Reitor de universidade católica: IA pode agravar crises de saúde mental
O dom da fé e o dom da graça recebidos no Batismo oferecem a resposta para a atual crise de identidade, de solidão e religiosa, que a IA tende a agravar.

Padre Sikorsky – Foto: legionariesofchrist.org
Redação (25/09/2026 11:10, Gaudium Press) No dia 5 de setembro, o Santuário Nacional de São João Paulo II, em Washington D.C., sediou um encontro especial dedicado à encíclica Magnifica Humanitas, a primeira carta do Papa Leão XIV. O documento aborda a salvaguarda da pessoa humana na era da inteligência artificial e convida a sociedade a escolher entre construir uma nova “Torre de Babel” tecnológica ou uma cidade em que Deus e a humanidade convivam.
Durante o evento, o Pe. Charles Sikorsky, sacerdote dos Legionários de Cristo e presidente da Divine Mercy University — uma instituição católica de pós-graduação em psicologia e aconselhamento localizada em Sterling, Virgínia —, alertou para os riscos que a inteligência artificial pode representar para a saúde mental. Segundo ele, a tecnologia tem potencial para agravar a crise já existente, aprofundando dificuldades ligadas à identidade, à solidão e ao sentido da vida.
O sacerdote baseou sua análise no trabalho do psiquiatra David Rosmarin, diretor do Laboratório de Espiritualidade e Saúde Mental do Hospital McLean, vinculado à Faculdade de Medicina de Harvard. Rosmarin identifica três raízes principais da atual crise de saúde mental: uma crise de identidade, uma crise de conexão e uma crise de significado.
A identidade humana vem de Deus
Para o Pe. Sikorsky, o primeiro desafio é a dificuldade de muitas pessoas em responder à pergunta “quem sou eu?”. “Há uma crise de identidade generalizada em nossa cultura”, afirmou. O enfraquecimento das famílias, as transformações sociais aceleradas, a mobilidade constante e a perda de referências tradicionais contribuem para esse quadro. Nesse contexto, a inteligência artificial pode intensificar o problema.
“A IA pode realmente alimentar essa crise de identidade quando as pessoas buscam fora de si mesmas a estabilidade e a resposta sobre quem são”, explicou. Na perspectiva cristã, a identidade humana não se fundamenta no trabalho, nos sucessos ou nas habilidades. Cada pessoa é única e irrepetível, criada à imagem e semelhança de Deus e chamada à comunhão com Ele. Por isso, uma doença ou um diagnóstico pode afetar o funcionamento de alguém, mas não define quem a pessoa é nem se torna sua identidade.
A tecnologia não substitui as relações humanas
O segundo ponto abordado foi a solidão. O ser humano, segundo o sacerdote, foi feito “para as relações”. Ele comparou os riscos da inteligência artificial aos já observados nas redes sociais: “Penso na IA como uma espécie de redes sociais com esteroides”. A diferença é que agora é possível manter uma conversa prolongada com um robô.
O sacerdote também criticou o uso crescente de chatbots como forma de acompanhamento ou terapia. Um dos elementos mais importantes para o sucesso de um tratamento psicológico é a relação entre paciente e terapeuta. “Se essa relação é forte, as chances de sucesso aumentam muito”, destacou. A tecnologia, por mais avançada que seja, não consegue substituir o vínculo humano autêntico.
A IA não oferece uma visão religiosa da vida
A terceira crise mencionada foi a do sentido. Hoje as pessoas têm acesso a uma quantidade imensa de informação, mas frequentemente carecem de uma visão coerente sobre sabedoria, propósito, sofrimento e destino humano.
A inteligência artificial pode responder perguntas e fornecer dados, mas não resolve as questões existenciais mais profundas: “Quem sou eu? Por que estou aqui? Para onde vou? Como chegar lá?”. O Pe. Sikorsky enfatizou: “A IA pode ajudar na reflexão, mas não pode assumir responsabilidade moral. Não pode nos ajudar a discernir nosso caminho, viver nossa vocação. Não pode amar”.
Essas perguntas, segundo ele, conduzem diretamente à dimensão religiosa da existência. “Fomos feitos para amar. Fomos feitos para amar a Deus, receber e ser amados por Ele, e amar o próximo”.
O Batismo como a forma mais elevada de identidade
Ao concluir, o Pe. Sikorsky retomou os três desafios — identidade, conexão e sentido — e mostrou como a fé cristã oferece respostas concretas a cada um deles.
“Temos o dom da fé e da graça, que nos dá uma identidade: a forma mais elevada de identidade, recebida no Batismo, como filhos de Deus e irmãos e irmãs de Cristo”, afirmou. Destacou ainda o papel das paróquias e comunidades cristãs no combate à solidão e no fortalecimento dos laços humanos. Por fim, lembrou que a fé responde às perguntas fundamentais da vida: “Fomos feitos para o Céu. Esse é o nosso destino último, o nosso maior dom e a nossa missão”.
A encíclica Magnifica Humanitas reforça a necessidade de colocar a pessoa humana no centro do desenvolvimento tecnológico, evitando que a inteligência artificial se torne uma força desumanizadora. O encontro no santuário de São João Paulo II serviu como espaço de reflexão sobre como a fé e a ciência podem caminhar juntas para enfrentar os desafios da era digital.
Com informações Aciprensa





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