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Primeiro discurso de Leão XIV no Palais de l’Élysée em Paris

Em um discurso dirigido às autoridades francesas e à sociedade civil, Leão XIV falou sobre as tendências preocupantes que ameaçam reduzir a ciência e a tecnologia a empreendimentos lucrativos que fomentam a morte planejada. Ele também destacou a grande herança católica da França, que irradiou e moldou o mundo inteiro.

Foto: Vatican Media

Foto: Vatican Media

Redação (25/09/2026 08:43, Gaudium Press) No primeiro dia de sua viagem apostólica à França, o Papa Leão XIV foi recebido no aeroporto de Orly e encontrou-se em particular com o presidente Emmanuel Macron no Palais de l’Élysée. Em seguida, dirigiu-se às autoridades, à sociedade civil e ao corpo diplomático em um discurso solene cuja lema — repetido três vezes — ecoou como um chamado: “para que o mundo tenha vida”.

O Papa saudou o “patrimônio cultural e religioso” da França e recordou suas próprias “origens familiares normandas e bearnesas”. Partindo do nome de “Cidade Luz” atribuído a Paris, afirmou que “há séculos que a França brilha como um farol cultural, artístico e espiritual, não só na Europa, mas em todo o mundo”. Destacou o papel das escolas catedrais, universidades e academias na formação da inteligência dos povos e lembrou que “a iluminação de mentes francesas extraordinárias, que eram, simultaneamente, grandes católicos, sublinha até que ponto as ciências, as artes, a literatura e a filosofia podem contribuir para o bem da humanidade, desde que estejam orientadas para a busca do belo, do bem e do verdadeiro, para que o mundo tenha vida”.

Notre-Dame: símbolo de esperança reencontrada

Leão XIV saudou a atenção especial do presidente francês e a colaboração de instituições públicas e privadas, bem como a excelência dos artesãos e profissionais envolvidos na restauração da Catedral de Notre-Dame de Paris. “A recente reabertura da Catedral à celebração do culto divino e a visitantes do mundo inteiro não é apenas o coroamento de uma proeza técnica, mas o símbolo de uma esperança reencontrada, a prova de que aquilo que se pensava estar destruído para sempre pode renascer graças à colaboração de todos, o testemunho de uma unidade alcançada por meio do esforço comum.” Convidou todos os agentes da vida política, social e religiosa a inspirar-se nesse feito para “trabalhar incessantemente em espírito de unidade, com a força de uma esperança viva”.

Recordou as ricas raízes cristãs da França, desde Santo Ireneu e do batismo de Clóvis: “a alma da vossa pátria desenvolveu-se, haurindo no cristianismo um gênio espiritual, cultural, intelectual, artístico e missionário, que hoje resplandece em todo o mundo.”

Dignidade humana, direitos e o “paraíso das máquinas”

O Papa evocou René Cassin e a Declaração Universal dos Direitos do Homem, proclamada em Paris, “o reconhecimento dos direitos humanos inscritos na natureza da própria pessoa, em particular a liberdade religiosa”. E citou São João Paulo II, que a considerava “uma pedra miliária no caminho do progresso moral da humanidade”. Sublinhou que a liberdade, a igualdade e a fraternidade “não são meras palavras gravadas nos frontões dos edifícios públicos, mas remetem para exigências éticas universais, que têm na mensagem evangélica uma fonte inesgotável de inspiração e realização”.

Referindo-se à sua primeira encíclica, Magnifica Humanitas, advertiu sobre o lado ambíguo do progresso tecnológico. Citou Georges Bernanos e o risco de um “Paraíso das Máquinas”, insistindo na urgência de formar espíritos para um discernimento ético: “Para não perdermos a nossa humanidade no meio do ‘paraíso das máquinas’, que invade e condiciona o nosso quotidiano, é urgente formar os espíritos para um discernimento ético, capaz de distinguir o que é moralmente bom.” Recordou ainda que “uma sociedade autenticamente livre não impõe a uniformidade, mas protege a diversidade de consciências”.

Cuidado com os mais frágeis e proteção da vida

Leão XIV elogiou a tradição de solidariedade da França e a obra da Igreja católica em favor dos mais desfavorecidos, desde São Vicente de Paulo até as instituições de saúde atuais. Reafirmou com veemência “que a salvaguarda do direito à vida constitui o fundamento imprescindível de todos os outros direitos humanos”. Alertou contra a tentação de esperar da ciência “solução e conforto para todos os nossos sofrimentos” e denunciou desvios que transformam a ciência e a tecnologia em “empreendimentos lucrativos que favorecem as manipulações genéticas, a maternidade de substituição, o tráfico de órgãos ou a oferta de uma morte programada”.

A verdadeira laicidade

Sobre a laicidade, o Papa afirmou: “a verdadeira laicidade não exclui a dimensão religiosa, mas, pelo contrário, sabe valorizá-la como um recurso educativo.” Defendeu o lugar da escola católica no panorama educativo francês e explicou que “uma correta laicidade não consiste, portanto, em excluir a religião do espaço público ou do ensino, mas em trabalhar em prol do diálogo entre o Estado e as instituições religiosas, para que unam forças ao serviço do bem comum, para que o mundo tenha vida”. Saudou a Instância de diálogo entre a Santa Sé, a Igreja na França e o Governo francês, citando o Concílio Vaticano II sobre a “sã cooperação” entre comunidade política e Igreja.

Cristãos do Oriente e o apelo à paz

O Papa elogiou a cooperação histórica entre a França e a Igreja em favor dos cristãos do Oriente, destacando o trabalho de associações como a Ajuda à Igreja que Sofre e a Œuvre d’Orient, bem como o Fundo para as Escolas do Oriente, que desde 2021 apoiou mais de 260 instituições de ensino no Médio Oriente.

Diante dos conflitos que afligem a região e o mundo, afirmou: “Não podemos permanecer indiferentes perante tais sofrimentos, que ferem a dignidade humana e clamam justiça a Deus.” Citou São João XXIII sobre a necessidade de interromper a corrida aos armamentos e proibir as armas atômicas, e condenou a ideia de que a posse de armas nucleares seja garantia de segurança. “A paz não é um equilíbrio de forças, mas constrói-se dia a dia com o diálogo e a justiça.”

Com firmeza, exortou: “a nunca vos resignardes à perspectiva de uma guerra, considerando-a ‘inevitável’, mas a promover incansavelmente o diálogo e a diplomacia.” E concluiu com um reconhecimento do papel da França: “Perante os rumores de guerra e as crises multifacetadas que abalam o nosso mundo, a França tem a vocação de continuar a ser uma artífice incansável da paz e do multilateralismo, especialmente no interior da nossa querida Europa.” Desejou que o país “abra caminho para uma paz desarmada e desarmante” e ofereça “o seu contributo insubstituível em prol da paz”.

Encerrando, o Papa recordou palavras do próprio presidente Macron de 2018 sobre a relação entre Igreja e Estado: “uma Igreja que pretenda desinteressar-se das questões temporais não cumpriria plenamente a sua vocação; e que um Presidente da República que pretenda desinteressar-se da Igreja e dos católicos falharia ao seu dever”.  E assegurou suas “fervorosas orações” pela “linda nação” francesa, confiando-a à intercessão de Nossa Senhora, Padroeira principal da França: “Que Deus abençoe a França e todos os franceses!”

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