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Escolas reabrem em Gaza: sinal de esperança em meio aos escombros

No total, 1.005 alunos voltaram às aulas. Para a pequena comunidade cristã local, o momento trouxe um raio de normalidade e esperança — mesmo que, na Faixa de Gaza, a normalidade ainda esteja distante.

Foto: Latin Patriarchate of Jerusalem

Foto: Latin Patriarchate of Jerusalem

Redação (23/09/2026 10:56, Gaudium Press) Num cenário urbano devastado por três anos de bombardeios, com prédios destroçados por mísseis e ruas tomadas por destroços, o som de um sino escolar parece quase um milagre. No dia 22 de setembro, a escola do Patriarcado Latino de Jerusalém em Gaza, vinculada à paróquia católica da Sagrada Família, reabriu oficialmente as portas para o ano letivo 2026-2027. No total, 1.005 alunos voltaram às aulas: crianças de 2 a 5 anos da educação infantil, alunos do ensino fundamental e médio. Para a pequena comunidade cristã local, o momento trouxe um raio de normalidade e esperança — mesmo que, na Faixa de Gaza, a normalidade ainda esteja distante.

Uma luz na escuridão

O pároco, padre Gabriel Romanelli, descreveu o dia como de emoção indescritível. “Hoje vimos lágrimas de alegria nos olhos das crianças e dos pais ao reencontrarem a escola depois de três anos longuíssimos”, afirmou. Suas palavras ecoaram em agências de notícias e meios de comunicação católicos internacionais como um gesto de resistência e de confiança no futuro, no meio de uma das crises humanitárias mais graves deste século.

A volta às aulas das escolas católicas ocorre num contexto geral assustador. Dados recentes do Unicef indicam que cerca de 98% dos prédios escolares do enclave palestino foram destruídos ou gravemente danificados. Mais de 660 mil alunos ficaram sem o direito básico à educação presencial. A retomada oficial das aulas em Gaza começou em 19 de setembro, mas a maioria dos 541 mil estudantes estuda em tendas improvisadas, espaços provisórios ou estruturas de concreto em ruínas. Faltam carteiras, cadernos, canetas e livros — materiais cujos preços se tornaram inacessíveis para famílias que perderam tudo. O custo humano também é elevadíssimo: autoridades locais estimam que cerca de 22 mil alunos e mais de 770 profissionais da educação (incluindo mais de 530 professores) perderam a vida no conflito.

O “milagre” da Sagrada Família

Em meio a esse deserto de escombros, a paróquia da Sagrada Família funcionou durante meses como um dos poucos refúgios seguros. No auge dos combates, seus espaços abrigaram mais de 450 deslocados. Apesar do perigo constante e da escassez de comida e água potável, a comunidade conseguiu manter formas rudimentares de ensino para as crianças que ali estavam. “Na primavera, quando algumas famílias conseguiram voltar para casa ou encontrar outro lugar, pudemos receber mais alunos”, explicou o padre Romanelli. “Este local, que serviu de abrigo no pior momento, retoma agora sua missão educativa. Esperamos que seja um espaço de amor, de cura e de respeito mútuo.”

A escola do Patriarcado Latino é, atualmente, a única instituição escolar cristã em funcionamento em Gaza. A reabertura permitiu a construção de um novo prédio para a educação infantil, graças a doadores internacionais, e o retorno de 77 professores. Ainda assim, o desafio é duplo: falta mobiliário e material básico, e há uma urgência profunda de cuidado emocional. Por isso, o currículo combina as disciplinas tradicionais com um forte programa de atividades de apoio psicológico, voltado tanto para alunos quanto para educadores, a fim de ajudar a processar os traumas de três anos de interrupções, privações e violência.

A decisão de reabrir o quanto antes foi firmemente apoiada pelo Patriarcado Latino de Jerusalém e pelo próprio patriarca, o Cardeal Pierbattista Pizzaballa. Em visitas recentes a Gaza, ele levou conforto à população e reiterou a solidariedade do Papa e da Igreja. Em mensagem repetida várias vezes, o cardeal perguntou: “Sem oferecer educação às crianças, como pode haver esperança para este povo e para o mundo?”. Em carta pastoral às escolas da diocese, ele lembrou que, na Terra Santa, o início do ano letivo “já não pode ser considerado algo garantido”, pois muitas salas de aula desapareceram e a reconstrução ainda tem um longo caminho. Ainda assim, trata-se de um primeiro passo significativo.

As crianças de Gaza

Justamente pelo sofrimento imposto aos mais jovens, nos últimos dias ganhou força um debate internacional em torno da proposta simbólica de conceder o Prêmio Nobel da Paz às crianças da Faixa de Gaza. Comentando a iniciativa, o padre Romanelli expressou apoio espiritual e moral: “As crianças de Gaza se tornaram um símbolo. Mais de vinte mil delas foram mortas. Esse número enorme nos lembra de cada criança morta em qualquer lugar do mundo, vítima inocente das guerras”.

Enquanto a diplomacia internacional tenta traçar caminhos para o futuro da região, a atuação concreta da Igreja local mostra que a reconstrução do Oriente Médio precisa começar pelas bases: devolver às crianças o direito de sentar num banco escolar, segurar um lápis e voltar a sonhar. Em comunicado, o Patriarcado Latino de Jerusalém afirma que continuará trabalhando para que a Igreja permaneça ao lado da comunidade, oferecendo não apenas testemunho espiritual, mas também ajuda concreta, educação e serviços essenciais.

A reabertura dessa escola não apaga a devastação nem resolve a crise humanitária. Mas, num lugar onde quase tudo foi destruído, o som de um sino e o retorno de mil crianças às salas de aula representam algo poderoso: a recusa de abandonar o futuro.

Com informações Vatican News

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