Luís XIV irradiava respeitabilidade
No Castelo Saint-Germain-en-Laye, próximo de Paris, nasceu em 1638 um varão que reinou na França durante 72 anos e, devido ao intenso brilho de sua personalidade, foi denominado “Rei Sol”.
Redação (23/09/2026 10:56, Gaudium Press) Filho de Luís XIII e Ana d’Áustria, Luís XIV veio ao mundo após 23 anos do casamento deles. Sua mãe era filha do Rei da Espanha Felipe II. Em 1643, Luís XIII faleceu; Luís XIV tornou-se rei aos quatro anos e Ana d’Áustria ficou Regente. Recebeu formação militar do grande General Turenne e foi sagrado rei, em 1654, na Catedral de Reims.
Aos 22 anos de idade, casou-se com Maria Teresa da Áustria, filha do Rei da Espanha Filipe IV; tiveram seis filhos dos quais apenas um chegou à idade adulta.
Em 1661, iniciou a construção do grandioso Palácio de Versalhes, perto de Paris, com 2.300 compartimentos dispostos e decorados com esplendor. Fez com que os nobres deixassem suas terras – das quais muitos deles eram senhores feudais – e fossem residir no Palácio.
Foi uma atitude absolutista, mas, de certo modo, ele quebrou a dureza do absolutismo abrindo Versalhes ao povo para assistir as refeições do rei.
A grandeza de Luís XIV suscitou homens de elevadas qualidades em diversos campos na cultura, tais como: Bourdaloue, Bossuet, na oratória sacra; Condé e Turenne, na guerra; Duque de Saint- Simon, Corneille, Madame de Sévigné, na literatura; Lully, na música; e até na jardinagem: Le Nôtre.
Bourdaloue em seus sermões na Corte censurava os maus costumes. “Dizia sem temor a verdade às pessoas gradas bem como às simples, e lhes arrancava a máscara do rosto”.[1]
Madame de Maintenon
Luís XIV cometeu pecados de infidelidade conjugal que se tornaram de conhecimento público. Após a morte de sua esposa, em 1683, casou-se com Madame de Maintenon, católica dedicada que exerceu ótima influência sobre o rei.
Revogou o Edito de Nantes que dava liberdade aos protestantes. E fundou, a pedido dela, a Casa Real de São Luís, em Saint-Cyr – próximo a Versalhes –, para a educação cristã de moças nobres cujas famílias ficaram empobrecidas.
Proibiu o ensino do cartesianismo nas escolas superiores.[2]
O problema da dúvida metódica cartesiana ignora tudo o que é adquirido anteriormente ao raciocínio abstrato. Foi para sanar essa fatal lacuna de seu sistema que Descartes imaginou a tese da existência de ideias inatas, considerada absurdo pela sã Filosofia.[3]
Atingido por uma embolia, Luís XIV morreu em 1715. Todos seus filhos e netos tinham falecido e seu sucessor foi seu bisneto Luís XV, que contava cinco anos de idade.
Até depois de morto impôs respeito
Sintetizamos comentários feitos por Dr. Plinio Corrêa de Oliveira a respeito do Rei-Sol.
Luís XIV reunia a elegância francesa com certa grandeza espanhola, explicando o que esse monarca tinha de solar. Possuía grande majestade e irradiava respeitabilidade.
Seu corpo estava sepultado na Basílica de Saint-Denis, próxima de Paris. Durante a Revolução Francesa, turbas diabólicas abriram seu esquife e se depararam com seu cadáver enegrecido, o qual possuía tal majestade que o populacho, ao invés de se atirar em cima como fizera com todos os outros, teve um suspense e recuou um pouco. Portanto, até depois de morto o Rei-Sol impôs respeito. Depois, recuperados do impacto, eles arrancaram o corpo de dentro do caixão e lançaram-no na vala comum.
A verdadeira respeitabilidade produz estes dois efeitos: a veneração de quem admira e o ódio de quem se revolta. A própria majestade de Deus causava sobre os espíritos angélicos esse duplo efeito. Satanás e os dele se revoltaram, enquanto São Miguel e seus Anjos admiraram. A respeitabilidade de Luís XIV provinha de sua personalidade e irradiava dele inteiro.
