região fortemente católica de Aachen o levava a acreditar que a Alemanha era um país “muito católico”. A realidade o decepcionou.

Após algumas semanas em Berlim, confessou: “Eu não sei praticamente nada da Alemanha”. Reside na nunciatura, localizada no limite entre os bairros de Kreuzberg e Neukölln, desloca-se de metrô e já visitou o Altes Museum e a Catedral de Berlim. Para ele, um diplomata precisa abrir-se à cultura e à história do país em que serve.

Como holandês, identifica paralelos claros com a Igreja de seu país natal. Lá, o processo de secularização avançou décadas atrás; na Alemanha, ele ocorre com certo atraso. “O processo de secularização continua avançando”, resume. O declínio no número de católicos, segundo o núncio, tem três causas principais: o escândalo dos abusos, a queda da natalidade e, sobretudo, o fato de que a mensagem da Igreja simplesmente deixou de interessar a grande parte da sociedade.

A ilusão de salvar a Igreja adaptando-a

O diagnóstico central de van Megen é direto e sem rodeios: “Não se deve ter a ilusão de que, se a Igreja se adaptar o suficiente à sociedade, isso a salvará. Isso não vai acontecer. A Igreja tem uma mensagem, a mensagem de Jesus Cristo. Mas a sociedade, e precisamos ser sinceros a esse respeito, quase não tem mais interesse nessa mensagem”.

Essa convicção nasce da experiência pessoal. Nos Países Baixos, tentativas de reforma e adaptação não reverteram o esvaziamento das igrejas. Na África, onde a fé continua viva e as comunidades crescem, muitos dos debates que agitam a Alemanha simplesmente não existem. O núncio chega a admitir, quase com frustração, que nunca imaginou que as visões de mundo de um bispo senegalês e de um bispo alemão pudessem ser tão diferentes. “Essa é a grande tensão. Como se mantém unida esta Igreja universal?”, questiona.

Sobre o Caminho Sinodal e sua continuidade na Conferência Sinodal, van Megen reconhece o esforço alemão de apresentar sempre as propostas a Roma. “Percebe-se que a Igreja daqui não quer seguir sozinha. Ela tem consciência de que faz parte da Igreja universal”. Ainda assim, avalia que “os alemães, segundo minha impressão, querem muitas vezes demais e rápido demais”. Questiona a motivação das reformas: pensa-se que determinada mudança salvará a Igreja? Isso, insiste, seria uma ilusão.

O vocabulário do processo também o incomoda. Quando se fala em “uso do poder” — tema que o presidente da Conferência Episcopal Alemã, bispo Heiner Wilmer, considera ainda aberto —, o núncio pergunta: “Por que se diz ‘poder’ e não ‘autoridade’ ou ‘serviço’? O poder tem para mim algo negativo, algo opressivo. Vejo isso também em muitos documentos do Caminho Sinodal: poder, poder, poder. Essa palavra me parece quase perigosa”.

Os estatutos da Conferência Sinodal aguardam a recognitio romana. Vários dicastérios analisam o texto. Van Megen evita prognósticos e recomenda serenidade: “Roma não é Berlim; algumas coisas no Vaticano simplesmente demoram um pouco mais”. Ele sublinha que a Alemanha não é o único país com o qual a Cúria se ocupa e que muito dependerá de como o Papa vê a questão. Ele considera positivo que Wilmer esteja em contato permanente com Roma e resume sua posição com uma recomendação: “Vamos esperar com toda a tranquilidade”. Espera viajar a Roma no final de outubro para ouvir a avaliação da Cúria e do Papa.

O perfil de um bispo para a Igreja universal

Uma das tarefas centrais do núncio é a busca de candidatos para as dioceses vagas. Aqui a diferença com a África é gritante. No continente africano, chegava a ter até 30 candidatos idôneos para uma diocese. Na Alemanha, dez já seria muito, e metade poderia ser descartada por falta de sacerdotes ou pelo medo da responsabilidade e da pressão pública.

Para van Megen, o essencial em um bispo não são as competências administrativas (para isso existem especialistas), mas o carisma: a capacidade de inspirar os fiéis. Além disso, o prelado precisa de visão universal. “Não deveríamos fazer bispo ninguém que esteja sentado com os olhos vendados e não saiba o que acontece fora dos limites de sua diocese. Somos uma Igreja universal”. Um bispo na Alemanha deve compreender o que significa ser Igreja na África, na América Latina ou na Ásia. “Um bispo não pode ser uma pessoa cinzenta”, insiste.

Um mediador com olhar africano em um país em transformação

Van Megen se vê como mediador e construtor de pontes entre a Igreja local e a universal. Desde a nomeação, enfatiza a necessidade de ouvir e compreender as motivações profundas dos fiéis alemães, não apenas os argumentos racionais. Sua longa experiência africana, marcada por culturas e realidades muito distintas das europeias, parece prepará-lo justamente para esse papel de diálogo sem concessões à unidade da fé.

A chegada do núncio holandês ocorre em um momento delicado para a Igreja alemã: declínio demográfico, perda de relevância social, tensões com Roma e a busca por reformas que, segundo ele, não resolverão o problema de fundo — o desinteresse da sociedade pela mensagem cristã. Suas palavras, claras e sem exageros diplomáticos, colocam sobre a mesa uma questão que atravessa toda a Igreja universal: como permanecer fiel à própria identidade em um mundo que se distancia cada vez mais dela? O futuro da Igreja não depende da adaptação excessiva ao mundo, mas da fidelidade ao Evangelho que, em muitos lugares do mundo, ainda continua a atrair e a transformar vidas.

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