Se olhando para um homem contemplei a majestade de sua alma e, através dela, formei uma ideia do que é a majestade em abstrato, considerada em seu modo absoluto, eu adquiri algo que tem certa analogia com a visão beatífica. De fato, mesmo sem explicitar, em Luís XIV algo da majestade de Deus foi vista.
Isso nos explica porque aqueles bandidos recuaram quando viram o cadáver de Luís XIV. Sempre que um atributo bom e digno da alma de um homem aparece com tanta intensidade, a ponto de provocar um pasmo, uma surpresa, um entusiasmo, um enlevo ou um sentimento de veneração recolhida, há uma transparência de algo de divino.
É verdade que o rei cometeu muitos pecados. Mas “ele se penitenciou e passou seus últimos vinte anos como um homem de vida ilibada, modelar”.[4]
A verdadeira majestade, colocada diante da boa vontade de quem é menor, se traduz em paternalidade e tem vontade de proteger; posta diante da resistência de quem é ruim, ela se traduz num ímpeto para destruir.
Vemos isso de modo infinito e paradigmático em Nosso Senhor Jesus Cristo: infinitamente manso, ensinando que se deve ser manso e humilde de coração, mas de outro lado, em alguns episódios da vida, incutindo um assombro que deixava as pessoas sem saber o que dizer, como aqueles canalhas que foram prendê-Lo e caíram com a cara no chão, simplesmente pela afirmação: “Sou Eu!” Era a manifestação da infinita majestade d’Ele.
A frivolidade intoxicou os reinados seguintes
Ele teve o desejo imenso de fazer vencer o charme, a elegância, a glória, o idioma e o esplendor franceses. Batalhou pela difusão da cultura francesa, como um rei guerreiro lutaria pela expansão de seu exército.
No sentido cultural Luís XIV encheu a França da luz dele e transformou a vida meio burguesona da França, de maneira a todo o país ficar luzidio de uma certa luz de Versalhes.
Por outro lado, Luís XIV inseriu nesse mundo de elegâncias a frivolidade. Com isso entrou na França uma identificação entre charme leve, frivolidade e cultura, que intoxicou os reinados seguintes. Preparava-se a Revolução Francesa.
Uma influência do Sagrado Coração de Jesus era o único fato que poderia acertar isso, colocaria a Europa nos seus trilhos e evitaria a Revolução Francesa. Teria começado uma Contra-Revolução admirável!
Poderíamos imaginar Luís XIV com a majestade do Sagrado Coração de Jesus. Mas de um rei também sofredor, penitente, que expia seus próprios pecados em público, e fazendo penitência descalço, como fez São Luís IX.
Por exemplo, na Sexta-Feira Santa, a magnificência que teria sido ver Luís XIV carregar uma cruz às costas, para pedir perdão de sua péssima vida…[5]
No mundo atual, o trato entre as pessoas vai se tornando abrutalhado, nos trajes predominam o feio, o rasgado, a indecência. A respeitabilidade foi expulsa.
Peçamos a Nossa Senhora a graça de sermos o oposto dessas péssimas tendências a fim de glorificarmos a Deus e salvar nossas almas.
Por Paulo Francisco Martos
Noções de História da Igreja
[1] WEISS, Johann Baptist. Historia Universal. Barcelona: La Educación. s/d. v. XI, p. 695.
[2] Cf. MÉTHIVIER, Hubert. Le siècle de Louis XIV. Paris: Presses universitaíres de France. 6. ed. 1971, p. 80, in Que sais-je? n. 426.
[3] Cf. CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. O senso católico e o desabrochar das certezas. In Dr. Plinio. São Paulo. Ano IV, n. 37 (abril 2001), p. 30.
[4] Idem. Luís XIV e a respeitabilidade. In Dr. Plinio. Ano XXIII, n. 270 (setembro 2020), p. 35.
[5] Cf. Idem. O brilho de Luís XIV – In Dr. Plinio. Ano XIX, n. 222 (setembro 2016), p. 8-14.






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